Revenge (1986)

Calebe Lopes
Aug 31, 2018 · 3 min read

Faroeste sul-africano

Disponível até hoje, 30/08 no serviço de streaming MUBI — uma espécie de Netflix dos cinéfilos cult™ MUITO massa — , Revenge (1986), filme de Coenie Dippenaar, é um achado.

O destaque não vem, entretanto, pela qualidade do filme em si, mas pelo pedaço de registro histórico em que ele se converte, ao passo em que somos apresentados a um western realizado na África do Sul, totalmente estrelado por um elenco negro, ou seja, daí já se tira uma experiência diferente, totalmente fora da forma hollywoodiana ou italiana de se fazer cinema do gênero — que são as mais conhecidas, não as únicas.

No entanto, se digo que está fora da forma é por causa das condições de realização, mas há de se notar que Revenge é um assumido pastiche: na trama com ares de exploitaition, um homem (interpretado pelo ator Alex Ngubane) busca vingança pela esposa assassinada e o filho ferido, aprendendo a atirar com um velho pistoleiro que lhe serve de mentor. A estrutura é manjadíssima: família feliz busca uma vida nova, crime brutal, treinamento para a vingança, clímax com a consumação da justiça com as próprias mãos.

Se pertencesse à outra filmografia (a norte-americana, por exemplo), é bastante provável que fosse um filme totalmente esquecível, de tão genérico que é — embora guarde suas qualidades aqui e ali. Sendo da África do Sul, país não muito reconhecido por sua filmografia, muito menos pela de gênero, é que tudo ganha contornos diferenciados. Primeiro, há de se notar que é um filme da metade dos anos 1980, mas que parece um filme da década anterior, tecnicamente. Segundo, é essa caracterização, essa roupagem de western, que interfere não apenas no figurino dos personagens, mas nas locações, numa região rural da África do Sul que nada deve às cidades com saloons do cinema hollywoodiano. Eu não tenho conhecimento devido da história do país para saber se houve, realmente, esse momento “velho oeste” proposto pelo filme, mas ainda assim é curioso notar como a maneira americana de se fazer um western está ali, de maneira muito similar ao que aconteceu aqui no Brasil, com filmes como “A Sina do Aventureiro” (1958), de José Mojica Marins, e Fronteiras do Inferno (1959), de Walter Hugo Khouri. O western é um gênero autenticamente norte-americano, e sempre torna-se uma experiência curiosa a de se analisar filmografias de países tão distantes arriscando-se nos códigos do gênero — vale notar que o termo “spaghetti western”, que é como se chama os faroestes italianos, foi dado de maneira pejorativa por críticos de cinema norte-americanos, por na época acharem que esse tipo de filme não poderia ser realizado com qualidade em nenhum outro lugar senão Hollywood.

Alex Ngubane na melhor sequência da fita

Filmado de maneira bastante simples, direta, sem nenhum tipo de sofisticação e obedecendo enquadramentos muito próprios do que Hollywood propunha para o gênero desde seu auge, décadas antes, o filme surpreende ao chegar no terceiro ato, entregando um tiroteio dentro de um bar (ou saloon?) com montagem enérgica e planos alternados à la Sergio Leone, seguidos de uma dilatação temporal que privilegia a queda dos corpos abatidos que remete totalmente a Sam Peckinpah. Costurando as cenas estão poderosos zooms, por vezes desajeitados mas perfeitamente funcionais dramaturgicamente. Ainda é curioso notar o tradicional final do herói montado em seu cavalo que faz gracinhas, trazendo uma imagem dum caubói negro dominante que reflete totalmente na cena final de Django Livre (2012), de Quentin Tarantino. Revenge merece ser visto e (re)descoberto por esse valor histórico que assume, nos encorajando a desbravar um cinema apagado pelo sistema dominante.

calebelopes

Uma formiguinha do audiovisual.

Calebe Lopes

Written by

Faço filmes de terror que não dão sustos.

calebelopes

Uma formiguinha do audiovisual.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade