Blogueira @ Moi, Bizarre?!

Reminiscências, registro e a internet dos anos 2000

Ana Carolina Santos
Caracoles

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Ouça aqui.

Gostaria de agradecer às 17 pessoas que, segundo o Anchor, ouviram os episódios previamente publicados neste podcast. Muito obrigada, pessoal. Apesar dos pesares, eu ainda gosto do número 17. Era o número que o Cristiano Ronaldo usava na Seleção Portuguesa quando o Luis Figo ainda jogava. O CR7 já vestia a 7 no Manchester United, mas só passou a usá-la em Portugal quando o Figo se aposentou.

Torci pelo Manchester entre 2006 e 2013, ano em que meu interesse por futebol declinou. Desde então, não acompanho mais nada do nobre esporte bretão. Claro que o Manchester não era meu primeiro time. Eu torcia pelo Fluminense. Porque meu pai torcia pelo Fluminense. Porque meu avô torcia pelo Fluminense.

Uns meses atrás, fiz uma tour pelos meus blogs antigos. Tenho blogs desde uns 12, 13 anos. Alguns estão perdidos pela blogosfera da década retrasada, mas a maioria eu lembro a URL. Um dos mais antigos se chamava “Moi, Bizarre?!” (Moi vírgula Bizarre interrogação seguida de exclamação).

Colonizada, ela

Abrindo um parênteses rapidinho: fico feliz pelo fato de meus blogs juvenis ainda existirem na World Wide Web, porque, de tempos em tempos, eu gosto de cometer um desaparecimento internético — que é uma forma de não efetuar o desaparecimento terreno. Em 2020, num momento particularmente ruim da minha pandemia pessoal, assassinei minha conta no Twitter. E é com alguma dor que lembro desse fato, porque eu usava aquele perfil desde 2009. Havia documentado nele toda a minha adolescência e todo o começo da minha vida adulta.

Decidi assassinar meu Twitter porque não aguentava mais ver notícias da inoperância do Estado no lidar com o covid. E não aguentava tanta gente dando tanta opinião sobre todo e qualquer assunto. Mas, acima de tudo, ao assassinar meu Twitter, quis assassinar minha persona jornalística.

(Bota aí aquela música de suspense que a Record usa na edição da Fazenda, editor.)

Pra algumas das 17 pessoas que ouvem esse podcast e não são jornalistas, o Twitter é A rede social dessa categoria. É a rede social primordial do chamado networking. É a rede em que você coloca na bio que você é Jornalista (com J maiúsculo) na arroba revista X ou jornal Y. Que você ostenta um selo azul ao lado do seu nome e sobrenome (o que você usa pra assinar suas matérias na revista X ou no jornal Y).

Você é um cara branco de barba. Tem cerca de 30 anos e usa uma camisa de botão tão branca quanto a sua pele. Você cruza os braços na frente do corpo enquanto olha pra câmera através dos seus óculos de grau (com prescrição ou não) e tenta emular um olhar algo acolhedor, algo desafiador. Se você escreve sobre política, você não sorri. Se você escreve sobre esportes, pode ostentar um sorriso bonachão a la Casimiro Miguel.

Bom. Sim, eu julgo esses caras, mas eu fui por um tempo essa jornalista com J maiúsculo na bio e a arroba do lugar onde eu trabalhava e selo de verificação ao lado do nome de guerra. Só que eu sou mulher, sou negra e não gosto de blusa de botão.

Pois bem. Por meses já vinha me furtando de dar aquelas tuitadas violentas. Não por protesto, mas por não ter o que falar (mesmo motivo pelo qual este podcast teve um hiato tão longo). Então, aniquilar meu Twitter não foi tão difícil porque tuitar já não era um hábito. Assumo: o que foi um pouco doloroso foi abrir mão dos mutuals meio famosinhos. Porque quando você tem um selo de verificação, os follow-backs vêm com certa facilidade. Então eu queimei uma imensa lista telefônica com contatos algo valiosos.

Mas isso não importava pra mim naquele momento porque eu não queria mais ser jornalista. Tava empenhada em procurar uma vaga como vendedora em alguma loja do Carioca Shopping quando a pandemia abrandasse. Mas aí recebi uma proposta de um jornal Z e voltei pro Mundinho Jornalismo BR.

Seguindo. A digressão foi longa, mas tudo isso pra dizer que apaguei meu Twitter, Facebook, LinkedIn, Skoob, Filmow, Last.FM, enfim, todos os meus rastros nas redes sociais em meados de 2020. Bem, quase todos. O Instagram ficou. Por que eu não apaguei o Instagram, você, ouvinte imaginário, se pergunta. Afinal, o Instagram é comumente avaliado como a rede social mais “tóxica” que há. Bom, eu não apaguei o Instagram simplesmente porque gostava de estar lá. Ainda gosto. Gosto de ver as artes das pessoas. Poetas, artistas plásticos, designers, quadrinistas. A minha timeline é quase uma exposição, um sarau.

