Preconceito Linguístico: Opressão ou Invenção?

Adoniran Barbosa, sambista que defendia que “falar errado é uma arte”.

Do grupo de Whatsapp formado por funcionários de um hospital público na cidade de Serra Negra, interior de São Paulo, vazou a foto que deixou as redes sociais do Brasil em polvorosa. Foi impossível não ouvir ou ler as mais diversas opiniões a respeito da polêmica imagem protagonizada por um jovem médico plantonista.

A princípio, parte da mídia tradicional ignorou o evento, talvez o julgando como irrelevante — fato que veio a mudar quase que instantaneamente. Afinal, polêmica garante audiência. E a audiência clama por sensacionalismo. Por sua vez, o sensacionalismo potencializa a polêmica fechando o circulo vicioso do “imparcial e justo Jornalismo Brasileiro”.

O curioso dessa história, é que a mídia ao procurar a audiência, encontrou a ciência que há muito ignorava: a Linguística. Ciência esta que, arrisco dizer, é responsável pelos únicos estudiosos que podem falar com autoridade sobre o que aconteceu no consultório daquele hospital em Serra Negra. Afinal, falamos aqui de Preconceito Linguístico.

Receituário preconceituoso exibido por médico plantonista em foto polêmica

Apesar de ser pouco abordado, o preconceito linguístico existe e está tão presente no nosso cotidiano quanto os outros estão. Na verdade, aqui cabe uma correção: eles está até mesmo mais presente que os outros. Tão presente que ninguém mais o nota.

Muitos linguistas já trataram do assunto com livros, artigos, palestras e demais maneiras de divulgação científica. Dentre estes cientistas, é possível destacar um mineiro que abordou o tema na sua mais célebre obra, nomeada justamente de Preconceito Linguístico. Falo aqui sobre Marcos Bagno, professor da Universidade de Brasília e pesquisador associado do Instituto da Língua Galega — Universidade de Santiago de Compostela.

Preconceito Linguístico-Marcos Bagno-Parábola Editorial

O autor ressalta no livro que este preconceito é, tal qual os demais, parte do imaginário popular:

“[…]os preconceitos, como bem sabemos, impregnam-se de tal maneira na mentalidade das pessoas que as atitudes preconceituosas se tornam parte integrante do nosso próprio modo de ser e de estar no mundo. É necessário um trabalho lento, contínuo e profundo de conscientização para que se comece a desmascarar os mecanismos perversos que compõem a mitologia do preconceito.”

O que fomenta a prática preconceituosa está, infelizmente, nas salas de aula do país todo atende pelo nome de Gramática. Mais precisamente, o problema reside na maneira sobre a qual a gramática normativa é montada.

“Uma receita de bolo não é um bolo, o molde de um vestido não é um vestido, um mapa-múndi não é o mundo… Também a gramática não é a língua.” — Marcos Bagno em “Preconceito Linguístico”.

A Gramática do português brasileiro ainda tem sua base noutro continente — no europeu, pra ser mais específico. Ela determina desde os tempos do Império que os alunos façam a conjugação verbal no modelo do português de Portugal, ignorando o fato de que por milhares de motivos, o português brasileiro mudou muito.

Tomemos como exemplo a sentença “vós podíeis”: impossível a ouvir numa conversa corriqueira no centro da cidade de São Carlos ou em qualquer outro lugar do país, porque ela caiu em desuso há tempos!

Isso acontece porque toda língua viva está sujeita a evoluções que acontecem imprevisível e invariavelmente. As mudanças ocorrem de diversas maneiras e impulsionadas por milhares motivos. Um deles é o contexto social no qual o falante está inserido, que vem a determinar também (infelizmente) sua escolaridade. E assim como estas mudanças sempre aconteceram nas línguas ao redor do mundo, a rejeição à classes baixas — já mencionada acima — também sempre existiu.

Por volta do século VII d.C., um padre aristocrata romano escreveu um livro no qual afirmava que os integrantes mais jovens das classes sociais baixas de Roma estavam “estragando” o Latim. Na verdade, o padre estava testemunhando o nascimento do Francês.

Assim também acontece no Brasil. Não há uma perspectiva política séria que afirme que possa ocorrer uma ruptura na República Federativa do Brasil, porém, se hipoteticamente isso viesse a ocorrer, muito provavelmente os pequenos “sotaques” de outros estados do país por exemplo, poderiam vir a ter autonomia para se transformarem em outra língua, assim como aconteceu com o Português em relação ao Galego.

Logo, o que ainda é infelizmente tratado como “erro gramatical” e até mesmo como sinal de inferioridade intelectual, nada mais é que a língua materna do falante já modificado pelo processo evolutivo natural.

O Rotacismo (a troca de L pelo R na fala, característico de zonas rurais) é algo tão comum quanto os demais exemplos já elencados. A própria palavra “Branco” deriva do termo em Galego “Blank”, explicitando de maneira clara as mudanças que a língua sofreu durante o processo histórico.

O fato é que, nenhuma língua do mundo é una e imutável. A ciência afirma e arte corrobora com o sambista Adoniran Barbosa que dizia que falar errado é uma arte e com a banda “O Teatro Mágico”, quando Fernando Anitelli canta a música “Zaluzejo” que diz:

“Mas quando alguém te disser ta errado ou errada
Que não vai S na cebola e não vai S em feliz
Que o X pode ter som de Z e o CH pode ter som de X
Acredito que errado é aquele que fala correto e não vive o que diz”

Will Mazzini — Estudante de Linguística pela UFSCar e Músico devido ao ócio