Suicídio no âmbito da saúde pública

Campanha Setembro Amarelo divulgada pelo Centro de Valorização da Vida (CVV)

Durante séculos da história, por razões religiosas, morais e culturais, o suicídio foi considerado um grande “pecado”. Dessa forma, ainda há muita vergonha e desconforto ao falar sobre esse assunto, porém se faz necessário.
Esse grande tabu tem conquistado visibilidade, principalmente desde 2014, uma vez que o mês de setembro é agora marcado por uma campanha de conscientização sobre a prevenção do suicídio. Trata-se do Setembro Amarelo e tem como finalidade atentar a população a respeito da realidade do suicídio no Brasil e no mundo e suas formas de prevenção.

Reconhecido como um grave problema de saúde pública pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o suicídio é definido como o ato deliberado e intencional de causar a morte em si mesmo. Também fazem parte do que chamamos usualmente de comportamento suicida: os pensamentos, os planos e a tentativa de suicídio.

Por números oficiais, são 32 brasileiros mortos por dia. No mundo, os números são ainda mais alarmantes: a cada 40 segundos, uma pessoa se mata. E, para cada caso fatal, há pelo menos outras 20 tentativas fracassadas. Em comparação, o suicídio mata mais que HIV e a maioria dos tipos de câncer. Porém, de acordo com a OMS, 9 em cada 10 casos podem ser prevenidos.

Quando a questão é perguntar ao indivíduo se possui pensamentos suicidas, as pessoas normalmente acham que se tornarão responsáveis caso a resposta seja “sim”. Esse tipo de preocupação pode desencorajar o debate, e assim, fortalecer a ideia de que conversar sobre isso pode aumentar o risco de provocar ideações e comportamentos suicidas. Todavia, alguns estudos foram realizados em pacientes de alto risco e concluiu-se que na verdade falar sobre o suicídio reduz sentimentos de stress. Esse fato é útil não apenas para a população em geral, mas também para clínicos e profissionais da saúde. Tratar de suicídio pode dar oportunidade para que a pessoa que sofre, considere, repense alguns problemas e lide com eles de maneira diferente.
Vidas podem ser salvas com perguntas como “você sente vontade de morrer?” “você pensa em tirar sua própria vida?”. Se sim, o próximo passo é encorajar o indivíduo a buscar por ajuda profissional, como a psicoterapia.

Não é ideal alguém que não possua nenhuma especialização no assunto se disponibilizar a ajudar. A pessoa que não sabe lidar com os sentimentos alheios de forma adequada faz com que a situação se agrave, pois cada vez que a expectativa não é atendida da forma esperada, o suicida se vê ainda mais desamparado.
Uma pessoa sem experiência no assunto apenas pode colaborar no que diz respeito a não relativizar o sofrimento alheio, não romantizar doenças mentais e entender que suicídio é algo sério, além do mais importante que é sempre incentivar a procurar por auxílio profissional.

Há mitos sobre a questão do suicídio que precisam ser desconstruídos, como “quem quer se matar não avisa”. A maior parte das pessoas dá um aviso, seja por meio da fala ou da escrita.
“Quem tenta tirar a própria vida só quer chamar atenção”. Uma pessoa que tenta suicídio tem de 5 a 6 vezes de chance de tentar tirar a própria vida novamente. 50% dos indivíduos que se suicidam já tentaram suicídio anteriormente. Uma a cada 100 pessoas que procura ajuda comete suicídio dentro de 1 ano.
“Essa pessoa não serve nem para se matar”. Tal afirmação faz com que um sobrevivente ao suicídio experiencie uma grande vergonha e o estimule ainda mais a tentar se matar novamente.
“O suicídio é uma decisão individual já que cada um tem pleno direito de exercitar o livre arbítrio”. Não é uma escolha, uma vez que para a pessoa a única solução é tirar a própria vida.

