Carta a quem me ensinou o que não é amor

São Paulo, 11 de abril de 2017 
De Piera Peral para quem me ensinou o que não é amor

Olá, te escrevo para dizer algumas coisas sobre o que passamos há quase uma década. Tudo que aconteceu está gravado na minha mente a ferro e fogo, o tempo que demorei para falar sobre é o mesmo que demorei para reencontrar minha voz.

O amor que você sentia por mim foi declarado das mais diferentes formas. Você me amou com jantares, cenas de ciúmes, presentes, berros, joias, apertões, viagens, me amou quando me convenceu que eu queria transar sim, que só não sabia disso. Você me amou a cada pedido de desculpas por um ato mais exagerado, agressivo, ato esse que serviu sempre para demonstrar esse imenso amor. Me amou quando exigiu que eu me afastasse dos meus amigos, você sabia que a melhor e única companhia pra mim era você.

Você me amou tanto que eu nem precisei me amar mais, você tinha ciúmes do meu amor próprio, e eu parei de me amar. Sabe como é né? Eu não gostava de causar brigas desnecessárias.

Quando em meio a uma crise de pânico, dopada de remédios, eu decidi que precisava reavaliar a minha vida, você pediu para que eu largasse minha terapeuta, afinal, ela questionava seu amor, só podia ser louca, assim como minhas amigas. 
Eu não sei se você sabe disso e acho que esta carta é uma ótima oportunidade de te contar, eu passei a ir escondida na terapia, e foi nesse ato de transgressão que seu amor ficou mais claro pra mim.

Quando uma amiga me contou das suas traições eu não senti raiva de você, eu senti alívio. Aliás, eu demorei alguns anos para sentir raiva de você.

Quando terminamos você também me deu provas do seu amor. Você me seguiu de carro por alguns meses, lembra? Eu tinha um carro vermelho e você me mandava mensagens avisando do perigo de parar o carro em algumas ruas da cidade quando eu estava sozinha, a noite. Eu passei a me proteger do seu amor, andando sempre acompanhada de amigos, eu pedi para você parar de me amar, eu rezei para que você parasse de me amar.

Quando você mudou para uma cidade do outro lado do país eu realmente achei que a distancia minguaria esse amor, eu subestimei a força do que você sentia. Você atravessava o país todos os finais de semana, tudo para demonstrar seu amor publicamente, aparecendo nos lugares onde eu estava, mesmo eu implorando para que você parasse de fazer esse tipo de demonstração de afeto. Você fazia questão de dizer a todos os presentes que eu havia arruinado sua vida, que eu era uma puta, que não aceitava seu amor por ser uma puta, uma puta influenciada por minhas amigas putas.

Você me amou uma última vez, me amou agarrando meu braço, tentando me arrastar para fora de um bar, ainda bem que uma das minhas amigas putas estava lá e conseguiu te impedir de exercer seu amor, tenho minhas dúvidas se essa última demonstração me deixaria viva.

Eu passei anos sem falar sobre isso, apenas há alguns anos eu revisitei seu amor e entendi que você deu o nome errado para o que sentia todos aqueles anos. Você sentia obsessão e eu sentia medo, era isso que nos unia, o amor, aprendi mais tarde, é outra coisa.

Quando eu revisitei nossa história de não-amor eu senti muita raiva de você, e mais raiva de mim. Hoje, eu me perdoei, eu era nova, eu não sabia melhor, eu não dividi com ninguém o que eu passava, eu tinha medo. A raiva que eu dirigia a você eu transformei em uma energia de apoio, apoio a outras mulheres que são amadas do jeito que eu fui.

Eu demorei para falar sobre isso, eu demorei para saber que poderia falar sobre isso, encontrar a voz que você arrancou de mim foi um processo lento e que me machucou muito, até que me deixou mais forte.

Essa carta o carteiro não vai te entregar, essa carta você não vai abrir. Mas eu espero que chegue a alguma mulher que saiba como é ser amada assim, alguma mulher que precise agarrar na mão de alguém. Pois se essa mulher estiver lendo isso, eu garanto, tem uma rede de apoio aqui fora, uma rede que sabe o que é amor de verdade. Uma linha de frente que grita junto “cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim” e liga para o 180 rapidinho.

Para você meus sinceros votos de que você tenha mudado e aprendido a respeitar o amor. Para elas minha mão, meu abraço e meu respeito.

Pi