Vontadinha

Primeiro vem aquela vontadinha de colocar para fora o que a gente sente através da escrita, junto com um certo constrangimento antecipado por uma, eventual, leitura invasora por estranhos. Então escrevemos mensagens cifradas. Palavras incompreensíveis logo nos fazem sentir o Djavan literário. A vaidade distorce a realidade para o ego, que distraído, não percebe que o pagamento do escritor é ser lido (e compreendido). Em detrimento do estilo Dilma de se fazer entender, os escritos se acumulam em algum lugar que para efeito desta lucubração imaginaremos físico. Os anos se passaram e as leituras de diversos títulos (espero) se encarregaram de sofisticar o seu paladar literário. Aí vem a vontadinha de se eternizar. A vida sinaliza com uma possibilidade sedutora: a eternidade. Podemos deixar uma marca na timeline do universo provando que um dia estivemos aqui. Algo como um monograma escavado em uma árvore. Mas, não contávamos com o grande desafio que é publicar. Somente vaidade já não parece bastar para seguirmos em frente. Muitos ficaram pelo caminho. A necessidade de foco e pragmatismo faz a seleção natural. É um exercício de lapidação. A estátua está contida na pedra, mas nem todos conseguem ver. Somente olhos absolutos conseguem ver o que você intui. Na verdade, só os seus olhos percebem a sua verdade. Mas, é necessário empenho nesta fase. Afinal, queremos a melhor qualidade gráfica para a nossa marca no universo. Publicamos. E é como fazer o tempo parar. Mas, por microssegundos só comparáveis ao bater de asas de um beija-flor, somos eternos. Tomamos o cuidado de registrar tudo para além dos celulares. Está lá tudo registrado. Você e aquele momento existiu. Marcamos o universo de alguma forma. Mesmo que seja o universo de (somente) quarenta pessoas. Está lá, eternizado. Está feito. Mas, publicar já não parece bastar. O vento traz uma saudade louca de escrever. Constrangimentos e vaidades já foram superados (espero). A mensagem já não precisa mais ser cifrada. Você já não sente vergonha de quem se tornou, nem do que pensa. A verdade está para ser revelada a você. Em breve você entenderá que a sua grande marca no universo é deixar o mundo saber o que você realmente pensa, apesar de seu estilo. Nesta fase sente-se uma vontadinha de passar uma mensagem aos que virão atrás de nós. Então, profetizamos na parede da caverna: o conteúdo (cada vez mais) é o senhor da forma. Não importa o suporte: escreva… depois escreva mais, e mais, e mais… e continue escrevendo. Só pare quando aquela vontadinha (aquela que te faz seguir escrevendo) passar. Quando esse momento chegar, com um pouco de sorte, você já não estará mais aqui.