Audiodescrição: a dificuldade e a importância de um novo registro e compreensão de imagem.

Cena do filme Dançando no Escuro do diretor Lars von Trier

[Contém spoiler irrelevante]

No filme Dançando no Escuro — “Dancer in the Dark” em inglês­ — do diretor dinamarquês Lars von Trier, temos como personagem principal uma mulher que possui uma doença degenerativa que lhe causa cegueira progressiva, ou seja, aos poucos ela vai perdendo a sua visão até chegar na cegueira completa. Contudo, mergulhando no enredo do filme, chegamos a uma cena importante: ambientada em uma sala de cinema, a personagem principal — Selma Jezková — assiste a um musical junto com sua melhor amiga Kathy. Por não conseguir enxergar a cena que apresenta um número musical acompanhado de dança, Selma se dirige a sua amiga e questiona “O que está acontecendo?”. E então, Kathy pega a mão de sua amiga, e com os dedos, tenta imitar os passos de dança que as bailarinas do filme realizam durante o número. Compreendendo parcialmente o que se passava, Selma sorriu.

Durante toda a cena, podemos compreender e sentir a dificuldade de Selma ao assistir um filme, uma vez que não consegue enxergar. Aliás, durante todo o filme conseguimos sentir a dificuldade de Selma em realizar várias tarefas como trabalhar, cuidar de seu filho, de sua casa, etc. Mesmo sendo uma história fictícia, o filme de von Trier consegue representar a dificuldade enfrentada por pessoas cegas ao longo da vida, tal como usufruírem dos mesmos recursos, ambientes, lugares e produtos que as pessoas sem nenhuma deficiência.

Devido à cegueira, o entretenimento e a compreensão de Selma estariam sempre à mercê dos dedos de Kathy?

Imagem de uma propaganda sobre o Dia Mundial da Visão

No mês de outubro, comemora-se o Dia Mundial da Visão. O dia exato sempre é marcado como a segunda quinta-feira de outubro, o que nesse ano seria o dia 13 de outubro. Essa data, apesar de ser voltada aos profissionais da saúde que buscam erradicar a cegueira do mundo, pode ser um ótimo impulso para o debate sobre as condições de vida das pessoas que possuem alguma deficiência visual e a acessibilidade que necessitam para usufruírem dos mesmos recursos e locais que todo o resto da sociedade.

Segundo o IBGE, 3,6% da população brasileira possui alguma deficiência visual, sendo que 16% dos deficientes visuais, que possuem maior grau de limitação, ficam impossibilitados de realizarem atividades habituais como ir a lugares públicos ou realizar tarefas comuns do dia a dia. A pesquisa também revela que 6,6% da população cega se utiliza de algum instrumento para a mobilidade, como bengala ou cão guia. Entretanto, quando se refere à questão da acessibilidade em lugares como cinema, teatro, ou qualquer outro espetáculo audiovisual, os cegos contam com a audiodescrição, que vem ocasionando uma grande evolução na comunicação acessível ao trazer os conteúdos audiovisuais para todos os públicos possíveis sem distinções. Ela não é utilizada apenas para os deficientes visuais, mas também para idosos, pessoas com dislexia, síndrome de Down e/ou baixa acuidade visual, pois segundo a audiodescritora Isabel Machado, a audiodescrição é uma outra maneira de registro da imagem, o que gera mais uma forma de compreensão da mesma.

A audiodescrição (abreviada por AD) é um recurso que oferece, através da linguagem verbal, a descrição exata, clara e objetiva de todas as informações que são compreendidas visualmente e que não estão inseridas nos diálogos. Ou seja, tal recurso descreverá as expressões faciais e corporais dos atores, os efeitos especiais, leitura de créditos, títulos e qualquer outra informação escrita na tela. As descrições sempre ocorrem entre os diálogos e/ou nas pausas entre as informações sonoras do espetáculo visual. Dessa forma, a AD permite que o usuário desfrute de todas as informações que o filme ou espetáculo oferece e que não derivam das falas ou outros elementos sonoros.

