O Alquimista da Vila, Parte II

Acordei no meio da noite por causa do frio, e tive que procurar mais panos para me cobrir, os ventos gélidos que sopravam contra a janela a faziam balançar, ganhando, aos poucos, espaço dentro do cômodo fechado. O quarto onde eu estava, o mais barato, tinha apenas uma pequena cama desconfortável e uma cômoda velha com duas gavetas, onde eu tinha depositado as minhas coisas, já que tinha alugado o quarto por seis dias.

Até agora estava coberto apenas por um velho lençol que já estava disposto sobre a cama, e não tinha mais nada para me cobrir, já que tinha viajado sem roupas, devido a urgência do ocorrido. Pensei que seria uma boa ideia descer e perguntar ao recepcionista se ele teria mais cobertas, calcei meu sapato e abri a porta com cuidado.

O segundo andar — o último — era composto de um longo corredor com vários quartos dos dois lados, olhei para ver se não tinha mais ninguém no corredor e sai do meu em silêncio, a fim de não atrapalhar a noite de ninguém. Quando cheguei as escadas me agarrei aos dois corrimões e silenciosamente avancei pelos degraus da escada em espiral.

A lareira estava em seus últimos momentos, iluminando pouco do grande salão que fazia parte, como ele já estava fechado a algum tempo, e tinha janelas melhores que as dos quartos, ainda estava quente. Quando desci o suficiente para conseguir olhar o comodo, me surpreendi com várias pessoas ainda ao lado da lareira, em torno de sete. Alguns estavam deitados no chão, outros sentados e cabisbaixos, fumando o que parecia ser um cigarro, mas era perceptível que o grupo, principalmente aqueles no chão, não estavam em um estado de sobriedade, imediatamente virei os olhos para o outro lado do salão, onde fica o balcão e, para minha surpresa, não encontrei o recepcionista, que também não estava entre o grupo da lareira. Retomei meus passos cuidadosos, dessa vez para cima, já tinha visto casos assim na minha longa vida, e não queria me meter nesse, eu sabia que tinha visto algo que não deveria ter.

Pensei, ao passar em frente ao quarto de Miguel, em parar e alerta-lo, mas tinha medo que tomasse alguma decisão precipitada, então simplesmente voltei ao meu quarto para tentar passar pela noite fria sem causar nenhum problema, não podia perder o foco no motivo da minha vinda, o motivo da morte de Tomás, que ainda era um mistério para mim.

Ao amanhecer, sem ter dormido por um minuto sequer, olhei para a janela só para ver que a neve não tinha dado trégua, e continuava a cair e pintar o chão de branco, com o céu cinza levantei e calcei novamente os sapatos e desci para o salão, onde já se podia ouvir a presença de hóspedes tomando seus cafés da manhã. Desci a escada lembrando da visão do dia anterior, esperando não encontrar o mesmo grupo sentado na lareira, fazendo seja lá o que eles estivessem fazendo.

Segui, após chegar no piso do salão, até o balcão. O lugar estava quase vazio, com apenas meia duzia de pessoas, muitos menos do que estavam ontem, quando cheguei.

— Gostaria de um café, por favor. — Pedi, com voz de recém acordado, ao recepcionista que, em um estabelecimento como esse, também anotava os pedidos.

— Claro! Só um momento — Ele respondeu.

Enquanto o homem, que devia ter em torno de trinta anos, repassava o pedido aos responsáveis da cozinha, eu me virei e comecei a observar a lareira, agora apagada, já que o sol já esquentava o bastante para se aguentar, mesmo que ainda fosse necessário se agasalhar, o que eu não poderia fazer, já que estava sem roupas sobrando. Fitando-a, não encontrei nenhum traço de que aquele grupo estava presente ontem e, novamente, estranhei. Tentei continuar o processo de pensamento quando fui interrompido pelo cheiro do café, um dos meus maiores prazeres.

— Aqui está, senhor — Disse o homem trajando vestes quase formais, segurando meu café.

Peguei-o e fui até a mesa mais ao canto para repassar as informações do assassinato que estavam no jornal. Após algum tempo distraído com o jornal e café, percebi alguém se aproximando, uma figura alta e gorda, vestida toda de preto.

