Garota, coloque seus discos para tocar

Música branca e a culpa negra

Ana Carolina Santos
Caracoles

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Por vezes, me pego me questionando se o que eu faço e penso é suficientemente de esquerda, feminista, antirracista, antilgbtfóbico. Enfim, condizente com os valores nos quais acredito. Se eu ponho meu dinheiro onde a minha boca está, como dizem os anglófonos.

Dinheiro literal mesmo. Sendo eu mulher, negra e pansexual, eu tô comprando, pagando, consumindo conteúdos, mercadorias e arte produzidas por mulheres, pessoas negras e pessoas LGBTQIAP+? Gosto de pensar que sim, meu dinheiro e minha atenção estão voltadas primordialmente para as produções dessas pessoas.

Nos últimos tempos, revi uma opinião que havia formado previamente. Existe uma livraria física em São Paulo que só vende livros escritos por mulheres. Seu nome é Gato Sem Rabo, uma referência ao ensaio “Um teto todo seu”, de Virginia Woolf. Essa livraria abriu há relativamente pouco tempo e, quando tomei ciência dela, torci o nariz. “Pra quê uma livraria só com livros escritos por mulheres? Quer dizer que você tá me tirando a possibilidade de conhecer e, eventualmente, adquirir obras da outra metade da população mundial?” Sentia que aquilo era limitante e desnecessário. Eu, que me julgava uma feministona bem informada, pensava que, se um indivíduo quisesse fazer um esforço pessoal para ler mais mulheres, ele que se encarregasse do projeto.

Mas aí, há apenas poucas semanas, me veio o clique – óbvio, hoje eu vejo: a ideia de existir uma livraria cujo catálogo é 100% feminino é GENIAL porque 100% do dinheiro que o cliente gastar lá vai ser comprando livros escritos por mulheres (duh). E parte desse montante vai ser revertida para as próprias autoras dos livros.

Soa simples porque é simples mesmo. Uma medida simples que tem um efeito prático enorme. Influencia diretamente no número de livros escritos por mulheres vendidos. E quanto mais se vende, mais livros de mulheres são publicados. É uma reação em cadeia muito legal. Vai além de “representatividade”, “leia mais mulheres” etc. É apoio financeiro direto. Botar seu dinheiro onde sua boca está. Pra quem tá em São Paulo ou vai pra São Paulo em breve, a livraria Gato Sem Rabo fica na Rua Amaral Gurgel, n.° 352, Vila Buarque, na região central da cidade.

Quanto a livrarias especializadas em obras escritas por pessoas negras, conheço duas. Mas ambas são itinerantes, não têm loja física como a Gato Sem Rabo. Vendem seus livros em feiras culturais, universidades, eventos literários e pela internet. Seus nomes são Nombeko e Timbuktu. Em 2019, fiz uma pequena reportagem sobre a Nombeko. Acompanhei uma manhã em que eles expuseram os livros na Faculdade de Letras da UFRJ. Uma das coisas que mais me marcaram na entrevista foi um dos sócios, Mirembe Nombeko, dizendo que, há milênios, os judeus privilegiam comprar em comércios de outros judeus e que tava na hora de nós, pessoas negras, fazermos o mesmo. Até então, isso nunca havia passado pela minha cabeça.

De fato, os judeus, outra minoria perseguida historicamente, têm um senso de comunidade que transcende até mesmo as fronteiras nacionais. Claro que é necessário guardar as devidas proporções: ambos são povos diaspóricos (ou seja, estão espalhados pelo mundo. Os judeus estão em Israel, nos países da Europa, nos Estados Unidos, no Brasil, na Etiópia e por aí vai. Os negros estão na África, na Europa, nas três Américas…). Contudo, os judeus estão em número bem menor. Estima-se que haja cerca de 14 milhões de judeus no mundo e 100 mil no Brasil. Os negros somam 114 milhões *apenas* no Brasil.

Apesar de estarem em vários países, os judeus conservam uma cultura mais ou menos homogênea. Sem mencionar que eles são um grupo étnico and uma religião. Poucas coisas promovem mais a união de um grupo do que a religião – times de futebol entram nessa também. Lembrando que uma pessoa pode ser judia e não professar a religião judaica.

Quanto aos negros, não existe uma religião professada por Todos os Negros do Mundo. Existem as várias religiões de matriz africana, que estão presentes nos países da diáspora. No Brasil, as mais populares são a umbanda e o candomblé, mas também existem a quimbanda, a santeria, o vudu, dentre outras.

Os negros brasileiros, obviamente, não professam todos essas religiões. Grande parte é cristã protestante ou católica. Resultado direto das perseguições sofridas pelas religiões de matriz africana ao longo desses cinco séculos de Terra Brasilis. Perseguições essas que aumentaram vertiginosamente nos últimos quatro anos, quando o país se tornou a República Federativa Evangélica do Brasil e o hino nacional foi substituído pelo último sucesso da Aline Barros.

Mas muito antes da ascensão político-evangélica, já existia cautela e resguardo entre os umbandistas e candomblecistas. Décadas atrás, era muito comum que uma pessoa fosse “publicamente” católica e frequentasse a missa todo domingo, mas “secretamente” umbandista, por exemplo, e fosse ao terreiro no sábado.

Uma das facetas mais interessantes (e tristes) das religiões brasileiras é o sincretismo entre santos católicos e os orixás africanos. Oxalá é Jesus Cristo. Oxóssi é São Sebastião. Ogum é São Jorge. Iemanjá é Nossa Senhora da Conceição. Iansã é Santa Bárbara e por aí vai. Eu disse que é uma faceta triste porque esse intercâmbio entre culturas não se deu de graça. Foi uma medida de sobrevivência, de autopreservação. Entre 1530 e 1888, as pessoas escravizadas no Brasil eram impedidas por seus senhores de manifestar sua fé. Então, elas incorporavam essa iconografia cristã a fim de ludibriar os brancos escravagista.

Tá parecendo, mas esse ainda não é aquele episódio sobre religiões e crenças que eu prometi no episódio anterior. O episódio que você tá ouvindo é sobre… não sei ao certo, mas ele nasceu da minha Culpa Negra. É isso: eu sinto culpa por não consumir suficientemente artistas negras e cultura negra em geral.

Já tem algumas semanas que isso tá na minha cabeça. Acho que tudo começou com o lançamento do “Renaissance”, o mais novo álbum da Beyoncé. Ele saiu em 29 de julho e eu ainda não ouvi. E não sei se vou ouvi-lo. Simplesmente porque::::::::: eu não tenho interesse, pam pam pam paaaaaaam!!!11 É isso mesmo, gente. Saí do armário negro: eu não ouço Beyoncé. Tá aqui a minha carteirinha de mulher negra, podem tomá-la de mim.

Antes que a colmeia da Queen Bey venha atrás de mim, um disclaimer: eu não odeio a música da Beyoncé, muito menos a persona pública da Beyoncé. Muito longe disso. Não sou cega para o enorme impacto cultural que ela causa desde o final dos anos 90, quando liderava o grupo de R&B Destiny’s Child. A Beyoncé é gigante, histórica, formidável, muito acima da média em tudo: alcance vocal, dança, presença de palco. Ela é tudo o que um artista musical precisa ser.

Maaaaas, porém, contudo, a música dela não conversa tanto comigo. E a culpa negra se intensifica porque a minha artista musical favorita dos últimos anos é, claro, a Taylor Swift, que é tão branca quanto é possível ser branca. Ela anda branco, fala branco, canta branco, escreve branco, dança branco (risos), pra usar uma referência de “Todo Mundo Odeia o Chris”.

Além dela, as outras cantoras que eu mais ouço são: a Lana Del Rey, que, apesar do nome latino, é branca da Costa Leste estadunidense, ou seja, a mulher é uma WASP (protestantes brancos de origem anglo-saxã). Tem também a Lorde, que é uma neozelandesa branca, não maori. E a Tove Lo, que é – preparem-se – SU-E-CA. Eu *poderia* gostar de gente mais branca do que isso? (Entonação do Chandler)

Mas ao mesmo tempo, a apreciação da arte é algo tão subjetivo, né? As músicas de amor e de término da Taylor conversam super com as minhas experiências e a minha subjetividade. O pop original da Lorde em “Melodrama”, seu álbum de 2017, continua me emocionando e me fazendo dançar até hoje, cinco anos depois de seu lançamento. As letras brutalmente honestas e, muitas vezes, politicamente incorretas, da Lana me representam em lugares secretos e indizíveis da minha psique. A coragem da Tove Lo em viver plenamente sua sexualidade me inspira a ser mais livre também.

No meio dessa reflexão, comecei a olhar para trás e relembrar os artistas de que eu gostava na adolescência: Arctic Monkeys, The Maine, All Time Low, Paramore, McFly. Todos brancos. Aí fui ainda mais longe e aterrissei na infância. Aqui a coisa fica interessante porque eu percebi que a totalidade da música que eu consumia quando criança era negra ou de origem negra. Djavan: negro de Alagoas. Araketu, a banda favorita da minha avó: negros baianos como ela. Exaltasamba, Só Pra Contrariar, Raça Negra, Revelação: todos negros. O pagode e o samba (sem mencionar o axé music) são essencialmente negros. E isso aplacou a minha culpa negra – ufa!

