Entre um Dry Martini e um Gin Tônica, Você.

Você apareceu entre um Dry Martini e um Gin Tônica, parecia que sabia da minha queda por homens com cabelos enormemente bonitos, porque já chegou exibindo o seu com uma mania deliciosa de mexer nele enquanto me olhava com um olhar interessado. Você apareceu com meu manual de instruções no bolso e seguiu a risca, não se ofereceu para pagar meu drink, me fez rir, não tentou me beijar no meio daquela multidão e prestou atenção em cada piada suja que eu fiz olhando pra minha boca, riu de todas e em nenhum momento peguei um olhar de reprovação.

Quando você me perguntou o que faríamos depois que saíssemos só nós dois dali e eu te convidei para um último drink em casa, você sorriu com toda malicia que eu precisava. Entramos no taxi, eu disse o endereço e não trocamos mais nenhuma palavra, você me beijou ali, me beijou no elevador e enquanto eu procurava as chaves, beijou meu pescoço, ombro, e até onde o decote das minhas costas permitia, e eu demorei dez vezes mais que o normal para achar aquelas chaves. Quando a porta finalmente abriu, você me beijou no corredor, na cozinha, na sala e no quarto. Aquele manual de instruções deve ser muito especifico. Me deitou na cama e enquanto sussurrava baixinho no meu ouvido eu derreti, derretemos.

Você ficou ali, me olhando, passeando com as mãos pelo meu corpo, perguntou a historia das minhas tatuagens, sem querer saber o que elas significavam, parecia que sabia que eu odeio dar significado às coisas, que eu prefiro contar a história delas. Quando levantou para fumar um cigarro na sacada eu fiquei ali te olhando, admirando seu corpo sendo beijado pela lua cheia que mais parecia um sol lá fora, e menino, não vai embora daqui não, fica pra sempre na minha sacada.

Eu dormi te olhando ali e quando acordei você já não estava mais, a lua também já havia se retirado dando lugar a um solzinho fraco desse inicio de primavera acompanhado de uma melancolia de quando se acorda de um sonho bom, que acabou assim que percebi seus braços na minha cintura. Levantei com cuidado pra não te acordar, fui para cozinha, fiz café e quando fui levar pra você fiquei um tempo parada na porta te olhando sem coragem de te acordar, poxa menino não vai embora ainda, fica mais um pouquinho.

Tomamos café adoçado por sua curiosidade tão maravilhosa e tão sincera, e eu poderia ficar horas te respondendo tudo. Falamos sobre as caixas que se espalhavam pelo apartamento, e da minha preguiça de preenche-las com tudo que estava ali ao mesmo tempo que estava empolgada para essa tão grande mudança, você me perguntou se eu iria pintar o apartamento para entregar e eu disse que sim, você se levantou sem dizer nada e quando voltou tinha meus pinceis e tintas que antes estavam espalhados na mesa da sala nas mãos, me contou que antes de pintar uma parede você pode fazer o que quiser nela, contar todos seus segredos que eles ficarão ali sendo contados para sempre ao mesmo tempo que ninguém os conseguirá ouvir, então abriu a tinta e desenhou um sol, me deu um pincel e ficamos ali escrevendo, desenhando e se sujando de tinta. Menino, fica e me diverte assim pra sempre?

Almoçamos, jantamos, transamos e parecia que você ficaria ali pro resto da vida, parecia que você já estava ali a vida inteira. Dormimos, e quando acordei de manhã você estava sentado no chão escrevendo na parede, estava com um olhar concentrado e eu não te interrompi, permaneci ali como público de um artista que realiza uma performance, quando me viu te olhando abriu um sorriso de satisfação, veio até a cama, e eu percebi que você já estava vestido. Você chegou pertinho do meu rosto, me beijou e disse que precisava ir, eu não fiz perguntas, te levei até a porta, você caminhou até o elevador e ficamos nos encarando de longe, eu corri enrolada no lençol te dei um beijo de cinema, voltei, entrei e fechei a porta. Corri pra ler o que você escreveu e lá estava, um poema do Galeano, logo embaixo a frase que me fez sorrir “Vai ser lindo, mas não agora”.

Assim como meus drinks você apareceu entre um amor e outro, e para ser lindo espero você voltar menino, a porta tá aberta e os nossos segredos guardados sob uma camada de tinta branca.