O reconhecimento dos fatores de risco é imprescindível e pode auxiliar o profissional da saúde a determinar clinicamente o risco e, assim, estabelecer métodos para reduzi-lo.
Os principais fatores de risco são:
Doenças mentais: Quase todos os suicidas tinham uma doença mental, muitas vezes não diagnosticada, normalmente não tratada ou não tratada de forma apropriada. Os transtornos psiquiátricos mais comuns são depressão, transtorno bipolar, transtorno de personalidade, esquizofrenia, alcoolismo e abuso/dependência de drogas.
Doenças clínicas, não psiquiátricas: Doenças clínicas não psiquiátricas como esclerose múltipla, doença de Parkinson, doença de Huntington, epilepsia, acidente vascular encefálico, lúpus.
Desesperança, desespero, desamparo e impulsividade: Sentimentos de desesperança, desespero, desamparo e impulsividade.
Eventos adversos na infância e na adolescência: Maus tratos, abuso físico e sexual, pais divorciados, transtorno psiquiátrico familiar.
Histórico familiar e genético: O risco de suicídio aumenta entre aqueles com história familiar de suicídio ou tentativa de suicídio. Estudos de genética epidemiológica mostram que há componentes genéticos, assim como ambientais envolvidos. 
Gênero: As mortes por suicídio são cerca de três vezes maiores em homens que mulheres. Papéis masculinos tendem a estar relacionados a maiores níveis de força e independência e muitas vezes isso impede que os homens procurem ajuda.
Cobertura sensacionalista da mídia: A cobertura sensacionalista da mídia contribui com “imitações” ou com estigmatização das pessoas. Imagens de corpos ou detalhes dos métodos utilizados, informação do local da morte, uso da palavra “suicídio” na chamada, descrições de como os corpos estavam.
Fatores sociais: No século XIX, o sociólogo Émile Durkheim defendeu que quanto maiores os laços sociais em uma determinada comunidade, menores seriam os índices de morte por suicídio. Este conceito sociológico pode ser transposto para o nível individual: quanto menos laços sociais tem um indivíduo, maior o risco de suicídio.

O primeiro passo é o reconhecimento dos indivíduos de riscos por meio da avaliação clínica periódica, que inclui uma entrevista clínica e, frequentemente, uma coleta de dados junto a terceiros. Ninguém é realmente capaz de prever qual paciente irá se suicidar, apenas o risco pode ser estabelecido.

A prevenção do suicídio não se delimita apenas à rede de saúde, é preciso também a existência de medidas em diversos âmbitos na sociedade, pois o lado biológico, psicológico, político, social e cultural devem ser levados em conta, visto que o indivíduo deve ser considerado como um todo em sua complexidade.
Dessa forma, medidas como construções inteligentes e planejamento da cidade com medidas de segurança; comprometimento dos órgãos responsáveis, controle/regulação do acesso aos métodos mais utilizados como pesticidas, raticidas e restrição às armas de fogo; campanhas nas escolas que problematizem o assunto e facilitem prevenção devem ser tomadas.

Caso você, leitor, precise de ajuda ou conhece alguém que precise, entre em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV), uma ONG que funciona 24h todos os dias e que conta com pessoas treinadas para oferecer suporte por telefone, email, chat e Skype de maneira sigilosa e anônima.
http://www.cvv.org.br/

Referências:

http://www.cvv.org.br/downloads/manual_prevencao_suicidio_profissionais_saude.pdf 
http://www.cvv.org.br/downloads/cartilha_suicidio_profissionais_imprensa.pdf http://www.cvv.org.br/downloads/suicidio_informado_para_prevenir_abp_2014.pdf 
http://www.cvv.org.br/ 
http://setembroamarelo.org.br/ http://www.portalsaudenoar.com.br/setembro-amarelo-mes-de-prevencao-ao-suicidio/ 
http://www.comportese.com/2016/02/e-perigoso-perguntar-ou-conversar-sobre-suicidio
https://comportamentoesociedade.com/2014/08/27/suicidio-midia-e-epidemia/

Mariela - Estudante de Linguística pela Universidade Federal de São Carlos, apaixonada por cinema, música e café.