“Isso sim é uma emergência”: O caso Dynasty e Royal Gaming em Heroes of the Storm

No dia 7 de maio, Dynasty Gaming (ARG) e Royal Gaming Club (BRA) disputariam a última vaga para as finais presenciais da HGC Copa América de Abertura 2017 de Heroes of the Storm. Alguns momentos antes, na transmissão feita ao vivo pela Twitch, os dois times foram derrotados pela pela War Gaming e-Sports (BRA) e pela Red Canids (BRA), respectivamente.

Quem assistia a esta última série, que fecharia a noite, viu ela começando com atraso sem motivo aparente. Os narradores levaram a introdução da série como deveriam, se focando em fazer a prévia da partida e aguardar a escolha dos heróis.

Quando a câmera mudou para a escolha, a equipe argentina surpreendeu tanto os narradores quanto os espectadores: não fizeram seu primeiro banimento e escolheram Murquinho e Abathur de primeira. Os dois personagens, que têm estilos de jogo voltados para casos extremamente específicos para funcionar em nichos de estratégia, quase nunca são vistos a nível profissional. Uma estratégia não convencional? Talvez.

Seguindo, a Royal fez suas escolhas esperadas. Dynasty Gaming: deixou de banir pela segunda vez. Na sua escolha, pegou Cho’gall, um ogro de duas cabeças controlado por dois jogadores ao mesmo tempo. Por diversos motivos, mas principalmente por ser fácil de ser enfrentado por outros heróis, ele quase nunca vê jogo a nível profissional. A esse ponto, os próprios comentaristas ficaram sem palavras e levaram as escolhas dos argentinos na brincadeira. O chat, no entanto, só conseguia se revoltar contra a atitude da Dynasty, dizendo que isso era uma atitude antidesportiva.

Entre manifestações inflamadas do público e risadas dos comentaristas, o jogo rodou por exatamente 10 minutos, nos quais a Dynasty Gaming foi obliterada. O mapa tem média de 15 a 18 minutos por partida.

Ao se desculparem por fazerem piadas demais e não terem o que comentar de uma partida completamente fora de qualquer padrão, um dos narradores disse “Nós não temos culpa se os jogadores não estão respeitando o campeonato e simplesmente não querem jogar.”

A Dynasty Gaming não apareceu para a segunda partida, foi anunciado. A os brasileiros da Royal, portanto, venceram por W.O. e se classificaram para a segunda etapa. No entanto, a história estava longe de acabar.

Depois da partida

Já alguns boatos no chat disseram que a Dynasty estava se recusando a jogar devido a uma mudança na regra que favoreceria os brasileiros: deixaram que a Royal substituísse um de seus jogadores pelo capitão, o sexto membro do time, quando a regra dizia que isso era impossível. Os argentinos teriam jogado a primeira partida como protesto e desistiram da segunda por estarem bravos.

Foi dito que o jogador AlemaoPIS, da Royal, ficou com o PC pifado antes da partida contra a Dynasty.

A única certeza era da revolta do time argentino com o acontecido. Dando alguma pista sobre o que aconteceu, eles usaram sua conta no Twitter para postar uma mensagem de indignação contra a organização do campeonato.

“Que se saiba a verdade. Nos roubaram o torneio. #BlizzardLadra #Brasileiros Corruptos”, em tradução automática.

Como havia muitas informações desencontradas e nenhuma declaração oficial da empresa do Heroes of the Storm fora o W.O. da Dynasty, decidi apurar a história e entrar em contato com os três lados para entender o ocorrido: Royal Gaming, Dynasty Gaming, e Blizzard LATAM.

O lado da Royal Gaming

Entrei em contato com o gerente da Royal Gaming Club, Yatyr Moreira, no domingo, 7 de maio, à noite. Ele me informou que só se pronunciaria após o parecer oficial da Blizzard. No entanto, ele explicou sobre a substituição que:

“Realmente foi um problema de hardware, mas ainda estamos aguardando a posição oficial da publisher.”

O lado da Dynasty Gaming

Falei com o capitão do time argentino, Nicolás “Bile” Bileta, que me deu uma explicação detalhada, em nome de sua equipe, de tudo que aconteceu naquela noite. Inicialmente, ele deixou claro que nem ele e nenhum membro da Dynasty Gaming têm problemas com os da Royal e que, na verdade, ele é muito próximo do capitão do time brasileiro e fala com ele constantemente.

