Nada (versão 1)

É até difícil escrever sobre isso, tamanha a ocupação da mente. Não sabemos bem o que significa e, no geral, atribuímos a isso uma conotação negativa. Nada. Como nada? Sempre tem que haver alguma coisa. Uma resposta, um gesto, algo que fure o silêncio, que inicie a ação. Não nos permitimos um estado de coisa nenhuma. O silêncio nos perturba, nos deixa sem jeito. Se alguém chora ou nos confidencia algo, imediatamente reagimos com alguma coisa. Mas jamais com nada. Nas nossas vidas nos colocamos sempre ocupados e ‘pré-ocupados’ e não nos perguntamos por que ou para que. Isso apenas parece adequado, até nos faz parecermos e sentirmos importantes. Curiosamente, os registros etimológicos trazem como origem de ‘nada’ o latim ‘nata’ — coisa nascida. O que me faz pensar que nada é um importante espaço vazio de nascimento. De essência. Do nosso lugar único. Um lugar de ausência de onde nasce a presença em seu sentido mais pleno. Talvez seja o nada o catalisador do tudo que tanto desejamos. Porque nos coloca numa condição de paz, de silêncio, percepção aguçada, de conexão com o todo e com nosso eu maior que nos mostra a estrada do nosso caminhar.

