Dá pra começar daí?

Meu sonho é estudar fora, mas ainda não sei se vou fazer uma outra graduação ou continuar os estudos numa especialização ou pós. Também não sei pra qual programa vou me inscrever, nem pra qual universidade. Não sei nem pra qual país eu quero ir.
Dá pra começar daqui?

Dá sim.

Uma vez que eu também não sei por onde começar esse blog, mas quero começar mesmo assim, pensei que talvez fosse legal fazer esse exercício de propor um começo de caminho pra quem ainda não deu o primeiro passo nem sabe onde quer chegar.

É complicadinho? É sim. Serão muitos passos nessa caminhada e é difícil acertar um cronograma do que vem antes e do que vem depois. Além disso, quase todas as etapas envolvem um custo, então é melhor ir começando logo pra diluir os gastos ao longo do tempo, passando por cada passo com tranquilidade e evitar chegar lá na hora de enfrentar o chefão da fase e perder a batalha por causa de um montante de dinheiro impossível de despender.


Bom, pra querer estudar fora você não precisa de muita coisa, mas pra avaliar o quão perto ou longe você está da possibilidade real de se instalar no exterior você precisa observar algumas coisas antes:

1 Você fala uma língua estrangeira? Não precisa ser fluente, mas você consegue pelo menos ler e entender textos de média complexidade em outro idioma?

* se sim, você pode pensar em estudar em países que falam essa língua que você já conhece ou procurar por programas ensinados nesse idioma em qualquer país. 
* se não, você pode:

a) estudar um pouco de um idioma estrangeiro até se sentir mais confiante (estamos nos primeiros passos, não estamos falando de uma fluência incrível por enquanto. o tanto que você precisa dominar uma língua vai depender de outras aspectos que falaremos mais adiante). Eu poderia sugerir o inglês que é uma língua mais simples, temos contato com ela diariamente e você consegue avançar no domínio dela mais rápido, já que temos toneladas de textos, vídeo-aulas, filmes, músicas em inglês com acesso gratuito na internet (estou supondo que você tem acesso fácil à internet, uma vez que está lendo esse texto). Mas, dependendo da área do seu interesse, pode ser que o espanhol seja uma boa opção. Ou o francês. Ou o alemão (boa sorte, pessoa guerreira!);

b) procurar oportunidades em países que falam a mesma língua que a nossa, no caso, os lusófonos Portugal, Guiné-Bissau, Angola, Cabo Verde, Moçambique, Timor Leste, São Tomé e Príncipe e Guiné Equatorial.


2 Você tem guardados em casa os seus documentos pessoais e a sua documentação acadêmica?

Me refiro à certidão de nascimento, RG e CPF, título de eleitor e comprovantes de votação, carteira de vacinação (para o caso de você querer ir para algum país que requeira esse registro), certificado de reservista (para os boy), mas também histórico escolar do ensino médio, diploma e registro acadêmico se você já fez curso superior e/ou pós. Comece a juntar tudo isso em uma pastinha, pois serão documentos que você vai precisar para requerer outras coisas em breve, inclusive mais um documento fundamental, caso você não tenha: PASSAPORTE.


→ Supondo que você é uma pessoa minimamente privilegiada e que tem sim noção de um idioma estrangeiro (daqui pra frente vou considerar o inglês, tá? mas você adapta pra sua realidade, se seu caso for outra língua) e também tem todos esses documentos em mãos - porque seus responsáveis cuidaram de você direitinho e guardaram tudo, sua casa nunca pegou fogo ou foi inundada e você também nunca precisou fugir de casa só com uma muda de roupa na mochila -, parabéns! Você consegue começar com relativa facilidade o processo de estudar fora do país.

→ Você verá que, infelizmente, a maior parte dos passos requer um pequeno (ou grande) investimento de granas. Portanto, o quanto antes você começar, melhor pra ir juntando os dinheiros possíveis e ir diluindo esses gastos ao longo do tempo. Se você deixar pra fazer tudo em um curto período (que foi o que eu fiz, choros) você se descapitalizará muito rápido e será barra ir até o final sem se desesperar.


