O que move o mundo?

O dia em que eu ouvi essa pergunta de forma retórica, e nunca mais esqueci a resposta

Ela era minha amante. Casada. Vivíamos no lusco-fusco da traição. Ela trabalhava com vendas e é uma empreendedora inata. Durante um gozo e outro eu fui apresentado à essa questão épica: o que move o mundo? Era a pergunta de um bilhão de dólares que ela demonstrava saber a resposta.

Pensei em dizer que era o dinheiro que movia o mundo, mas me senti um idiota antes mesmo das palavras tomarem corpo. Um cara como eu não deveria realmente acreditar no poder do dinheiro. Não, mil vezes, não. Luto e lutatei a vida inteira para livrar qualquer um do carimbo do fracasso estereotipado por um único critério: o preconceito social causado pelo dinheiro. É, eu não acredito mesmo no vil metal. Até deveria acreditar, mas não acredito. Teimo em não me curvar aos seus pés.

Fumando um cigarro, já no segundo tempo do jogo-treino, tive um outro espasmo de intuição: seria o amor a mola mestra do mundo? Lembrei-me do dia em que falando bastante empolgado com minha mãe sobre o que eu acreditava se tratar de uma epifania, chorei. Eu achava que havia descoberto o sentido da vida. Eu tinha sido tocado pelos céus. Eu fui escolhido para ser o guardião da senha da vida. Eu havia intuído que o sentido da vida é o amor. E eu desejava partilhar a descoberta, o mundo inteiro precisava saber disso. Eu não tinha o direito de guardar tal informação. Não. Me faltava maturidade para lidar com tamanha responsabilidade. Não era justo. Todos deveriam tomar ciência da senha da vida. Eu iria lançar livros falando sobre a minha recém descoberta, esbravejava eu como um empolgado pastor ao telefone, para a minha mãe que calada, apenas, me ouvia. Em um dado momento ela, me interrompendo, me chamou à razão: “meu filho esse livro já foi escrito… e se chama Bíblia.” Me debati internamente por segundos que me pareceram horas até eu me dar conta de que ela tinha toda a razão. Eu tinha perdido o bonde da história por um atraso de pelo menos dois mil anos. Alguém havia chegado antes de mim.

Agora novamente a mesma questão se avizinhava, porém formulada de forma diferente, perturbando a minha paz.

Apaguei o cigarro e repeti em voz alta a pergunta de um milhão de dólares. E aí? O que move o mundo?

Minha professora-amante me olhou de soslaio, sapeca, cravou suas unhas em minhas costas e sentenciou como quem proferia um veredito para a minha ignorância: “vem cá que eu vou te mostrar o que move o mundo…”

Naquela noite eu aprendi, durante o terceiro tempo de jogo-treino sexual, a resposta para a pergunta milionária. E nunca mais me esqueci.

Like what you read? Give Robson Felix a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.