Vamos Ao Tape

Por que Dak Prescott está forçando sua comissão técnica a abrir o playbook?

Hoje é sexta-feira, o que significa que é dia de estudo de tape no ZONA FA. Na série Vamos ao Tape, analisaremos gamefilm dos times da National Football League uma vez por semana, em busca de entender atuações, erros, mudanças e filosofias implementadas na liga. O objetivo da coluna é de explicar como pequenos detalhes podem resultar em uma vitória ou até mesmo uma derrota. Alguns termos específicos serão utilizados e, caso não tenha sido utilizado antes na série, será explicado para vocês no início do artigo para facilitar a leitura do texto.

Na análise da Semana 8, vamos entender como Dak Prescott está forçando sua comissão técnica a abrir o playbook cada vez mais o que demonstra que a decisão entre o calouro e Tony Romo não será das mais fáceis.

  • Glossário:

1–12 Personnel: Numeração utilizada para demonstrar quantos RB e TE estão na formação. O primeiro dígito faz referência ao número de RB (nesse caso 1 na formação) e o segundo a respeito dos TEs (nesse caso 2 na formação).

2 — Strongside: Lado da formação que possui o TE alinhado próximo à linha de scrimmage. Caso não tenha TE na formação (TE armado longe da OL é considerado um WR em termos de tática), o lado forte é o lado do braço que o QB utiliza para lançar.

3 — Backside: Lado contrário de onde ocorre a corrida do RB.

4 — Robber: Jogador defensivo que fica “na sobra” no meio do campo abaixo do safety para tentar roubar um passe e interceptá-lo.

5 — Audibles: Quando o QB faz uma mudança na jogada após o ataque já estar alinhado.

6 — Slants: Conceito de rotas em que o WR aberto dá dois passos e quebra 45 graus para dentro do campo e o de dentro faz o mesmo OU corre uma rota flat (paralelo à linha de scrimmage para a lateral do campo).

7 — Go route: Rota que mira o fundo do campo.

8 — Out route: Rota que percorre entre 5 a 15 jardas e quebra 90 em diração à lateral do campo.

9 — Spy: Defensor cuja responsabilidade é impedir que o QB faça um scramble.

10 — Verticals: Conceito de rotas em que os recebedores miram o fundo do campo.

11 — Curl: Rota em que o recebedor corre de 5 a 15 jardas e no final da rota, se vira para o QB.

12 — Comeback: Rota feita similar à go mas o recebedor quebra para a lateral após pelo menos 15 jardas.

13 — Cover Zero: Marcação defensiva sem defensor no fundo do campo.

14 — Cover 1: Marcação defensiva com um defensor no fundo do campo.

15 — Pass Protection: Movimentação da linha ofensiva para formar o pocket para o QB.

16 — Dummy Count: Quando o QB finge que vai sair o snap para forçar a defesa a se movimentar antes do início da jogada, assim facilitando sua leitura.


Como temos visto nesta temporada, Dak Prescott — escolha de quarta rodada do Draft deste ano — assumiu a titularidade do Dallas Cowboys após a lesão de Romo na pré temporada. A expectativa era de que o Cowboys teria dificuldade na temporada mas já nos amistosos, o camisa quatro demonstrou ter um algo a mais.

A temporada começou e já estamos entrando no Week 9 e a franquia mais famosa dos Estados Unidos se encontra no topo da National Football Conference com seis vitórias e apenas uma derrota.

Antes do Draft, na minha avaliação dos quarterbacks, o meu ranking final teve o ex-Bulldog na quarta colocação entre os disponíveis tendo como principais problemas erros simples de mira e o fato de não ter trabalhado em um ataque pro style na NCAA. Mesmo assim, Prescott vem demonstrando que não só está pronto para jogar mas que pode ser que já tenha assumido a titularidade permanente de America’s Team.

Ele segue tendo alguns problemas de mira que podem ser vistos nas partidas mas hoje nós vamos ver como ele tem forçado sua comissão técnica a abrir todo o playbook para o calouro e como ele tem liberdade para fazer mudanças de jogada dentro de campo.