OS 3 PRIMEIROS PASSOS

1 Tirar o passaporte
Esse passo é muito burocrático e, de certa forma, simples. É necessário para praticamente todos os passos seguintes, pois esse documento é internacional e, dependendo de onde você decidir estudar, será o único com validade nesse lugar. Se você já tem um passaporte, ótimo. Observe a validade dele. É bom que falte pelo menos uns 2 anos pra ele vencer, pra vc ter tranquilidade. Se faltar menos, não esqueça de considerar a renovação quando chegar o momento, tanto em prazo quanto em granas. Se você ainda não tem passaporte, tranquilo. Você faz tudo na Polícia Federal, que é quem emite esse documento aqui no Brasil. A primeira dica que posso te dar, e que vai te servir daqui pra frente é: siga as regras. Para todo e qualquer procedimento que você fizer haverá regras, elas serão descritas de forma clara quase sempre e não haverá forma de você avançar se não seguí-las. Siga-as. Regras são nossas amigas. Internalize isso, absorva essa grande verdade universal e você não sofrerá. Aqui há um grande e ótimo passo-a-passo com as regras para a emissão do passaporte brasileiro, escrito pela própria Polícia Federal. Como são eles quem emitem os passaportes, e você quer um passaporte, apenas faça o que eles pedem e siga as regras. =)
Um passaporte novo custa 260 dinheiros e fica pronto em uns 10 dias, então talvez você precise se planejar com antecedência pra investir nessa etapa… A boa notícia é que agora ele tem validade de 10 anos (se vc tem mais de 18 anos).

Diagrama do processo de requerer um passaporte. Fonte: http://www.pf.gov.br/servicos-pf/passaporte/fluxo-de-funcionamento-do-servico-de-passaporte

2 Traduzir seus documentos
Se você for estudar em um país que não fala português, você precisará traduzir seus documentos. Essa tradução não é uma coisa simples nem barata, porque precisa ser uma tradução juramentada, de um profissional certificado e reconhecido internacionalmente. No meu caso, eu optei por traduzir meus documentos para o inglês, porque apesar de não saber onde eu ia estudar quando comecei a traduzir tudo, só poderia ser em um programa em inglês, que é a língua que eu falo/entendo melhor. Acabei parando na Alemanha, mas a universidade aceitava as traduções de documento tanto em inglês quanto em alemão, então não tive retrabalhos. Você pode fazer como eu fiz, ou pode escolher a universidade primeiro e se adequar ao que ela pede.

Meu diploma do curso superior e a tradução juramentada dele, só pra vcs verem como é.

Para além de traduzir, você precisará também apostilar seus documentos. A apostila é um tipo de autenticação de documentos internacionais que atesta que seu documento é autêntico perante os outros países que fazem parte da ~ convenção que convencionou~ isso. Muito provavelmente o país que você quer ir faz parte dessa convenção, então o que você precisa para apostilar um documento é reconhecer a firma de quem assina o documento no cartório de notas onde essa pessoa tem firma registrada e depois levar o documento (já com a firma reconhecida) num cartório que faz a apostila. Não é todo cartório que faz, dá um google aí com as palavras “cartório apostila [nome da sua cidade]” pra saber onde tem um mais perto de você.

Dificuldades nesse passo:
 → Custo: As traduções juramentadas têm o preço calculado pelo tipo de documento + a quantidade de páginas + a quantidade de texto. A tradução de um diploma, frente e verso, como o meu da imagem aí de cima, custa em torno de uns 120 reais. Um histórico escolar ou registro acadêmico, que tem mais linhas de texto, custa mais. Por volta de uns 200 reais
Mais custos: A apostila tem um preço tabelado, por documento. Aqui em São Paulo custa 110 reais cada documento. Podemos subir pra 120 reais (arredondando pra cima), já que precisa reconhecer a assinatura da pessoa que emitiu o documento antes de apostilar, e isso costuma custar uns 6, 7 reais. Nem sempre o mesmo cartório onde a pessoa tem firma registrada faz a apostila, mas geralmente os tradutores juramentados mais experientes já indicam um cartório onde você consegue fazer as duas coisas de uma vez só.
 → Tempo: uma tradução juramentada pode demorar de 2 a 7 dias pra ficar pronta, dependendo do lugar onde você fizer. Talvez você precise pagar antecipado, talvez dê pra dar uma entrada na solicitação do serviço e pagar o restante no final. Se organize nos tempos!

