Você é gordofóbico e não sabe (ou não admite)

Vivo com um constante IMC 28 há pelo menos 16 anos. Isso significa que tenho sobrepeso. Mas imagino que quem se interessa por esse assunto deva saber de cor o que significa IMC e o que seus diferentes graus significam. O fato é que gosto de mim assim. Aprendi a comprar roupas que me caem bem. Também sou saudável, pelo que atestam meus exames e minha disposição geral. Embora não frequente academia, meu Google Fit me informa que estou longe de ser sedentária.

Ano retrasado, emagreci 10 quilos em 2 meses por conta de uma crise pessoal que por um tempo me levou completamente embora a vontade (o prazer) de comer. Eu me sentia infeliz e fraca. Minha pele parecia papel. Eu não tinha ânimo pra muita coisa além de trabalhar e cuidar da Lina. Por outro lado, fazia tempo que não recebia tantos elogios desbragados sobre minha aparência. Meus olhos estavam tristes, mas a cintura…

Tive uma prova do quanto as pessoas são gordofóbicas sem perceber em 2011, durante um treinamento da empresa que reunia gente de várias partes do Estado que praticamente não se conheciam. À mesa do almoço, diante de pratos feitos (o meu, lembro, era um filé à milanesa com risoto bem honestos), começam os indefectíveis (e insuportáveis para mim) comentários do tipo “hoje vou ter que correr mais pra queimar essa milanesa”, “sabia que desde que cortei o glúten, minha vida mudou?”, “tem certeza que vai botar azeite na salada? sabe que é saudável, mas muito calórico, né?”.

Em pleno tratamento para engravidar, com hormônios saindo pelas orelhas que me deixavam em estado de TPM constante, falo num tom meio melancólico/meio irritado:

— Ai, gente, acho muito ruim ficar falando de comida durante as refeições. Porque desde que emagreci 40 quilos isso me deixa tensa.

Súbito silêncio, e todos se virando pra mim. Até que a mais emocionada na conversa sobre “alimentação light” pergunta:

— Como assim?

— Pois é, já pesei 120 quilos — segui na mentira, só pra confirmar a intuição sobre qual seria a reação geral.

Comprovando a minha intuição, vieram as exclamações gerais de entusiasmo.

— Guria, que máximo!

— Menina, como tu tá bem!

— Que vitoriosa!

— Que incrível, guerreira!

Até que um dos que me conhecia um pouco pergunta, incrédulo:

— É sério?

E eu esclareço, com um sorriso (satisfeito e, confesso, meio maligno) de orelha a orelha:

— Não. Mas até agora aposto que vocês estavam me vendo como a gordinha preguiçosa e que não consegue conter o apetite para ser bonita. Ao acharem que eu fiz horrores de sacrifício para chegar a este corpo, que tenho há 10 anos, na verdade, fiquei subitamente linda aos olhos de vocês.

De improviso, evidenciei a gordofobia dos colegas de mesa do almoço. Foi constrangedor. Porque me senti meio mal na hora, depois de fazer a brincadeira. Mas depois pensei que o constrangimento deveria ser deles, não meu.

(Ah, sim. Depois que passou a tal crise, voltei ao normal e, aos poucos, recuperei 9 dos 10 quilos. Voltei ao IMC 28 e a mim mesma.)


Este texto foi inspirado por um divertido post sobre o assunto da Sílvia Amélia de Araújo no Facebook.

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