Ele começou explicando a informação que chegou até ele:

“O que nos deixou bravo foi que, quando íamos começar a primeira partida, vi um jogador que não estava na equipe deles e que sabia que era o sexto jogador. Como tenho certeza que (bom, agora não tenho mais) que ninguém pode jogar como substituto, falei com o admin, que me disse que o computador de outro jogador quebrou e que, por isso, eles jogariam com um substituto. Ele me disse que a Blizzard LATAM é quem decidia isso, então tentei falar com a equipe da Blizzard. Não responderam minha chamada no Skype, mesmo tendo me dito que eles estavam todos juntos. Na realidade, ele atendeu sem querer uma hora e eu ouvi ele falando com uma mulher. Eles recusaram a chamada e tive que falar com uma pessoa da Blizzard Brasil.”

De fato, o regulamento na página da ESL — que administra o torneio para a Blizzard — diz, na regra 3.3.2, que capitães não podem substituir jogadores da equipe ativa.

A explicação continuou:

Tudo que me disseram foi que declaram a quebra do computador do jogador original como uma emergência, então ele poderia jogar como substituto. Enquanto três times (incluindo o nosso) nesta Copa América foram avisados de que não havia a possibilidade de jogar com substitutos, e no momento perderam jogos por WO por isso.

Neste momento, o capitão provavelmente se referiu aos jogadores chilenos da Gere Gere Gaming que, na fase de grupos, não tinham dois de seus jogadores inscritos na hora da partida contra a Red Canids e, por isso, foram jogados para a chave dos perdedores por W.O.

Ele confirmou que, apesar de não conseguir falar por chamada, os membros da Blizzard falaram com ele por texto. “Eu queria falar numa chamada, mas eles mal tiveram a decência para fazer isso”, disse o capitão.

“As regras foram deformadas para beneficiar os times brasileiros ou economizar dinheiro. Não sei e na verdade nem me importo. Só me importa que nosso trabalho duro foi esmagado pela Blizzard novamente”

Ele ainda acrescentou que Hachepe, um jogador de seu time, teve que jogar uma das partidas da qualificatória na casa de um amigo pois um terremoto cortou a eletricidade de sua casa. Enquanto estava na casa de seu amigo, outro terremoto aconteceu e ele teve que continuar jogando. “Isso sim é uma emergência”, disse o capitão.

Ele confirmou que foi o AlemaoPIS, da Royal Gaming, que teve o problema com o computador.

Perguntei a ele o porquê de sua equipe fazer escolhas estranhas na primeira partida. O capitão explicou que ela foi jogada como foi pois

“[O time perdeu] sua vontade de jogar depois de ser prejudicado de novo pela Blizzard LATAM. Nós não zoamos. Nós só fizemos escolhas abaixo da média, mas jogamos para Ganhar. No entanto, nosso Cho’gall estava com o ping entre 400 e 600, então não dava pra fazer muito.”

A segunda partida, que antes parecia que o time inteiro da Dynasty havia desistido de ganhar, não foi jogada porque

“Eu escolhi não jogar. Perdemos por WO pois eu não estava no lobby quando eles decidiram iniciar a partida. Na transmissão, eles falaram que tentaram entrar em contato comigo, mas isso é uma completa mentira.”

Em um desabafo final, ele disse que ele e sua equipe fazem de tudo por seus sonhos. “ Perdemos namoradas, promoções no trabalho, tiramos notas piores. Tudo isso por nada”.

O lado da Blizzard LATAM

Tentei entrar em contato com o responsável pelas relações públicas da Blizzard Brasil por e-mail e com a página da Blizzard Esports Brasil no Facebook. Até segunda-feira, não havia recebido qualquer tipo de resposta.


A reversão

Nesta segunda-feira, dia 9 de maio, um membro da Royal fez uma postagem no subreddit do Heroes of the Storm tornando pública a nova decisão oficial da Blizzard no caso: a Royal Gaming Club foi desclassificada do torneio por W.O. e a Dynasty Gaming, anteriormente eliminada do torneio por perder a série, avançou para as finais presenciais em São Paulo.

A revolta, então, se tornou do time brasileiro, enquanto os argentinos comemoram de forma tímida. Novamente, busquei ouvir todos os lados da história nesta nova fase.

A defesa da Royal Gaming

Além da postagem publicada no Reddit, escrita por toda a equipe, o gerente do time, Yatyr, aceitou novamente falar comigo sobre o caso após a mudança da decisão da Blizzard LatAm.