Questões desse passo:
 → Você vai precisar ver em algum momento se precisará apostilar o documento original (em português) e também a tradução ou se apenas apostilar a tradução já rola. No meu caso eu apostilei apenas a tradução, porque eu moro atualmente em São Paulo e os meus documentos foram emitidos em Minas Gerais, o que significaria ter que reconhecer firma das pessoas que assinaram os documentos (diploma, histórico, registro acadêmico) lá em Belo Horizonte pra depois apostilar. Eu não quis fazer isso ($$$) e a minha universidade também não me exigiu até o momento.
 → Se você for estudar em Portugal, por razões óbvias você não precisará traduzir seus documentos, mas provavelmente precisará apostilar tudo. Independente do idioma é preciso provar para o pessoal do outro país que seus documentos são autênticos, então o passo do reconhecimento de firma e da apostila continua válido.

Quais documentos preciso traduzir/apostilar?
 → Se você pretende fazer uma/outra graduação no exterior:
* Histórico escolar do ensino médio;
* Certificados que forem importantes para comprovação de cursos ou experiências relevantes para sua área de estudos.
 → Se você pretende fazer uma pós-graduação ou especialização:
* Registro acadêmico com as suas notas da faculdade e a descrição das disciplinas cursadas e cargas horárias;
* Diploma (é melhor o diploma que o certificado de conclusão, se for possível)
* Certificados de conclusão de cursos de especialização ou outros cursos livres que você tenha feito e que acha que são absolutamente relevantes pra anexar às suas futuras inscrições.
 → Outros documentos não-imediatos:
* Você pode querer traduzir e apostilar também Certidão de Casamento ou de União Estável, caso venha a querer se mudar junto com sua pessoa companheira/cônjuge;
* Caso tenha filhos, você precisa emitir o passaporte deles também. As regras para menores são diferentes das regras para adultos. Consulte.
* Caso sua família seja composta também por felinos ou caninos e você queira considerar levá-los também, existe toooooodo um trâmite a parte que posso falar algum dia.

3 Certificar sua proficiência no idioma que você pretende estudar
Essa etapa aqui é um pouco mais avançada que as anteriores, mas minha experiência mostra que o quanto antes você resolver essa etapa, melhor. Isso porque é uma etapa difícil e, provavelmente, a mais cara de todas, então requer mais planejamento.

Mais uma vez, se você for estudar em um país lusófono isso é desnecessário.

Supondo que você, como eu, quer estudar em inglês. Isso significa que você pode estudar em uma universidade situada em um país de língua inglesa ou que, assim como eu, você vai estudar em um país que fala a língua X (no meu caso, alemão), mas o programa que você vai estudar é internacional, ou seja, será em inglês. O nível de proficiência no idioma que você precisará provar vai variar de acordo com os pré-requisitos da universidade, mas geralmente você precisa provar que possui pelo menos um nível B2 no Quadro Europeu de Referência para Línguas. Talvez precise de um mais alto -C1, por exemplo- se você quer estudar num programa que requer uma capacidade de expressão maior no idioma. Imagino que Letras, ou Direito, sei lá, precise de um nível mais alto. Já as engenharias necessitem notas mais baixas, tipo B1 (estou sendo preconceituosa, talvez?).

