Radicalismo e Fundamentalismo são a mesma coisa?
É complicado colocar duas palavras como intercambiáveis. Elas podem ficar completamente deslocadas de seu contexto e simplesmente dizerem outra coisa. Há muitos jogos linguísticos nesse sentido, pois toda transmissão de palavra é uma tradução e, como diziam os latinos, “tradutore traditore”. Devemos perceber que, se formos usar as categorias corretas é impossível ser radical (substantivo) e fundamentalista (substantivo) ao mesmo tempo — o que se pode ser é um fundamentalista (substantivo) radical (adjetivo).
Pode parecer chato ditar regra gramatical uma hora dessas, mas isso é importante. Porque, se estamos tratando de dois substantivos estamos tratando de dois objetos, de duas realidades. Radicalismo é qualquer movimento que toma certos princípios em sua raiz, em seu estrito espírito e essa posição, normalmente reativa, é uma tentativa que se encontrar a pureza de algum discurso ideológico, suas raízes. Assim, embora o radicalismo possa apontar para algum discurso de raiz, na maioria das vezes não é assim. O que ocorre é que palavras, discursos e revelações carismáticas (no sentido espiritual ou não) são postas como elementos básicos da busca radical.
O fundamentalismo é qualquer movimento (embora tenha nascido no protestantismo americano do início do século XX com a obra “The Fundamentals”) que procure as doutrinas e dogmas básicos de uma fé e promova uma cisão entre essas doutrinas e a realidade que os membros dessa fé estejam vivendo.
Você pode ser radicalmente fundamentalista, mas ser radical implica que você lança fora certos elementos de racionalidade próprios do movimento fundamentalista.
Aplicando: o ISIS não é fundamentalista uma vez que escolhe textos seletos do Corão para seguir — e isso é desonestidade hermenêutica; Não se relaciona com o momento histórico para transformá-lo, mas sim para destruí-lo — isso é niilismo; não faz uma análise do porquê aquilo estar sendo feito — o que caracteriza misticismo subjetivo (se eu quero, Deus quer); Não cresce entre conhecedores dos textos originais — é um movimento utópico, que floresce na utopia de jovens muçulmanos nascidos e criados numa Europa a que odeiam por saberem não pertencer e por isso acabam criando a ilusão da criação de um mundo utópico muçulmano, segundo o conselho do profeta (que claro, eles não entendem qual seja, já que é segundo o que o líder diz)…
A título de comparação:
igreja evangélicas cujos membros saem do culto para atacar cultos afro são radicais, igrejas cristãs que acreditam que Cristo veio da Virgem são fundamentalistas;
igrejas evangélicas que dizem que a palavra de seu bispo ou apóstolo também é inspirada são radicais, igrejas cristãs que requerem de seus seminários bons curso de grego e hebraico são fundamentalistas.
Espero ter ajudado
Um Abraço
Malthus