Sobre Representatividade

Angela Davis, ativista política e estudiosa de raça, classe e gênero na sociedade

É visível que parte essencial dos movimentos socialmente progressistas atuais está focada na questão da representatividade. Em defesa das minorias e buscando maior ocupação de espaços historicamente dominados por homens brancos, cisgênero, heterossexuais, ricos e elitistas, os movimentos apoiam toda e qualquer iniciativa de diversificação e defendem o chamado lugar de fala — conceito complexo, mas que geralmente se resume a dar espaço exclusivo à minoria para falar das opressões que, em análise histórica materialista, afligem seu grupo. Tentarei, nesse texto, expandir um pouco essa discussão sobre representatividade, seus males e benefícios.

É evidente a existência de uma classe que domina a produção cultural no país, e, coerentemente, a maioria esmagadora dessa classe se utiliza do poder dominador da cultura e da informação para se representar bem frente aos olhos do povo. As minorias, quando representadas, são vistas como pequeno bônus coadjuvante, além de confirmarem diversos preconceitos socialmente estabelecidos ao longo do tempo. Sabendo que a minoria dificilmente se vê justamente representada como ser humano comum na cultura, em quem ela deve se espelhar? Em que semelhante o oprimido se inspira para motivar seu sonho? A representatividade é ação realmente afirmativa de mudança para o inferiorizado?

Alexandra Kollontai, pensadora feminista que explorava as políticas soviéticas sobre mulheres

Logo fica claro que a presença diversificada ajuda sim na realidade, ainda mais quando se fala do imaginário das pessoas que consomem os produtos culturais em questão. A normalização cultural de ver protagonistas fora do padrão atual já faz bem para o povo por acostumá-lo a ver que a sexualidade, limitação físico-motora ou mental, gênero, etnia e classe não são características determinantes de comportamento, caráter ou iniciativa social; sutilmente, após esse período de normalização na cultura, aceita-se a ideia de que o oprimido pode ocupar aquele espaço de destaque, e seria puro cinismo ignorar que levar a população a acreditar nessa possibilidade já é um grande passo em comparação à atualidade. Só quando essa equidade for praticada na sociedade que finalmente poderemos ver os artistas pelo que são, sem a pretensiosa demagogia de apreciar a arte simplesmente por ela vir da minoria e sem hierarquização e romantização do sofrimento.

Charge do Vini Oliveira

Sobre essa hierarquização e romantização do sofrimento, é importante reiterar que a busca é por igualdade a despeito das diferenças entre grupos, sem esquecer que é completamente ridículo idealizar (e uso aqui meu exemplo pessoal, não que ele valha de regra mundial) um grupo por ele ser oprimido. É absurdo idealizar crescer sendo negro e ignorar toda a violência e os preconceitos que atingem as comunidades negras — sim, minorias também tem seus preconceitos e eles devem ser remediados, não sejamos unilaterais na análise de algo tão crucial — , lutar pelos direitos de uma minoria não faz dela melhor, mais divertida ou mais bonita, mas sim injustiçada historicamente. Fingir “fazer parte” dessa minoria em questão pode ser, no mínimo, um leve desrespeito à história do grupo, reduzindo ele aos clichês já vigentes e mascarando a existência e sofrimento como diversão, se apropriando e expondo só o lado considerado divertido. O sofrimento se torna platônico.

A polarização em volta do espaço de fala é um assunto complicado. Enquanto há quem desvalorize o depoimento do indivíduo afetado pelo problema — e não, não há experiência individual que fale por uma classe toda, mas há valor em levá-la em conta — , há quem acredite que só os atingidos possam tocar no assunto. Se a militância pela igualdade pretende conscientizar a sociedade sobre o problema em questão, é imperativo que os atingidos sejam líderes da causa, mas excluir um contribuinte simplesmente por julgamento superficial e não de conteúdo é desserviço para o avanço teórico e prático da causa, afinal, como atingir ou mudar o opressor se o mesmo não pode se aproximar para possivelmente se conscientizar? Há sim um meio termo que permite a expansão do conhecimento sobre a opressão sem que o protagonismo desapareça, e é contraproducente não aceitar que o indivíduo não diretamente atingido pelo problema possa ser um ajudante na mudança.

É preciso enxergar a questão da representatividade em termos de real mudança, de reflexos práticos. A construção de uma geração que ocupe espaços de ações sociopolíticas que levantem o grupo em direção à igualdade. É supervalorização dessa propaganda representativa quando comemoramos a presença de um personagem estereótipo de minoria em novela e nos esquecemos da baixa representatividade duma minoria no governo¹, por exemplo. É impossível discutir essas pautas sem envolver economia, que é a base dessas diferentes opressões. Não adianta muito que um indivíduo dessa minoria agora receba fama para que possa também economicamente oprimir² semelhantes; reduzir o bem-estar de uma classe ao de um indivíduo que a “representa” é uma atitude espelhada dos preconceituosos que julgam todo o grupo por poucos exemplos e anedotas. O terreno é perigoso, e muito frequentemente os advogadores dessa suposta igualdade querem apenas que os oprimidos alcancem o status de opressores, o que normalmente implica no silenciamento da revolta contra o regime que sistematicamente marginaliza seus iguais.

¹ - http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,onu-alerta-para-baixa-representatividade-de-negros-no-governo,10000056858
² — https://www.thesun.co.uk/archives/news/1176905/exposed-sweatshop-slaves-earning-just-44p-an-hour-making-empowering-beyonce-clobber/

Lucas Bernardes — não gosta de tirar fotos, de falar na terceira pessoa e é fã de discussões.

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