Um 12 de outubro apagado — Resistência Indígena

“Em 12 de outubro de 1492, os nativos descobriram que eram índios, descobriram que viviam na América, descobriram que estavam nus, descobriram que existia pecado, descobriram que deviam obediência a um rei e uma rainha de outro mundo e a um deus de outro céu, e que esse deus havia inventado a culpa e a roupa e havia mandado queimar vivo quem adorasse ao sol, à lua, à terra e à chuva que a molha.” Eduardo Galeano, célebre escritor uruguaio, sintetizou nesta passagem a chegada dos espanhóis em terras latinas, dando início à “grande descoberta” de nossas terras. É fato que não houve um descobrimento e sim uma invasão por colonizadores, que em poucas décadas escravizou e apagou a cultura de milhões de indígenas que aqui já viviam.

No dia 12 de outubro, a América Latina comemora o dia da Resistência Indígena, em memória da luta dos povos nativos que até hoje são massacrados. Em alguns países da América Latina esse dia foi denominado de “Dia da Raça” e “Dia de Colombo” em decorrência da comemoração da chegada de Rodrigo de Triana (marinheiro que navegou sob os comandos de Cristóvão Colombo) às Américas. O nome a essa data foi pensado pelo ex-ministro espanhol Faustino Rodríguez-San Pedro, na época atual presidente da União Ibero-americana, em 1913, com a finalidade de unir a Espanha a América Latina. Porém, a Venezuela renomeou essa data para dia da resistência indígena com a finalidade de preservar, honrar e sempre lembrar a luta dos povos nativos por sua dignidade.

A Bolívia é também um dos outros países da América Latina que consolida um processo de democracia e proteção cultural, na inclusão dos povos indígenas para desempenhar funções de decisão nacional. O atual presidente do país, Evo Morales (pertencente à etnia indígena aymara), desenvolveu diversas iniciativas para defender o povo indígena da Bolívia.

Por outro lado, países como Paraguai e Chile e diversas comunidades indígenas continuam na luta para fazer valer igualmente os seus direitos. Em julho de 2015, os indígenas do Paraguai recuperaram o “tekoha” — que em guarani significa “o lugar onde somos o que somos” — através de um projeto de desenvolvimento rural que ajuda a concessão de títulos de propriedade. Para os indígenas do Paraguai, o tekoha vai além da terra que pisam: é o lugar onde estão seus costumes e tradições, os quais precisam ser preservados. Esse foi um pequeno passo em busca dos seus direitos que os indígenas paraguaios obtiveram.

No Brasil, a data é ignorada e fica apagada diante de outras comemorações que ocorrem no mesmo dia. É importante ressaltá-la e dar visibilidade, afinal, os indígenas do nosso país ajudaram diretamente na construção da identidade brasileira.

Referências

Fernanda Silva — 17 anos. Estudante de Linguística, UFSCar. Escuto mais do que falo.