Aprendendo a receber

ou A arte de necessitar do outro

Uma das coisas mais difíceis do mundo é saber receber. Nosso ego luta contra a humilhação de receber ou necessitar de algo (ou alguém) o tempo todo. Se existe uma coisa boa nas crises é o fato de aproximar as classes sociais em termos de humanidade, uma das outras. O preconceito existe. E o sinal nem sempre é claro. Acredito até que nos últimos tempos cresceu uma espécie de preconceito invertido das classes sociais mais baixas em relação as mais abonadas. Então, de alguma forma, mais do que em qualquer outro tempo, os mais ricos precisam apreender a receber, a precisar do outro, a submeter o ego a humilhação suprema (segundo a leitura do próprio ego) de necessitar de algo de alguém. Eu confesso que prefiro dar à receber. Se possível eu gostaria de estar (sempre) n posição mais abastada de qualquer relação social. Mas, nem sempre é assim e aos poucos a vida vem me ensinando a me colocar em posição de receber do outro aquilo que me é escasso (seja materialmente, intelectualmente ou cinestésicamente). Eu venho buscando doutrinar o meu ego para que ele não morda (por instinto) a mão que (eventualmente ou não) o alimenta. Estou ensinando ao meu ego a arte de ser (apenas) coadjuvante em certos dias e a entender que o mundo não gira em torno de seu (suposto) protagonismo. Mas, quase nunca é fácil. O ego reluta em dar significado a outrem. Nosso dever é convencer nosso egóico ser que sem o outro, ele não existe.