Segundo o portal da Audiodescrição, essa técnica pode ser realizada de diversas maneiras, sendo a mais comum a Audiodescrição Gravada, em que se realiza um estudo preliminar da obra em questão (filme, curta, vídeo, etc) para a composição de um roteiro com falas narradas. Após o roteiro, ocorre um ensaio das falas pelo ator-audiodescritor, que poderá dar início a uma série de ajustes nas falas e no tempo para que não ocorra uma sobreposição entre os diálogos e a descrição. Em seguida, o roteiro final é gravado em um estúdio, acompanhado por um diretor e um técnico de áudio que, após o término, enviará às emissoras, canais audiovisuais ou demais lugares a gravação para que ela seja anexada à obra audiodescrita.

Para as peças de teatro, passeios de turismo, congressos e outros eventos ao vivo, é mais comum a Audiodescrição Ao Vivo Ensaiada e a Audiodescrição Simultânea. A diferença entre as duas é que na ensaiada, o audiodescritor possui um conhecimento prévio do que ocorrerá no evento, o que não acontece na simultânea.

Apesar disso, é importante ressaltar que o audiodescritor possui um papel neutro em relação à obra que descreve, uma vez que, como bem explicitado, a descrição deriva apenas da narração dos fatos como eles realmente ocorrem, sem opiniões sobre o que está acontecendo.

Mesmo com diferentes audiodescrições, no Brasil o mercado de AD ainda sofre preconceito de vários setores, principalmente — e o mais alarmante — dos grandes meios midiáticos e audiovisuais, como as emissoras televisivas.

Segundo o IBGE, a televisão está presente em mais de 97% das residências brasileiras, mas a maioria dos conteúdos apresentados não possui a ferramenta de audiodescrição. As mesmas alegam desde 2006, quando uma norma criada pelo Ministério das Comunicações obrigava as emissoras a disponibilizarem a ferramenta da AD em seus conteúdos de forma gradativa ao longo de 11 anos, que tal recurso fica inviável a toda a programação. Com isso, em 2014, o Supremo Tribunal Federal derrubou essa norma, impedindo que o avanço da narração audiodescritiva chegasse a todos os brasileiros cegos, os que possuem alguma deficiência visual e os demais que se apoiam nesse recurso através do meio de comunicação mais presente na vida de todos. Para não afirmar com toda a certeza de que a TV não disponibiliza conteúdos com narração audiodescritiva, alguns filmes estrangeiros contam com este recurso quando exibidos aqui no Brasil, porém nunca existiu — e ainda não existe — nenhuma novela brasileira que tenha audiodescrição.

Um outro problema é que mesmo com a parca e lenta inserção da AD nos cinemas, nem todos possuem este recurso, e nos que possuem, não são todas as sessões contempladas com a narração descritiva, fazendo com que quem necessita seja dependente da boa vontade desses lugares.

Deficiente visual utilizando o recurso da AD em uma sala de cinema

Graciela Pozzobon — atriz e audiodescritora — ressalta durante uma entrevista sobre a falta deste recurso no Brasil:

São cinco milhões de cegos no Brasil. A audiodescrição representará uma oportunidade incrível de vender um produto para este público.

Ela também alerta que assim que descobrirem e passarem a investir na AD, esta será bastante presente , e confessa que será muito bom para aqueles que investirem em acessibilidade.

Apesar da dificuldade, a evolução da audiodescrição ocorre para estar, cada vez mais, trazendo toda a realidade do campo audiovisual para as pessoas que necessitam dela, uma vez que o seu intuito é trazer para uma parcela da população, uma minoria, tudo aquilo que a grande parcela recebe. O desenvolvimento da AD é como um estudo científico que necessita entender o público, os acontecimentos, os fatos e a melhor metodologia de trabalho para que a acessibilidade chegue a todos.

