Personagens

Nos momentos em que eu paro pra pensar na vida, percebo que já vivi várias vidas. Quando eu me recordo das pessoas que já fui os entendo e respeito como personagens, inquilinos do meu corpo. Sou o ator que vive a si mesmo, como uma metalinguagem autoficcionada. Todos somos personagens. Mas, alguns de nós se apegam às suas personas do momento, ao invés de deixá-las ir. Tenho inveja deles. Eu me diluo num mar de possibilidades no momento em que encontro o tom do meu personagem. Quando eu começo a entender as suas reais motivações, pra mim, já está na hora de mudar. Padeço do desapego da criação. Durante muito tempo atribuí essa minha esquizofrenia a algum transtorno de personalidade. Como um Stanislavsky da vida real eu busco adaptar o meu personagem da vez ao que o mundo me oferece. Uma vez, em entrevista, ouvi o Selton Mello falar que não gosta de ensaiar muito para manter a espontaneidade do personagem. Assim não mecaniza a atuação. “Se você ensaiou, todo o tempo, com um copo baixo e no dia da gravação, por algum motivo, te oferecem um copo longo em cena, o excesso de ensaio te faz paralisar.”, dizia ele. Ao longo do caminho entendi que é essa resiliência ao externo que me faz atuar, sem ensaios. Mesmo quando revisito alguns dos tipos vividos por mim ao longo da vida, ele não volta igual. Como agora. Estou revisitando o jovem idealista, rebelde e confiante que já fui um dia. Aquele que acredita que tudo vai dar certo. O tipo ideal em tempos de crises (econômica e de meia idade). O personagem é o mesmo de antes, mas o tom é outro. Melhorado. É como se ele tivesse evoluído comigo e ao longo do percurso houvesse aprendido a rir de si mesmo.