Só para ilustrar, meu caso:

O programa que eu escolhi [Public Art and New Artistic Strategies (Master in Fine Arts)] tem como pré-requisitos: graduação na área de artes ou com formação compatível, comprovado pelo registro acadêmico com as disciplinas cursadas e as cargas horárias, aprovação no teste de aptidão e certificado de língua, no caso inglês, com nota C (se for o Cambrigde), 213/550 (se for o TOEFL) ou Band 6 (se for o IELTS). Como a universidade fica na Alemanha, também pedem o certificado do nível básico de alemão (por exemplo, o A1 do Goethe-Institut). No caso do Alemão, não era um pré-requisito eliminatório, apenas desejável. A pessoa, caso aprovada nas demais etapas, poderia fazer o intensivo na própria universidade, antes do período de início do curso.

Pode ser que se você quiser fazer um curso em inglês na França por exemplo, eles te requeiram o francês básico também. Então leve isso em consideração quando for escolher seu programa. Num próximo post eu conto como foi o meu processo de escolha desse programa que farei a partir de outubro.

Olha como sou generosa: tô compartilhando com vocês meus certificados, para que vejam a cara deles.

Voltando ao certificado de proficiência: Por que é importante fazê-lo o quanto antes? Porque custa uma fortuna! E não há plano de parcelamento, então você vai precisar juntar esse dinheiro pra pagar tudo de uma vez! Socorro.

É assim: no caso do inglês, você tem várias opções de testes de proficiência. TOEFL, Cambridge, IELTS e outros. Eu recomendo que você faça o IELTS, principalmente se você ainda não sabe onde vai estudar. Isso porque ele tem vários formatos (e preços): o UKVI (para solicitação de visto para o Reino Unido), Life Skills (habilidades para a vida normal, mais prática) e o Regular, que tem dois sub-tipos, o General Trainning e o Academic. Esse último é o que você quer fazer, porque é específico para quem quer estudar. O IELTS é um teste ofertado pelo Consulado Britânico e o seu formato Academic é o único que eu já vi que é aceito por todas as universidades que eu pesquisei. Várias não aceitam o TOEFL, por exemplo. Todas que eu vi aceitam o IELTS Academic.

Agora, a facada: o teste custa 840 golpes. Sim. oitocentos e quarenta reais que você precisa pagar de uma vez, no momento da inscrição. E como é bastante procurado, você não consegue pagar e fazer a prova logo na sequência. Você se agenda para fazer a prova e são apenas duas datas por mês aqui em São Paulo, por exemplo. E também só é realizado em algumas capitais. E o resultado só sai 15 dias depois. Então SE ORGANIZE para não perder seus prazo, parça.

Não fiz a pesquisa pra saber valores e melhores testes em outros idiomas. Mas se você já fala um pouquinho de outros idiomas, você deve saber procurar quais são os testes de proficiência da língua que você quer, certo?

No caso do IELTS, eu percebi que é uma prova que testa mais a sua capacidade de fazer a prova do que do idioma em si, rsrsrs. São 4 etapas: falar, ouvir, ler e escrever e eu posso depois fazer um post específico contando como que foi a minha prova e como me preparei pra ela.


Então, no mais, é isso. Acho que esses 3 passos são ótimos primeiros passos pra começar a se organizar pra estudar fora. Tendo um passaporte válido, os documentos traduzidos e um certificado do idioma que você que estudar já dá pra se inscrever pra maioria dos programas de especialização e pós-graduação que tem por aí nesse mundão afora. Eu já tinha essas três coisas antes mesmo de começar a procurar uma universidade, o que foi ótimo, porque quando encontrei o curso ideal percebi que se eu não tivesse me antecipado não daria tempo de me inscrever quando abriu o processo.


Pra fazer esse post eu levei em consideração uma pesquisinha que lancei nas minhas redes sociais sobre qual seria o melhor formato, texto ou vídeo, e em qual plataforma. Acho que o medium contempla bem os conteúdos mais densos e cheio de etapas, o que acham? Penso que os vídeos são melhores para mostrar as novidades, contar as fofocas e falar de um ponto de vista opinativo. Se acharem que ficou muito grande, quiserem perguntar algo ou tiverem qualquer outra sugestão, me falem.
Aqui mesmo, no facebook ou no instagram.

(ainda sou ruim disso, mas prometo ficar boa)

Beijas!