Na primeira jogada, o Cowboys se encontra em uma 2a para 14 na própria linha de 17 jardas. O jogo ainda está empatado em zero a zero com 12:45 restando no primeiro quarto.

O Cowboys está em 12 personnel com os dois tight ends alinhado na direita. Os safeties vão girar e com isso Prescott altera a corrida — que era pra esquerda — para o strongside.

O que mais evidencia a mudança de lado da corrida é a reação do TE Geoff Swaim. Na imagem acima podemos ver que ele está posicionado uma jarda atrás de Jason Witten, mas com sua cabeça na altura da cintura do companheiro. Assim que ele vê a mudança de lado da corrida, ele dá um passo para trás para ficar “livre” do alinhamento de Witten. Isto certamente é parte do ajuste dos Cowboys que indica que nessa jogada, o TE deve bloquear o defensor que vier pelo backside. Isto fica evidenciado pelo círculo amarelo nas imagens que vemos que seus pés, antes alinhados na linha de 15 jardas, agora estão na marcação de 14 jardas.

O resultado da jogada será um ganho de apenas duas jardas mas Dak tirou o seu ataque de uma situação desfavorável no lado esquerdo — 4 defensores contra 3 bloqueadores — e colocou em uma situação de ganho, mesmo que pouco, no lado direito.

No próximo lance temos um exemplo de como Prescott tem liberdade para alterar completamente a jogada que foi chamada no huddle.

No primeiro snap do segundo quarto, o Cowboys se encontra na linha de 20 jardas do Philadelphia Eagles. Com o placar 7 a 3 para Dallas, a situação é de uma 3a para 5. O Cowboys entra em uma formação com 4 WRs e 1 TE.

A leitura inicial da defesa é de marcação Cover Zero com um dos LBs sobrando na marcação como robber que será identificado por Prescott.

Na imagem abaixo, Prescott repara que Jordan Hicks (#58) está vindo em uma blitz pois o seu posicionamento é completamente desfavorável para possivelmente marcar Witten. Com isso, Prescott altera o lance e chama Witten para armar colado na linha ofensiva e ajudar na proteção. Ele depois repara em Nigel Bradham (#53) e que seu posicionamento é bastante peculiar. Ele não sabe dizer se ele virá em blitz ou se vai afastar para marcação em zona. Ele identifica este jogador para sua OL para que eles possam se ajustar dependendo da pressão que vier.

A linha ofensiva começa a se comunicar para ajustar a proteção. Enquanto isso, Dak chama dois audibles enquanto Witten se reposiciona. No lado esquerdo da formação, ele faz um sinal que após o snap, veremos que significa que os WRs devem correr o conceito slants. No lado direito, ele fará um sinal diferentes, pedindo que o WR aberto faça uma go e o de dentro faça uma out route.

Este tipo de liberdade é raramente concedido a calouros mas Prescott conquistou a confiança de seu Head Coach Jason Garrett pelo seu entendimento do playbook.

Como podemos ver na imagem seguinte, O reposicionamento de Witten causou uma mudança na defesa para uma marcação Cover 1 com um robber. Vemos os safeties conversando para alterar a marcação, mudando suas responsabilidades na jogada. Na primeira imagem, também temos o desenho das rotas a serem executadas pelo WRs.

Após o snap, Dez Bryant rapidamente venceu sua marcação e se torna o alvo mais indicado, mas Prescott erra na mira e o passe acaba sendo incompleto.

Em outro exemplo de como Prescott tem liberdade em sua ataque, o Cowboys está perdendo a partida por 23 a 13 no início do último quarto. Em uma 2a pra 10 com 13:29 restando, Prescott faz outra boa leitura da defesa vendo que ela se encontra em Cover 1 com um spy.

Ele percebe a oportunidade para uma jogada de grande avanço e chama mais dois audibles. Do lado direto, ele faz um sinal de pássaro com as mãos que, pelo conceito que veio a ser feito pelos WRs, certamente significa verticals, daí a relação com “voar” de seu gesto. Para o lado direito, ele bate as duas mãos em seu peito. Em inglês, peito é chest e (agora é pura especulação minha) como o slot faz uma curl e Bryant faz uma comeback, acredito que a primeira letra “c” designe as rotas a serem feitas pelos recebedores, dependendo de seu posicionamento.

