De volta pra casa

Kennebunkport, Maine, EUA.

Uma transição de carreira levou meu companheiro a uma pequena cidade em Maine, nos EUA. E isso trouxe um novo roteiro em minha vida. Já faz 2 anos que divido meu viver entre Brasil e Estados Unidos.

Procurei possibilidades para ficar aqui, mas a vida tem sua sabedoria e nada do que tentei “deu certo”. Aqui cabe um parênteses. A gente insiste em querer ter controle sobre a vida. E nossa vã vaidade de achar-nos senhores absolutos do destino nos faz encaixotar a vida em certo e errado, bom ou ruim, sim e não…

Aprendi que tudo o que acontece apenas é. Qualquer sentimento que caiba numa categoria é apenas minha mente e minhas fraquezas tentando algum controle, alguma segurança. Em vão.

Voltando ao que dizia, fato é que minha vida não convergiu para os EUA. O caminho mais viável seria um mestrado, mas não sentia que era a hora. Seria forçar algo para poder ficar mais perto do meu companheiro — o que seria maravilhoso, mas isso traria alguns ônus que, para mim, seriam significativos.

Por mais difícil que fosse — e foi — decidi seguir o que meu coração e meu sentir me diziam: ficar no Brasil e vir para os EUA de tempos em tempos para visitá-lo. Assim tem sido.

Mas hoje o que sinto é absolutamente novo. Todas as outras vezes em que vim para cá me sentia “entre”. Me batia um sentimento de que estava interrompendo minha vida no Brasil. Colocando a vida em standby. E isso me incomodava. Vinha num fluxo de trabalho, de fazeres, de acontecimentos e de repente tinha que suspender a minha rotina. E quando voltasse teria que retomar tudo outra vez.

Eis que hoje saí a pé pelas ruas da charmosa Kennebunkport pela primeira vez em dois anos (oi?! sim…). Andando do centrinho até a praia experimentei cores, formas, cheiros, texturas, flores, casas, esquilos, cantos e encantos que nunca percebera com atenção. Me senti inteira, integrada. Senti a vida sendo vida. Sem ponto de partida nem de chegada. Estar aqui apenas é. É o que é agora. Não é interrupção de nada, é a vida acontecendo.

Me senti absoluta e verdadeiramente presente.

Todo o sentimento de estar entre se desfez. Aceitei que estar lá e cá é o que a vida pede de mim. Sempre pediu. Parei de brigar com isso, de querer algo mais definido, com contornos mais claros. Aprendi a ter rotina na não rotina. Me entreguei à sensualidade da curva. A linha reta, previsível, deu lugar à graça da impermanência.

E é impressionante como tudo mudou quando aceitei e acolhi o fluxo da vida. A vida em movimento. A vida sendo vida, vivida. Toda a ansiedade era minha própria criação. Todo o medo e dúvida eram elementos que eu colocava nesse fluir. É todo o lixo tóxico que eu acumulava por querer controlar, antecipar, prever.

Parece que esquecemos que a vida tem seu ritmo. O sol nasce, vem o dia, chega o entardecer, anoitece. Vem a pausa do sono. A pausa que tanto negligenciamos. Ciclos, fluxos. E teimamos em encaixotar a vida. Desejamos algum lugar de chegada. Um lugar de “agora está tudo bem”.

Outro dia eu dizia a uma amiga que a minha vida finalmente está como sempre desejei. Hoje olho para essa frase e percebo que não foi a minha vida que tomou a forma que desejei. Fui eu que fui limpando tudo o que me impedia de ver a mim.

Eu não via por querer controlar.

Não via por causa das crenças que direcionavam meu olhar e meu agir.

Não via pelo medo que paralisava.

Não via porque não me apropriava dos meus talentos, que sempre estiveram aqui.

Não via porque não acreditava nas minhas paixões, que sempre me inundavam o peito e eu insistia em silenciá-las.

Não via porque não me apropriava da minha história.

Não via porque me faltava fé. Fé no sentido de confiar na existência sem qualquer segurança, sem qualquer garantia.

Tudo sempre esteve aqui. Aqui dentro.

Me coloco entregue à vida. A serviço do sagrado. Que ele se manifeste através de mim, me guie os passos. E eu vou. Alma livre.

O Brasil é meu porto seguro. Lá estão meus laços, meu samba, minha bossa, minha comida, meus cachorros, meus lugares e pessoas que amo.

Mas hoje sei que por onde for estarei sempre em casa.

Hoje sei que a casa não é fora.

Minha casa sou eu.

E eu estou de volta a mim.

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