Por que as minas do Flag Football 5x5 do Brasil dão de 10 a zero nos marmanjos?

Quem acompanha a Seleção Brasileira feminina de Flag sempre vê por aí atletas masculinos comentando posts cobrando a Confederação sobre a Seleção Masculina que nunca saiu do papel.

“Migo, senta aqui que a Tia G vai te contar uma história.”

Lá atrás, em 2011, a CBFA recebeu o convite da IFAF para disputar o mundial de 2012, em Gotemburgo na Suécia. Como vocês já puderam ler aqui no Campo MINAdo, um jovem chamado Éder Sguerri abraçou o projeto feminino e fez o 1o. Campeonato Brasileiro Feminino acontecer. Dali saiu o projeto da Seleção Brasileira. Um grupo foi formado com jogadoras de vários estados. Todas elas viajaram para SP algumas vezes para treinar. Sempre gastando dinheiro do próprio bolso. Nesse mesmo período, outra pessoa estava encarregada de formar a seleção masculina, mas o campeonato brasileiro e muito menos a Seleção Brasileira nunca saíram do papel.

Infelizmente já estava muito em cima da hora e a CBFA, na época ainda AFAB, não tinha condições de arcar com todos os gastos de inscrição das Seleções no Mundial. A Comissão Técnica e as atletas fizeram uma reunião e decidiram que pagariam todos os gastos. Foi uma correria danada, muitas não tinham o dinheiro mas se viraram como podiam para arrumar em poucos dias a quantia de R$800,00, cada uma, para cobrir o valor da inscrição que deveria ser pago à vista. Depois, cada uma teve que desembolsar mais de R$2.000,00 para pagar sua passagem aérea.

Viajamos até a Suécia e lá tivemos o grande choque de realidade. O Mundial era coisa séria. O nível dos atletas (sim, são atletas de verdade que jogam pelas seleções mais tradicionais) e o que a gente jogava por aqui estava muito longe daquilo que assistimos ali. Voltamos pra casa com o último lugar. Conquistamos apenas uma vitória, contra a também estreante equipe do Panamá.

Seleção Brasileira de Flag 5x5 2012: (Em pé) Grasiela Gonzaga (Chefe de Delegação), Rachel Jacob, Laryssa Paixão, Karoline Araújo, Michele Mineli, Fernanda Pessanha e Eder Sguerri (Head Coach). (Ajoelhadas) Lígia Blat, Victoria Guglielmo, Mariana Teixeira, Bianca Bueno, Juliana Myaki, Ana Ruiz e Carla Prado.

Após a experiência no mundial, em 2013, Eder, Tio Guto e eu criamos o Circuito Nacional de Flag Football, feminino e masculino. A adesão maior, desde a primeira edição, sempre foi das mulheres. As meninas que não tinham nenhum campeonato oficial “pra chamar de seu”, abraçaram a modalidade e o Circuito. Os meninos, em sua maioria, acostumados com o 8x8, ou com o Futebol Americano, não se empolgaram da mesma forma pelo 5x5 pela tal falta de “contato”.

O Circuito Nacional de 2013 foi um sucesso. A Superfinal em Goiânia contou com 12 equipes (6 femininas e 6 masculinas) que proporcionaram um fim de semana fantástico de muitos jogos e disputas acirradas. Você pode assistir o vídeo oficial aqui.

2014 chegou e já era hora pra mais um Mundial (Os jogos acontecem a cada 2 anos). Confiantes de que havíamos evoluído e de que agora poderíamos conquistar mais do que a última colocação, montamos uma Comissão Técnica mais completa, e com mais tempo de preparação, a Seleção Feminina mais uma vez saiu do papel. Novamente a CBFA não tinha condições de arcar com os gastos de inscrição e MAIS UMA VEZ as meninas e CT fizeram o pacto de que pagariam tudo que tivesse que ser pago para participar.

O projeto da Seleção Masculina foi iniciado ao mesmo tempo, porém ao saber que teriam que arcar com os custos, a grande maioria dos atletas preferiu não participar. No meio do caminho, a Seleção feminina conseguiu um patrocínio da Ana Cristina Lazarotto (Seremos eternamente ANA) que bancou todas taxas de inscrição e outros gastos organizacionais. Portanto em 2014, as atletas finalmente tiveram que arcar “somente” com suas passagens aéreas.