Ele confirmou, sobre o caso de AlemaoPIS, que “[a] placa de vídeo [dele] queimou logo após a derrota para a Red Canids”. Yatyr me enviou uma foto da conversa que teve com o administrador Esteban Ignácio Vill após o problema. Há a confirmação de que a substituição foi autorizada sob a condição de que o novo jogador terminasse a temporada com a Royal, inclusive jogando as finais caso o time se classificasse. O time aceitou a proposta e, assim, poderiam jogar sem AlemaoPIS até o final da temporada,

Esteban abre uma exceção para a Royal Gaming. Foto enviada por Yatyr.

Yatyr disse que, apesar disso ser uma exceção, os itens 1.4.2 e 1.4.3 das regras da HGC Copa América de abertura permitiriam que os juízes presentes deferissem essa substituição se houvesse consenso, como ele afirma que houve. As partes que ele cita do documento mais recente dizem que:

1.4.2 Participando da Copa América 2017, os jogadores têm pleno conhecimento das regras da Copa América 2017 e com as decisões tomadas pelos árbitros. A aplicação e seguimento das regras e regulações está a cargo dos árbitros. Qualquer decisão pode substituir as seguintes normas e regulamentos para preservar o espírito da competição. Os participantes deverão obedecer às instruções tomadas pelos árbitros.
1.4.3 Cada um dos participantes reconhece o direito da ESL de modificar as normas e regulamentos, realizando ajustes em qualquer momento sem prévio aviso.

Com isso, Yatyr também chamou atenção para o item 3.3.5.d) das mesmas regras que, em sua versão mais recente, afirma que:

3.3.5.d) Casos especiais devido a emergências serão analisados para se determinar a viabilidade de uma mudança que seja estritamente necessária.

Desta forma, a equipe da Royal Gaming alega que a substituição seguiu dentro das regras definidas pelo torneio e que, portanto, não deveriam ser punidos por isso. Lembraram que sua classificação havia sido anunciada ao vivo naquela noite de domingo.

Ele adicionou que, no entanto, logo em seguida, foi proposto à sua equipe que uma nova partida melhor de três fosse jogada entre os times para definir quem teria a vaga para o presencial. Eles aceitaram a proposta e acreditavam que o problema estava solucionado.

Manuel “SwaP” Sepúlveda, Coordenador de Esports da Blizzard na América Latina, mandou a proposta para Beto, um dos jogadores da Royal, por Skype. “Vocês poderiam jogar amanhã contra a Dynasty com o Alemao na equipe?”

Ao final da declaração, muito provavelmente fazendo referência à partida que jogaram contra a Dynasty Gaming, ele disse:

“Resta dizer que o bom comportamento foi absurdamente desmotivado enquanto o mau comportamento incentivado. Pois, no nosso entendimento, tivemos um comportamento honesto ao avisar os organizadores do problema do nosso jogador e não optando por outras soluções que estavam fora do regulamento, por sua vez equipe Argentina teve um péssimo comportamento, pois, prejudicou diretamente as transmissões ao fazer nitidamente um péssimo primeiro jogo e se recusar a jogar o segundo jogo, demonstrando falta de profissionalismo e respeito com a organização e espectadores do torneio.
Acreditamos que a administração irá rever esta decisão e promover a BO3 que haviam combinado, ou nos manter como vencedores. Visto que ganhamos o jogo e não fizemos nada fora das regras. Todos as nossas ações foram feitas com a maior lisura possível e esperamos que não seja necessária nenhuma intervenção jurídica.
Temos toda certeza do nosso direito e esperamos de verdade que a Blizzard se pronuncie o mais breve possível para esclarecermos esse problema.”

O anúncio pela Dynasty

Em sua página no Facebook, a Dynasty Gaming declarou ter sido informada sobre a nova decisão da Blizzard e comentou:

“Agradecemos à Blizzard eSports LatAm por reconhecer o erro e tomar a decisão correta. Também vale a pena esclarecer que nunca, em nenhum momento, foi nossa intenção passar desta forma, e só fizemos valer as regras como descritas, visto que muitos outros times foram afetados sob a mesma regra.”

Através do Nico, o gerente da Dynasty me informou que também recebeu a proposta de refazer a melhor de três contra o time brasileiro, mas que recusou. “ Pelas regras, não havia motivo para uma nova partida. O time deles não estava completo na hora do campeonato.”

O capitão me disse por mensagem que não queria que fosse esse o clima de sua ida ao Brasil, mas que estava satisfeito com a decisão. O time anunciou que viajará para nosso país no dia 18 de maio, quinta-feira, para disputar as finais presenciais desta etapa.

