Chove

Amanheceu e chove sem parar em São Paulo meu bem. Se você estivesse aqui me imploraria para que eu ligasse para o trabalho e dissesse que estava com uma doença incurável. Eu provavelmente mandaria uma mensagem dizendo que me atrasaria devido à chuva, me enrolaria e rolaria na cama com você. Mas você não está e eu levantei cedo, fiz yoga na sala, comi tapioca e café preto sem açúcar. Me vesti como se fosse encarar as cataratas do Iguaçu, com aquela galocha que você ria quando eu usava e aquele casaco impermeável que era seu. Você desaprovaria meu look do dia dizendo que eu estava exagerando e eu ignoraria seus conselhos de moda.
É tarde e a chuva não deu trégua em São Paulo meu bem. Se você estivesse aqui teria me mandado mensagem falando alguma sacanagem que me faria ficar vermelha em meio a alguma reunião séria.
Mas você não está e eu recebi mensagens da minha mãe que viu no jornal alguma parte alagada da cidade e quis saber se eu não havia morrido afogada, das meninas cancelando o jantar de hoje porque o trânsito estava impossível e de algum preso dizendo que eu ganhei dez mil reais.
Já é noite e ainda chove em São Paulo meu bem. Se você estivesse aqui me faria sopa, abriria aquele vinho francês que eu tanto amo e tentaria me convencer que dias de chuvas são para filmes de terror, não sei se você sabe disso mas nunca me convenceu, dia nenhum é dia de filme de terror, mas é claro que eu assistiria e agarraria você a cada cena de susto desnecessária, acho que essa era a única parte que eu gostava, e tenho certeza que você achava isso mais interessante que qualquer sangue jorrando. A verdade é que você gostava de ter sua mocinha em perigo, e esse era um dos poucos momentos que eu me vestia desse personagem que você tanto me pedia pra ser.
Mas você não estava e eu cheguei em casa sem sopa e com aquele vinho do mercado que sobrou da última vez que as meninas passaram por aqui. Fiz um risotto e assisti uma série que você acharia política demais, com diálogos demais e com ação de menos, sem aquela adrenalina que você precisava, pedia e implorava.
É madrugada e a chuva parou em São Paulo meu bem. Se foram também os meus pensamentos em você, como se a culpa de você me invadir fosse da condição climática, ficarei atenta na próxima vez que eu olhar a previsão do tempo, se for de forte chuva na cidade de São Paulo já vou me preparar para sua visita não anunciada, estarei pronta para pedir ao porteiro para dizer que não tem ninguém em casa, que eu saí sem hora para voltar e que ele não pode anotar recado.
Piera Peral
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