O inverno é o meu photoshop

Uma visão sobre a beleza (e a falta dela), o frio e a autoestima

Uma das vantagens em ser feio é o autoconhecimento. Um feio que não conhece as suas limitações, e principalmente as suas possibilidades, é horrendo em dobro. Sempre tive traços marcantes e arestas salientes, o que nunca abalou minha autoestima, pelo contrário, sempre encarei como um desafio, viver a vida no modo hard.

Com o tempo fui descobrindo e articulando estratégias para suavizar o meu design arrojado e deixar minha aparência agradável aos transeuntes desavisados. Aprendi que estampas e cores não me favoreciam, então aderi a uma singela e elegante vida monocromática e minimalista. Evito cortes de cabelo que não seriam aprovados pela Igreja Católica do século XVIII e sempre que possível sorrio sem mostrar os dentes. Já a abundância nasal foge da minha alçada.

Seguindo essa cartilha, por vezes atinjo o nível “charmoso” de beleza masculina, a Copa do Mundo do feio. Mas o meu maior aliado na luta contra a gravidade e o colágeno aparece uma vez ao ano e leva uma existência controversa: o frio. Ele me favorece. É o meu Photoshop.

Infelizmente a beleza invernal não é monopólio dos feios (seria nossa vantagem evolutiva, explicando nossa existência como espécie). Todo mundo fica mais bonito no inverno. O feio ganha possibilidades, o normal brilha e o Rodrigo Hilbert fica mais bonito que doar um rim para um desconhecido. É fato. Como 1 + 1 é 2.

No inverno, o magro disfarça seu porte esquelético ao trocar as roupas largas por parrudos e aconchegantes casacos, que conferem ao modelo uma aparência saudável e vigorosa. O gordinho utiliza o mesmo expediente, ao culpar a jaqueta de tactel. Escondemos nossas “imperfeições” por baixo de camadas e mais camadas de roupas. É como dar férias para o nosso verdadeiro eu. Pelo menos até o próximo verão.

Não me entenda mal caro leitor ou leitora, não é um tratado ao corpo perfeito e a beleza padrão, é uma apologia à autoestima. Mesmo que o inverno opere milagres em algumas pessoas, nos livramos das amarras da aparência com a sua chegada. Somos quem gostaríamos de ser. Comemos sem fazer inventário das calorias e a academia deixa de ser prioridade. Nos preocupamos em estar confortáveis. Se ficarmos bonitos durante o processo, melhor.

É contraditório, mas quanto menos nos importamos com a nossa aparência, mais belos ficamos.

Evito ao máximo o discurso do “aceite quem você é”. Quando se trata da personalidade humana nada é tão simples, nada é tão fácil. Nunca é de fora para dentro, ainda que seja aceitar o que se tem. Cada um sabe os monstros que esconde em seu porão, o que pode conviver e o que deve esconder. Conselho é um decreto educado. Autoajuda que aconselha, não é auxílio, é prisão.

Você pode traçar um milhão de estratégias para ter o corpo, a face ou a silhueta dos sonhos. Se isso lhe faz feliz, por que não tentar? a diferença entre a verdade e a mentira é uma linha tênue entre os danos que ambas causam. Não se pode condenar uma pessoa que se acha mais bonita com maquiagem , pois não existe um manual de instruções da autoestima. Assim como a felicidade, ela não é o fim. Ela é o meio.

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