No conceito verticals, o que normalmente ocorre é que o WR aberto e o TE possuem opções em suas rotas. O WR aberto, caso o marcador esteja em off coverage, deverá correr uma comeback. No caso do TE, se há um safety solitário no meio do campo, ele deve correr uma rota mais rasa para tentar puxar sua marcação. Se forem dois, ele deve mirar sua rota entre os dois defensores. Neste caso, tem apenas um, então ele faz uma rota mais curta.

Apesar da boa chamada, a pressão acaba atrapalhando a proteção ao quarterback e ele é forçado a escapar do pocket. Prescott busca seu WR aberto, mas o spy consegue persegui-lo e a jogada acaba sendo um passe incompleto.

No quarto lance de hoje, o Cowboys já diminuiu a diferença para 23 a 16 e restam 4:45 no último quarto. Na linha de 44 do Eagles em uma 1a para 10, O Cowboys está armado em shotgun. Nós não temos como saber qual foi a jogada inicial, mas há indicadores que mostram que era um passe. Vamos à jogada.

Antes do snap, Prescott faz um dummy count e vê o DE do lado direito da defesa mostando movimentação inicial para dentro. Isto é o suficiente para o calouro identificar a jogada da defesa.

Prescott altera a formação para um singleback e o que será uma corrida de Zeke Elliot para o lado direito. Além disso, reparem no posicionamento do right tackle, Doug Free. Ele está com o seu corpo mais elevado, com o braço esquerdo apoiado em sua perna, o que indica que ele fará movimentação de pass protection. Além dele, outros OLs também não estão com as mãos em contato com o gramado. Após a mudança na jogada, Free baixa o quadril e reposiciona seus braços. Esta diferença é difícil de ser vista, mas para um atleta a nível da NFL, é possível reconhecer esta mudança sutil. Os guards passam a ter suas mãos apoiadas no gramado. Isto tudo indica uma corrida. Reparem nas mudanças de Free (que será circulado em vermelho) e os guards da imagem anterior para as seguintes.

A mudança é bem nítida quando paramos para observar. Tão perceptível que os LBs do Eagles perceberam a mesma coisa e se reposicionaram para fechar os gaps para uma corrida de Elliot. Mesmo com os ajustes defensivos, o HB calouro consegue um avanço de sete jardas.

Para fechar nossa análise de Dak Prescott e sua maturidade tática, temos mais um lance do último quarto.

Agora com 3:34 restando em uma 2a para 3 na linha de 37 jardas do Eagles, Prescott identifica mais uma vez marcação Cover 1 da defesa com um spy. Desta vez, ele está disposto a arriscar com Bryant.

Ele sinaliza para Bryant (que não aparece na próxima imagem) para que ele faça uma rota go sabendo que ele está em marcação mano a mano.

Após o snap, Prescott mostra a maturidade e calma de olhar para o lado direito do campo para prender o free safety e não permitir que ele consiga chegar em Bryant a tempo de atrapalhar a jogada. O safety é treinado a olhar os olhos do QB e ele acompanha o olhar de Dak para o lado direito do ataque.

Após prender o FS tempo suficiente, Dak reposiciona seus pés para o lado esquerdo e solta um passe para Bryant. Mais uma vez Dak acaba soltando um passe errado e ele não é completo.

Nas jogadas de hoje, foi possível ver como Dak Prescott está muito à frente mentalmente do que um calouro deveria estar. Ele ainda comete erros de mira, coisa que o acompanha desde os tempos em Mississippi State mas os seus erros são corrigíveis. O que podemos concluir é que Prescott é o quarterback do futuro do Cowboys. Definir quem deverá ser titular entre Romo e Dak é bastante complicado, especialmente com a atuação de Dak. Mas é aquele velho ditado que conhecemos:

“Em time que está ganhando não se mexe.”


Este foi mais um artigo de análise de game film aqui no ZONA FA. Toda semana vamos estudar tape e explicar porque deu certo ou errado.

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