Se eu colocasse musiquinha no podcast, nessa hora colocaria uma pra sinalizar a mudança de bloco. O que, na prática, só quer dizer que eu falhei em enganchar de forma orgânica os temas.

O novo bloco é o seguinte: tem 7 anos que eu sou negra. Pois é, tenho 26, mas sou negra há apenas 7. Pode parecer doido, mas a minha história não é incomum num país como o Brasil, onde a mestiçagem foi “““““““encorajada”””””””” e as fronteiras entre as cores das pessoas não são tão claras (sem trocadilho). Pois bem, no subúrbio do Rio, essas fronteiras são ainda mais difusas. Tem os negros, os brancos e os “cor de burro quando foge”, que é onde eu me enquadrava até então. Um lugar que sempre me foi incômodo. Um não lugar, pra usar uma expressão da moda.

Desconfiava de que pudesse ser negra, mas nunca reivindiquei esse lugar. Me definia cautelosamente como uma pessoa parda. E não sabia que o IBGE usa a categoria guarda-chuva “negros” para englobar pretos e pardos. Só descobri isso quando fui me inscrever no SiSU, naquela cota dos mais fodidos do Brasil: escola pública, negros e indígenas e renda mensal per capita de até uma quantia lá que eu não lembro mais. Dias de luta, dias de luta, não é mesmo?

No primeiro semestre da faculdade, eu tava um belo dia sentada numa área comum do campus quando uma moça negra, também estudante, me abordou e me convidou para uma roda de conversa entre mulheres negras. Eu sorri, agradeci o convite e disse que compareceria. E foi naquele momento que eu me tornei negra. Eu havia sido validada por outra mulher negra. Eu sou uma delas. Eu sou uma de nós.

Corinne Bailey Rae, em foto de seu Instagram

Naquele passeio pelo vale da memória das minhas influências musicais, lembrei da Corinne Bailey Rae. Ela é uma cantora inglesa de origem caribenha. O ano era 2006. Eu tinha 10 anos e adorava assistir ao programa TVZ, no Multishow, que passava clipes de músicas. A Corinne foi, provavelmente, minha primeira referência positiva de beleza negra. Adorava assistir aos clipes de “Like a Star” e “Put Your Records On”. Especialmente esse último. O clipe de “Put Your Records On” é diurno, solar, a Corinne anda de bicicleta com uma horda de mulheres de todas as cores atrás dela. Elas pedalam por uma paisagem rural deslumbrante. Parece Pemberley, a residência do Mr. Darcy, de “Orgulho e Preconceito”. A melodia e a letra também são estupendas e nunca saíram da minha cabeça nesses 16 anos desde que a ouvi pela primeira vez.

Garota, coloque seus discos para tocar, me diga qual é a sua música preferida, vá e deixe seu cabelo solto.” Esse é o refrão. Mais pra frente, ela diz: “Não deixe aqueles garotos te fazerem de boba. Ame seu cabelo afro.” Àquela altura, com 10 anos de idade, eu não entendia a importância dessas palavras da Corinne. “Deixe seu cabelo solto.” Tão simples, né? Mas tão simbólico e revolucionário no contexto de vida das mulheres negras. No meu contexto de vida…

Quando eu era pequena, existia uma ditado assim: “cabelo duro é igual bandido: ou tá preso, ou tá armado”. E isso arrancava risadas de todos ao redor. A primeira vez em que eu usei o cabelo solto para ir para a escola foi justamente em 2006. Mas não pelos conselhos da Corinne, mas porque eu havia feito um relaxamento que me garantia que meu cabelo não ficaria armado, como um bandido.

Eu queria que alguém tivesse me dito que eu era negra naquela época. Queria ter sabido que a Corinne falava também comigo quando ela dizia pra eu soltar o cabelo e amar meu afro. Mas… antes tarde do que nunca, certo? Cinco anos depois, em 2011, eu parei de fazer escova progressiva. Em maio de 2013, completei a transição capilar e cortei as partes lisas do cabelo.

Me lembro do exato momento em que passei a apreciar meu cabelo crespo: tinha 17 anos, tava em pé no 350 (Passeio x Irajá), voltando do estágio que fazia na zona portuária. O ônibus tava parado naquele sinal em frente à Rodoviária quando flagrei meu reflexo na janela. E gostei do que vi. Deve ter sido a primeira vez que eu me achei bonita sem estar com cabelo alisado.

Meu cabelo tava curtinho, partido de lado como a boa Millennial que sou. Ele tava armado, como na piada, e eu amei.

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Ana Carolina Santos
Caracoles

Leitora e escrevedora de transporte público. Faço o podcast Caracoles: https://linktr.ee/santosacarolina