Os meus momentos de crise com o Instagram têm mais a ver comigo do que com o conteúdo que eu consumo por lá. Desativei minha conta por vários meses no começo de 2022. Primeiro porque sentia que não havia nada dentro de mim pra dividir com as pessoas. Um esvaziamento e desconexão comigo e com os outros. E depois porque eu não me identificava mais com aquela eu do meu feed. Sentia que estaria mentindo para as pessoas caso apenas deixasse meu Instagram lá, quieto, com as fotos de poucas semanas atrás. Não queria que achassem que eu era aquela pessoa feliz, que vai pra São Paulo, vai pra casa de praia, faz coisas legais. Na minha cabeça deprimida, eu representava a toxicidade do Instagram. A gente pensa as coisas mais bizarras quando tá deprimida. Moi? Bizarre?

Falando em Moi, Bizarre?!, gosto de saber que meus velhos blogs ainda existem. Comecei a falar sobre eles porque falava sobre o Fluminense e neles há algumas postagens sobre o Flu. Especificamente sobre a campanha de 2009, em que o Flu perdeu a final da Sul-Americana pra LDU. Isso apenas um ano depois de ter perdido o título da Libertadores pra própria equipe equatoriana — eu nunca vou te perdoar, Hector Baldassi!!!!11

Perdemos a Sul-Americana, mas escapamos do rebaixamento no Brasileiro de forma milagrosa, sob a batuta de Alexi Stival, o técnico Cuca. Naquele ano de 2009, não teve tapetão, só teve ímpeto e entrega do Time de Guerreiros. Um beijo pro Washington Coração Valente, pro Conquita e companhia limitada.

(O tapetão foi em 2013, mas eu já não tinha nada a ver com isso.)

Reparei algo um tanto curioso nesses meus textos do início da adolescência. Todos eles tinham uma linguagem jornalística, mesmo que amadora. É muito engraçado. Eu escrevia sobre os filmes que assistia na TV a cabo recém-instalada na minha casa (GatoNet. Não sei se vocês estão familiarizados com esse conceito. É basicamente TV a cabo pirata fornecida pela milícia. Acho que isso é mostrado no Tropa de Elite 2 — O inimigo agora é outro. É a milícia. O novo inimigo é a milícia).

Escrevia sobre os especiais de Natal da TV Globo (mais de uma década atrás, ainda havia orçamento pra especiais da Xuxa e do Didi). Dava meus pitacos sobre os próximos lançamentos do cinema (o aguardadíssimo Lua Nova, continuação de Crepúsculo). Falava sobre as músicas que ouvia na Rádio Mix e no TVZ do Multishow. Pra a supresa do meu eu fã de Taylor Swift aos 26 anos, meu eu de 13 anos já era fã dela. Eu não lembrava disso. Na minha cabeça, era apenas uma ouvinte casual.

Eu tava pasma com essa mini jornalista que eu era. Mas aí lembrei que desde sempre consumi o jornal Extra de cabo a rabo. Então era natural que emulasse o que lia. O curioso é que, embora escrevesse como uma pseudojornalista, na época do blog eu queria ser professora de história (risos). Como podem observar, eu sempre tive um apreço pelo aperto, pela insegurança financeira.

Muitos anos depois, já na faculdade de jornalismo, eu estagiei no Extra. Numa manhã, indo pra aula, o ônibus tava na Praia do Flamengo quando me caiu a ficha: eu tava realizando um sonho. Trabalhar no jornal que eu sempre admirei. Aí comecei a chorar dentro do ônibus, as one does.

Uma coisa muito legal que eu notei nessa excursão ao Moi, Bizarre?! é que a comunidade blogueira era muito unida e generosa. Veja bem, se neste podcast eu tenho 17 ouvintes regulares, no meu blog juvenil eu tinha, sei lá, três leitores recorrentes, que se alternavam nos comentários. Um deles era meu professor de inglês da escola. Só que! Pra além desses três guerreiros, vira e mexe uma blogueira mais ou menos grande, que saía na Capricho, comentava no meu blog. Porque eu comentava nos blogs delas, e elas retribuíam a visita.

Aconteceu até mesmo de o Jerri Dias, que foi colunista da Capricho por anos e anos, comentar num post que eu fiz sobre ter sonhado com uma música do McFly. O Jerri lamentou nunca ter sonhado com música.

Teve até uma blogueira francesa (que até hoje é meio famosinha no Instagram) que comentou num post meu sobre outra blogueira. Inception de blogueiras. E olha que legal: o nome do blog, Moi, Bizarre?!, eu havia roubado de uma conversa que vi essa blogueira (aliás, o nome dela é Typhaine Augusto) tendo com um amigo dela nos comentários de um post. Naturalmente, eu não sabia falar francês (ainda não sei falar francês, apesar de ter estudado por um ano na Skill, uns cinco anos atrás), então a única coisa que entendi da conversa foi “Moi, bizarre??!!”.

Enfin (ãnfãn). Eram tempos mais simples, menos egoicos. Eu sou mais nostálgica do que o recomendado, então é uma boa coisa que eu tenha posto fogo na minha Biblioteca de Alexandria pessoal.

Ah, acabo de perceber que gravo esse episódio no dia 14 de julho, dia da Bastilha. E o meu blog tinha o nome em francês. E blogueiras francesas. E… aaaaah, Vive la France, eu acho. Au revoir.

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Ana Carolina Santos
Caracoles

Leitora e escrevedora de transporte público. Faço o podcast Caracoles: https://linktr.ee/santosacarolina