— Bom dia, Miguel, gostaria de um xícara de café?

— Bom dia, Riso, tudo bem? Eu aceito um café sim. — Imediatamente olhei para ele, e ele estava com aquele meio sorriso que eu tanto odiava quando eramos jovens, principalmente quando me chamava de Riso, meu antigo apelido.

— Por que está me chamando de Riso? — Perguntei em tom duro.

— Por que é assim que nós te chamava-mos quando eramos jovens, sabia que você ia se lembrar — Soltou uma breve gargalhada — Esse seu tom indica que lembrou — Soltou mais uma, enquanto eu apenas o encarava, tentando entender como que um grande e forte jovem como Miguel era poderia ter se tornado nesse padre gordo que está diante de mim.

Novamente minha linha de raciocínio foi interrompida, o que eu odeio que aconteça, já que tenho uma memória ruim, dessa vez quem a interrompeu foi a porta, um guarda, vestido exatamente igual ao de ontem, abriu-a com força e gritou:

— Atenção, todos! Esse estabelecimento foi reportado como um ponto de venda da droga Bruma, todos os cômodos serão revistados e ninguém poderá sair ou entrar até que a vista termine. Espero não encontrar resistência, mas se for o caso, eu e minha equipe não hesitaremos em conte-la — Enquanto terminava a frase, diversos outros guardas entravam na estalagem, se espalhando por todos os quartos em busca de algo que pudessem encontrar, e também revistando as pessoas que estavam no local.

Dos poucos guardas que pararam para revistar, eu e Miguel fomos ignorados e deixados por ultimo, talvez por sermos velhos. O guarda da porta, sem dúvida de uma patente maior que o resto, veio nos revistar quando percebeu que não tinha ninguém de olho em nós. Tomei a oportunidade para perguntar sobre a droga.

— Com licença, meu jovem, nunca ouvi de uma droga chamada Bruma, poderia me explicar o que está acontecendo? — Miguel simplesmente balançou a cabeça em concordância, e demos espaço para que o homem falasse.

— É uma droga que ronda em nossa vila a pelo menos dois meses, ainda não sabemos muito sobre ela, a informação de que ela seria vendida aqui é a maior pista que nós temos. — Estranhei a fraqueza do guarda ao nos contar isso, mas deve ser, novamente, uma vantagem que se tem quando você é velho, ninguém acha que você é culpado de algo sério.

— Não me lembro de ter visto nada suspeito aqu… — Miguel foi interrompido por um dos guardas que estavam vasculhando a cozinha.

— Encontrei! Encontrei um pacote de Bruma! — Berrou o guarda, correndo para trazer o achado para seu superior, enquanto outros guardas entravam na cozinha para render os que lá estavam.

O guarda olhou para o saco da droga com um sentimento de conquista, dava para se perceber que realmente estava empenhado na busca.

— Já que a droga foi achada na cozinha, preciso levar todos vocês para a delegacia, já que qualquer um pode estar envolvido — Ele deu um sinal aos guardas, que começaram a levar as pessoas para fora. Ele novamente olhou para nós e disse:

— Não acho que estejam envolvidos, mas devo leva-los a delegacia para questionamento, principalmente por causa disso. — Apontou para a noticia do assassinato, que estava sobre a mesa.

Tinha cometido o mesmo erro duas vezes, o que não era comum para mim, mas estava ficando curioso no porque do interesse dos guardas sobre mim, que carregava a noticia do assassinato. Não resisti e fui levado por um dos guardas, junto a Miguel.

A noticia sobre a Bruma começou a fazer efeito no meu cérebro, e eu comecei a pensar se aquele grupo de ontem tinha alguma coisa a ver com a droga. Já tinha sido levado pela policia a muito tempo atrás, quando Tomás ainda era vivo, quando éramos jovens, mas isso já faz muito tempo… Muito tempo… Mas nunca vou esquecer o que Tomás fez por mim, e o quanto devo a ele.

Guilherme Cardoso — Estudante de Linguística, amante de fantasia, ciência e musica.