Analfabetismo Científico - O impacto político e social


Segundo o Indicador de Letramento Científico (ILC), pesquisa realizada pelo Instituto Abramundo para avaliar a capacidade de ler, compreender e expressar opinião sobre assuntos de caráter científico, cerca de 79% das pessoas têm conhecimentos básicos em ciências, mas não são capazes de usá-los para entender plenamente a realidade que os cerca.

E sendo a ciência e a tecnologia responsáveis por mudanças políticas, sociais e econômicas, o resultado de que mais de 70% da população ser considerada analfabeta cientificamente se mostra preocupante e apresenta riscos não só ao bem estar de uma nação como para a sua liberdade.

Carl Sagan
“Criamos uma civilização global em que os elementos mais cruciais […] dependem profundamente da ciência e da tecnologia. Também criamos uma ordem em que quase ninguém compreende a ciência e a tecnologia. Podemos escapar ilesos por algum tempo, porém, mais cedo ou mais tarde, essa mistura inflamável de ignorância e poder vai explodir na nossa cara.” — Carl Sagan

Consequentemente, tendo uma população que não consegue enxergar o impacto da ciência no seu dia-a-dia, a política nacional se vê diante do cenário perfeito para cortes em seu orçamento sem atingir seu público eleitoral.

Mas qual o problema com isso?

Acontece que o Brasil é um dos únicos países onde o setor público aplica mais dinheiro na parte de pesquisa e desenvolvimento do que o setor privado. Isso faz com que em momentos de crise os investimentos caiam e como consequência encontramos um país com baixo índice de inovação.

Por esta razão a economia se estagna, o desenvolvimento econômico cessa, e o país entra em um círculo vicioso em que a crise parece interminável.

Além do mais, a baixa alfabetização científica do Brasil abre brechas para que um numero cada vez maior de líderes religiosos se aproximem da política colocando em risco não só a ciência e a economia, mas os direitos sociais.

Questões como casamento civil igualitário e adoção de crianças por casais homossexuais se tornariam impossibilitadas.

Você pode até achar que os problemas sociais que o analfabetismo científico causa seja menor, mas não se engane, é onde ele interfere diretamente na vida das pessoas.

Situações onde encontramos pastores enganando fiéis que não possuem discernimento crítico para suas ações se tornaram corriqueiras.

Marcos Pereira, cotado para assumir o Ministério da Ciência.

E não é só dentro da igreja, diariamente encontramos notícias falsas correndo pelas redes sociais atingindo uma leva enorme de usuários. Todas em nome da “ciência”. Chega a ser consenso que em nossa atual situação política práticas como essa se tornam perigosas.

Também se engana quem acha que só pessoas mais velhas ou religiosas caem nos contos da pseudo-ciência. Ela também se tornou frequente no único lugar onde ela não deveria existir: na universidade.

A astrologia por exemplo virou hábito na vida de muitos jovens universitários, ditando como agir e com quem se relacionar.

Chega a ser surpreendente uma minoria intelectual, porta-voz da nova juventude e futuro professores de nossos filhos levando a sério algo que tanto a teoria gravitacional de Newton e Einstein quanto a teoria eletromagnética de Maxwell já contestou.

“Enquanto a ciência cresce sobre o ombro de gigantes, a astrologia cresce sobre o bolso de desinformados” — Átila Iamarino

Onde pretendo chegar com isso?

É fato. É óbvio. O alfabetizado cientificamente olha o mundo de forma diferente. Tem um conhecimento que fortalece e dá a chance de não ser pego em desvantagem por outros que também entendem. Tem seus fundamentos e confronta a sociedade. Vê a matemática e a ciência como uma coisa só, compreende o mundo e sua política.

E como declarou Neil deGrasse Tyson, não ser alfabetizado cientificamente é como se você tivesse desprivilegiado do processo democrático e nem soubesse disso.


Junior Pereira — Estudante de Engenharia de Computação pela Universidade de São Paulo.