O mundial daquele ano estava confirmado em Jerusalém, Israel. Pro azar de todas, devido à guerra que estourou na região, apenas 1 mês antes, quando todas já tinham suas passagens compradas, a sede foi alterada e os jogos agora aconteceriam em Grosseto, na região da Toscana na Itália. Lá se vai parte de nosso dinheiro para pagar as multas das companhias aéreas e a diferença de preço das passagens agora compradas em cima da hora. Algumas atletas chegaram a gastar R$4.000,00 nessa brincadeira. Mas isso não foi suficiente para desanimar ninguém. Pelo contrário, depois de 2 dias de jogos muito difíceis e de ouvir os marmanjos cornetando os nossos resultados ruins nas redes sociais, a Seleção finalmente desencantou e no terceiro dia venceu seus 3 jogos, garantindo a 10a. colocação. (Obrigada haters, seu papel foi fundamental pra nossa virada de chave!).

Seleção Brasileira 2014: (De pé) Rafael Freire (Chefe de Delegação), Grasiela Gonzaga, Rachel Jacob, Michele Mineli, Karoline Araújo, Caroliny Machado, Débora Mello e Danilo Muller (Head Coach). (Ajoelhados) Juliana Myaki, Mariana Teixeira, Victoria Guglielmo, Kelly Joji, Lígia Blat, Catarina Souza e Eder Sguerri (Coordenador Ofensivo).

O Circuito Nacional de 2014 aconteceu normalmente, ainda maior (veja o vídeo da Superfinal) Como sempre, com muito mais equipes femininas, visivelmente cada vez mais competitivas.

Em 2015 a evolução foi ainda maior. Porém, o Circuito masculino sempre conta com muitas desistências e vai diminuindo no meio do caminho… Claramente o Flag Football 5x5 nunca foi, de fato, colocado como uma prioridade pela grande maioria das equipes masculinas que disputam outros torneios de FA, Beach e 8x8.

Felizmente, em 2016, a CBFA estava melhor estruturada e tinha dinheiro em caixa para pagar os gastos de inscrição de uma Seleção e, obviamente, deixou claro que investiria na seleção feminina por tudo que já havíamos conquistado. As meninas continuaram firmes e fortes como sempre. Mesmo com o mais novo desafio da vez: a disputa de uma etapa eliminatória no Panamá, a qual mais uma vez abraçaram, não só a causa, mas também todos os gastos da disputa. Já os homens… mais uma vez não se empolgaram quando souberam que teriam que pagar… E assim, novamente a seleção masculina não saiu do papel.

No meio do caminho, mais um prejuízo pras nossas meninas. O mundial que seria nas Bahamas, pouco tempo antes, mudou de sede MAIS UMA VEZ, e foi disputado em Miami, nos EUA.

O desfecho vocês já devem saber… As meninas foram até o Panamá, garantiram a vaga ao vencer a Guatemala e jogaram de igual pra igual contra a seleção panamenha. No mundial, a evolução foi sensacional. Trouxemos o 6o. lugar, perdendo a disputa de 5o. contra, nada mais nada menos, que a Seleção Norte-Americana. As panamenhas, que começaram em 2012 como o Brasil e que em Maio de 2016 jogaram de igual pra igual contra nós, sagraram-se Campeãs Mundiais.

Seleção 2016, vice-campeã das Eliminatórias Panamericanas no Panamá Em pé: Danilo Muller (head coach), Taísa Alencar, Ana Luiza CAzarin, Caroliny Machado, Luíza Calaça, Mariana Teixeira, Grasiela Gonzaga, Fernando Takai (Coordenador Ofensivo), Rafael Freire (Coordenador Defensivo) e Analu Sante (staff). Ajoelhadas: Marina Fernandes, Ingrid Camargo, Nayara Marciulionis, Lígia Blat, Suelem Guibu, Victoria Guglielmo, Thamieres Soares e Aila Barbosa. (Foto: Studio 1456)
Seleção 2016, 5a. colocada no Mundial de Miami. Em pé: Fernando Takai (Coordenador Ofensivo), Danilo Muller (head coach), Caroliny Machado, Luiza Calaça, Grasiela Gonzaga, Ana Luiza Cazarin, Rafael Freire (Coordenador Defensivo). Ajoelhadas: Ingrid Gracielly (staff), Ligia Blat, Suelem Guibu, Mariana Teixeira, Ellen Gonçalves, Ingrid Camargo e Victoria Guglielmo. (foto: Fabiano Silva Photography)

Em 2016 também, finalmente, tivemos a participação de um árbitro brasileiro nos jogos mundiais… Coincidentemente (ou não) foi uma árbitra mulher.

Giane Pessoa em ação, arbitrando a final masculina do Mundial de Miami 2016.

E aí? Por que a Seleção Feminina é um sucesso e a masculina nunca saiu do papel?

Depois de apresentar a história, eu deixo pra você mesmx responder.

;)

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