Morrer de amor

Ela acorda, se troca, desce pra padaria sem ter certeza se já acordou, pede o de sempre no balcão, fala de futebol com o chapeiro e quando olha para o lado cai de amores por um homem alto, cabelo raspado, olhos com quase mais ressaca que os de Capitu, ela termina o café, o pão na chapa, tira o óculos de sol, troca olhares com aqueles olhos verdes, sente calafrios, paga a conta e caminha até o metro escutando Doces Bárbaros (ela o imagina baiano, precisa ser temática), imaginando que lindo seria essa rotina de tomarem café juntos, falar sobre o que farão a noite e se despedir com um beijo antes que ele pegue sua bicicleta e vá para o atelier (ah, ele é artista, algo entre escultor, pintor, fotografo, e nas horas vagas escreve sobre ela).

Seu devaneio é interrompido por um esbarrão, e minhanossasenhoradoscarasgatos que esbarrão, olhos azuis, cabelos longos, cacheados e loiros, ele tira o fone de ouvido, alto o suficiente pra ela ouvir que está tocando The XX, ele pede desculpas encostando no ombro dela e ela só faz que sim com a cabeça. Eles entram no mesmo vagão, ficam em lados opostos, e ela repara no tênis, na calça rasgada, na camiseta surrada e no livro que ele está lendo, a biografia de Keith Richards, e começa imaginar uma vida de shows de bandas que nunca ouviu falar, em lugares que não sabia que existiam seguidos de lanches em algum lugar que a vigilância sanitária não aprovaria, mas que seria o lugar preferidos deles. Ela desceu do vagão e ele seguiu. Lamentou aquele amor acabar tão prematuramente, por um simples desencontro geográfico, se eles tivessem desembarcado juntos com certeza já estariam planejando casamento, ele entraria ao som de algo como Cut Copy e ela Passion Pit.

Foi almoçar com aqueles olhos azuis na cabeça, até que entra pela porta um terno bem cortado, e dentro dele um moreno alto bonito e sensual. Ele senta dentro do campo de visão dela, e ela já se imagina indo a jantares com os amigos do mercado financeiro e suas mulheres, muito vinho, e planos de ir à Viena. Ele é sofisticado, mas não nega o boteco na frente da casa dela, gosta dos clássicos do Jazz e do rock refinado de Jack White, mas por ela vai à ambientes pouco salubres quando aquela banda barulhenta e sem a menor afinação que ela adora vai tocar.

Ela chega em casa depois de ter pesquisado tudo sobre vinho, Viena, mercado financeiro, e escutado Jack White o dia inteiro, liga a TV e se apaixona pelo mocinho do filme água com açúcar que está passando, se imagina novamente no colegial, conhecendo ali seu amor pra vida toda e sendo feliz para sempre, vivendo como uma soccer mom no interior dos Estados Unidos, em alguma cidadezinha rodeada por campos de milho.

Vai deitar, e naquele momento onde ainda se está acordada mas nem tanto, dá um sorriso e pensa que certo estava o Quintana, morrer de amor é uma delicia, mas continuar vivendo é melhor ainda, e segue esperando que algum desses amores a siga e viva junto.

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