A menina que decolou de cima do muro

O pufe de grama de seu jardim marcava um segredo. Daquele único ponto do muro, que só ela conhecia, era possível decolar e voar.

Era só subir ali, ficar bem na pontinha dos pés, fechar os olhos, abrir os braços e sentir a brisa soprar.

Um arrepio subia da base da coluna e ia percorrendo cada uma de suas vértebras até balançar delicadamente as pontinhas douradas de seus cabelos, como as plumas do peito de um canarinho.

Na ponta dos pés ela esperava. O vento se enrolava em sua cintura e o que sustentava todo seu corpinho eram apenas as pontas do dedão bem firmes ainda naquele ponto do muro.

Não era preciso se concentrar, era só se entregar e não ter medo de cair.

Uma alegria imensa brotou como uma nascente de água bem doce lentamente foi inundando sua imaginação e quando transbordou a menina tirou os pés do muro e se conectou com a imensidão do céu.

O voo começou ainda um pouco desajeitado, ela levantou os braços num gesto de reverência, olhou para cima, viu um azul tão profundo que mergulhou e voou com as araras vermelhas, lá para o meio da floresta amazônica.

Percorreu os rios, se divertiu com o vapor quente das cachoeiras que amoleceram sua pele e arrepiaram seu corpo com o sopro do vento nas bochechas.

A floresta era calma ali de cima.

O sol começou a se despedir e coloriu todo o horizonte de laranja. As nuvens carregadas de gotinhas do rio se aglomeravam emoldurando o entardecer. A menina apreciava lá de cima o céu espelhado no leito do rio. Sentiu então o perfume das folhas que cobriam o solo, notou algumas nuvens escuras que se formando.

Era melhor voltar para casa, uma tempestade estava se aproximando.

Com muita concentração ela pousou exatamente naquele pedacinho mágico do muro. Pousar era mais complicado que decolar, pois seu coração ficou mais selvagem depois de tanta liberdade.

A chuva esperou. Assim que ela pisou no muro, com os dois pés bem firmes, o primeiro raio iluminou as nuvens carregadas. E algumas gotas bem gorduchas de chuva começaram a cair. Logo se uniram em uma cortina que encerrou o espetáculo do entardecer.

A menina pulou de volta para o pufe de grama e correu para seu quarto. Deitada em sua cama, fechou os olhos e sonhou que podia voar.

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