Mudança nas regras

Quando acessei as regras da HGC Copa América em um momento anterior ao problema, me lembrei de ter lido no mesmo item 3.3.5.d), que Yatyr usou para provar a regularidade da substituição de seu time, o termo “emergências médicas”. Quando abri novamente o arquivo na segunda-feira, dia 8 de maio, notei que só havia “emergências”.

Como recusei a aceitar minha própria loucura de inventar uma palavra nas regras, consegui verificar que o arquivo das regras, no Google Docs, havia sido criado no dia 7 de maio às 21h48, alguns minutos após o término da série polêmica entre Dynasty Gaming e Royal Gaming. Como as regras sempre existiram — eu as acessei anteriormente e os times também — , seria impossível que elas tivessem sido adicionadas realmente neste momento.

À direita, a informação do documento diz “Criado 21:48 7 de mai”

Ao acessar meu histórico do dia 7 de maio, descobri que o regulamento que li primeiro estava, na verdade, no Dropbox. E justamente lá estava, no item 3.3.5.d), o termo “emergências médicas”, como eu havia imaginado. Desta forma, apenas problemas médicos, como internações, justificariam a entrada de um jogador no lugar de outro em um time da HGC Copa América.

Caso haja alguma modificação até lá ou o link se perca, há o print abaixo comprovando a versão antiga.

O item d), no regulamento do Dropbox, anterior ao término da série, cita “Emergências Médicas”, quando o regulamento carregado após a partida dizia apenas “emergências”.

Sendo assim, fica comprovado que os responsáveis pelo regulamento alteraram as regras da competição alguns minutos após o término da série entre Royal Gaming e Dynasty Gaming. Desta forma, emergências não relacionadas a problemas de saúde também poderiam ser enquadradas como “casos especiais” que poderiam levar os juízes do torneio a permitir que um time realizasse a substituição.

É importante lembrar que, apesar disso, tal mudança não se caracteriza como um ato que fere o regulamento da própria HGC Copa América ou da ESL, a organizadora do torneio. Como foi mostrado anteriormente, o item 1.4.3 garante à ESL a autonomia de fazer qualquer mudança no regulamento a qualquer momento sem prévio aviso. No quesito “legalidade” da atitude, a organizadora apenas exerceu seu direito sobre as regras do torneio.

As próprias regras globais da ESL, que se aplicam a todos os torneios gerenciados por esta, dizem no item 1.1 que “A administração da liga tem o direito de tomar decisões além ou até contra o regulamento em casos especiais para assegurar o fairplay.”

A resposta da Blizzard

O responsável pelas relações públicas da Blizzard entrou em contato comigo por e-mail nesta sexta-feira, 12 de maio.

Questionei-o sobre a decisão inicial da exceção para os brasileiros, da reversão e da mudança nas regras. Ele comentou sobre o caso por inteiro, incluindo sobre a alteração do item 3.3.5.d) do regulamento:

“Conversamos com os capitães das equipes informando a nossa decisão, e neste momento não temos outras informações para compartilhar sobre este assunto.”

Tentei contato com a Blizzard Esports LatAm através de sua página no Facebook, mas a mensagem não foi visualizada nem respondida até o momento da publicação desta reportagem.

Também entrei em contato com Esteban Vill, citado por Yatyr, através do Facebook, para confirmar as informações sobre a foto da tela enviada pela Royal Gaming, que prova a cessão da substituição para a Royal Gaming. Ele também não havia respondido à mensagem até a publicação desta reportagem. No entanto, a foto da imagem bate com a foto de perfil de Esteban na rede social no momento desta postagem.

O coordenador geral de Esports da Blizzard, Matt MacNeil, respondeu a meu e-mail afirmando que, já que o caso aconteceu no Brasil, as informações deveriam ser verificadas com o responsável pela comunicação da Blizzard Brasil, como foi feito. Ele não fez qualquer declaração sobre o caso.

Atualmente, a decisão em vigor é de que a Dynasty Gaming foi a vencedora da série contra a Royal Gaming por W.O. e, portanto, jogará as finais presenciais da HGC Copa América de Abertura no Brasil. A Royal Gaming está eliminada do torneio.

As chaves ainda não foram definidas, mas os argentinos disputarão o troféu da temporada com a Red Canids (BRA), a WarLive e-Sports (BRA) e a Thunder Awaken (PER) em séries de melhor de cinco com eliminação dupla — chave dos vencedores e perdedores.

Caso haja novas notícias sobre o caso, esta matéria será atualizada.

Bhernardo Viana é um jornalista de games freelancer. Você pode conhecer algumas de suas matérias em seu portfólio.

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