Como ser levado a sério sendo uma pessoa engraçadinha

Era uma pergunta, até que parei de me importar

A primeira vez que tive que lidar com o fato de que as pessoas não me levavam a sério foi no meu primeiro emprego de oito horas por dias. Nos estágios ainda não tinha passado por isso, e como esse era um emprego na área de cultura, achava que seria um desses esses espaços lindos de aceitação de quem você é, contanto que você fizesse as coisas direito. Eu era besta assim mesmo. Mas nem é uma teoria ruim, se você não estiver lidando com seres humanos.

No meu primeiro emprego confesso que não sabia administrar o fato de que teria que ficar oito horas no escritório (eu ainda não sei, ha), mesmo que não tenha nada para fazer (acho essa obrigação ridícula para 2016, a menos que você seja alguém que tenha obrigações durante as oito horas e que precise resolvê-las no escritório), então a minha maturidade de 20, 21 anos não contribuiu. No começo eu nem notava o quanto as pessoas curtiam rir da minha cara, até que, quando desenvolvi transtorno de ansiedade e fiquei muito mal no trabalho, percebi o quanto a minha chefe se divertia humilhando “a estabanada” do setor.

E não era só ela. Meu segundo emprego tentou ser mais discreto, mas era em em São Paulo e uniu o fato de eu ser nordestina com o de eu ser “engraçadinha” (leia-se por me vestir diferente e ser bem-humorada com as pessoas). Um dia enchi o saco e pedi demissão. Mas nada se comparava aos seguintes — em uma agência de publicidade de Salvador, o chefe chegou a me pedir para que eu “me vestisse direito” para uma reunião, e em um outro trabalho, chegaram a me chamar de maluca na frente de pessoas de fora da instituição. Todos riram, menos eu, obviamente. Quando assumi a chefia de um setor, me pediram para que eu não fosse “tão assim” e fosse mais séria para passar confiança, e isso, pra mim, foi a gota d’água.

Foram poucos meses em que assumi uma postura burocrática, não deu muito certo. Depois disso, questionei para mim mesma por que, para ter o respeito dos outros, eu precisaria ser alguém sisudo, que não ri, que se leva a sério demais. Me recusei a ser assim, e ao invés disso passei a transitar entre uma pessoa que continua bem humorada e outra que intimida: foi a minha capa de proteção contra quem é especializado em fazer bullying com quem tem a cara com mais de uma expressão facial. Tive que aprender a ser grossa, especialmente com homens, porque cansei da brincadeira de me acharei uma piada. Até que pararam. Com o tempo, segui usando minhas camisas de pug e minhas botas velhas para cobrir eventos coorporativos, e passei a adorar desafiar a estética desses lugares. Não vou ser menos eu por absolutamente nenhum lugar, e isso não me torna menos profissional.

É ridículo que, mesmo nos locais onde se trabalha com design, arte, cultura, as pessoas precisem adotar a postura cinematográfica de “freak workaholic dos negócios” para serem levadas a sério (ainda que em alguns desses lugares as pessoas finjam ser muito “descoladas”). Não, eu não vou usar terninho, querida(o). Não vou usar salto alto. Não vou fechar a cara cinco dias por semana só para te mostrar que sou capaz de escrever um texto ou me reunir com vários engravatados. Usar camisa de botão e gravata não torna ninguém competente. Assim como você também não será melhor se diminuir um funcionário só porque ele não chega pra trabalhar todo em tons de cinza, senta no computador em silêncio e lá fica até às 18h.

Você não está em 1940. Lide com isso.