Meu Bem,

Quando foi a ultima vez que nos vimos? Eu chorei? Não consigo lembrar sobre o que conversamos ou se conversamos. Tomamos um café ou só nos esbarramos em alguma festa? Não tenho a mais vaga memoria , só sei que desde o nosso último encontro você não apareceu mais em minha mente, te coloquei lá no fundo, de castigo, não pensei mais em você.
Mas agora estou aqui, sentada em um café que você sugeriu, esperando você chegar. Pela primeira vez estou adiantada, faltam 15 minutos para o horário que combinamos e estou repassando mentalmente tudo que eu quero te dizer, e tentando me convencer que foi uma boa ideia te procurar, relembrando o que a astróloga disse, que a cartomante confirmou e a terapeuta assinou e reconheceu firma em cartório, preciso conseguir falar seu nome sem hesitar, te deixar no nosso lindo passado, pedir perdão e te perdoar.
Que amor lindo tivemos, meu bem (continuo te chamando assim na minha cabeça), que casal icônico formamos, mas hoje sei que amor se conjuga sim no passado, e isso não é ruim de maneira nenhuma, é apenas um fato, eu te amei e não te amo mais, mas por que te amei te quero bem e quero conseguir dizer seu nome sem desviar o olhar.
Faltam 5 minutos para o horário marcado, meu celular está tocando e eu não consigo encontrá-lo dentro da bolsa (sim, minha bagunça ainda é a mesma e aquele organizador de bolsa que você me deu continua na embalagem em alguma gaveta bagunçada), morro de medo que seja você cancelando. Ufa, era só meu irmão. Lembro do dia que meu irmão soube que nos separamos e me abraçou sem dizer nada, só abraçou em silêncio e depois de um tempo eu não sabia mais quem estava consolando quem naquele abraço.
16h, você vai entrar pela porta a qualquer momento, eu escolhi sentar em um lugar estratégico, vou te ver entrando pelo vidro que reflete a entrada, você não vai ver que eu te vi, terei tempo de me recompor e agir naturalmente até que você me veja, ao invés de te encarar com uma expressão de pânico. Continuo ótima nesse tipo de plano como você pode ver.
16h15, você chega parecendo que já sabia que eu estaria nesse lugar estratégico, ficamos nos encarando pelo vidro, não teve tempo de ensaiar para agir naturalmente, teve só meu sorrisinho nervoso e um aceno seu. Parece que meus planos continuam péssimos quando envolvem você.
Agora são quase 20h, escureceu, seu celular tocou e você mentiu onde estava, eu fingi que não escutei. Pedimos a conta, saímos e nos despedimos, dessa vez com um abraço longo de quem realmente se quer bem e não tem porque esconder isso, um carinho que é o que resta de quem se amou. Você me agradece por tudo, eu entendo e te agradeço também.
Não vamos nos ver ou nos falar até o próximo café, que pode acontecer em 6 meses, 1 ano, 2 ou 10 anos, em São Paulo, Rio ou Paris, a única certeza é que não haverá pontas soltas para amarrar, nos encontraremos porque nos queremos bem, para saber o que aconteceu entre os cafés, para ficar feliz pelo outro.
Me sinto como se tivesse soltado o cabelo depois de um dia inteiro com ele preso, não sabia exatamente o que estava me incomodando, mas descobri assim que o fiz, dando uma sensação boa de alivio.
Agora posso dizer seu nome sem desviar o olhar, sem gaguejar ou sentir as mãos ficarem geladas, agora quando digo seu nome só sinto um gostinho de café, meu bem.