Graciela narra um ocorrido que demonstra o porquê da importância do desenvolvimento e da disseminação da AD por todo o país.

Uma vez um cego me deu um pááá na cara e disse assim: ‘Não adianta querer fazer de conta que é cego e achar que é só fechar o olho. É diferente, entendeu? Porque, não tendo visão, você aguça outros sentidos, você tem um outro caminho.’ Então, a gente é que é muito prepotente! Um monte de gente vem assistir e diz ‘Vou ver como é que é. Vou fechar os olhos’. Aí, primeiro, fica espiando, porque é impossível ficar uma hora e meia de olhos fechados no cinema. E, segundo, não basta isso! É outra compreensão da vida, outra atmosfera.

A partir da visão de um deficiente visual sobre a forma como ele enxerga o mundo e como aqueles que não são deficientes precisam entender que estudiosos e profissionais da área passaram a se preocupar sobre a forma de compreensão total do conteúdo.

Na tese de mestrado da audiodescritora Isabel Machado, de título “A parte invisível do olhar — audiodescrição no cinema: a constituição das imagens por meio das palavras: uma proposta de educação visual para a pessoa com deficiência visual no cinema”, ela desenvolve e discute uma nova forma de descrição das imagens que não seja exclusivamente restrito a essas, uma vez que é necessário aumentar o repertório imagético das pessoas com deficiência visual. Dessa forma, o audiodescritor necessita do conhecimento dos movimentos de câmera e dos artifícios da montagem, enriquecendo seu trabalho e repertório para a audiodescrição. É importante destacar que o desafio de ser preciso, sucinto e ao mesmo tempo conseguir passar o máximo de informações é algo que o profissional da AD passa durante a composição de seu trabalho.

Sobre o conteúdo da imagem no cinema, Isabel fala:

O conteúdo é responsável pelo sentido lógico e racional. A forma de registro são os planos e movimentos da câmera. Por isso é muito importante uma audiodescrição que não se restringe somente ao conteúdo da imagem, mas se estende também à sua forma de comunicação, pois um dos objetivos da AD é aumentar o repertório imagético das pessoas com deficiência visual. Como audiodescritora de cinema, eu não posso desprezar nenhuma dessas formas de comunicação.

Em sua pesquisa, Isabel fala sobre a aquisição do conhecimento dos deficientes visuais que ocorre de maneira diferente entre aqueles que nasceram cegos e os que perderam a visão ao decorrer de suas vidas. Ela explica:

A pessoa que nasce cega constrói seus conceitos por meio dos sentidos, assim como os videntes. No caso de não ter o sentido da visão, seu processo de conhecimento das coisas se dá por meio da estimulação. Na elaboração do conceito de nuvem, por exemplo, uma audiodescrição do movimento das nuvens pode criar em cada pessoa cega diferentes ideias de nuvem, pois a associação de ideias ocorre de uma forma individual, ligada a vários fatores, inclusive às experiências na infância e à maneira como cada um foi estimulado.

Portanto, sobre a descrição de nuvem, ela pode ser feita com a manipulação de um pedaço de algodão para que o cego consiga associar a maciez deste à impressão visual do vidente sobre uma nuvem.

Assim, o desenvolvimento da audiodescrição no Brasil é uma forma de além de garantir acessibilidade, garante uma nova forma de registro e compreensão da imagem para os deficientes visuais e demais pessoas que necessitam desse recurso. Deve ser reconhecido em campo legislativo e ser presente em todos os conteúdos audiovisuais, pois assim como os videntes possuem o direito de consumo destes conteúdos, os deficientes visuais e quem mais necessite possuem também. Se esse recurso está em evolução e desenvolvimento, ele precisa de mais adesão, de mais divulgação e de mais importância, pois nem todos os deficientes visuais podem depender de uma amiga Kathy para lhes contar o que está acontecendo no filme.

Pedro Eduardo — Estudante de Linguística, apaixonado por cartuns, livros e debates. Professor de ironia com ênfase em falar alto.