Rádio Peixe Grande, o podcast crente que nunca tive

Crenças, fé e religião

Ana Carolina Santos
Caracoles

--

Ouça aqui

Lembro da primeira vez em que me deparei com o termo “ateu”. Tinha 8 anos de idade, tava na segunda série do ensino fundamental, hoje terceiro ano. Era aula de português, e o tema era masculino e feminino. Como não conhecia a palavra, perguntei pra professora o que significava. E fiquei estupefata com a resposta. Como assim tem gente que não acredita que Deus existe???????

Pro meu eu de 8 anos, era inconcebível a possibilidade de Deus não existir e de alguém acreditar nisso. E olha que eu nem fui uma criança carola. Minha família era católica não praticante, como a maioria dos brasileiros até o início deste século. A gente não ia à missa todo domingo, nem nada. Acreditava-se em Deus meio que por inércia. Por não lhe ter sido oferecida uma alternativa.

Essa alternativa só chegou a mim quatro anos depois, quando tinha 12 anos e tava na sexta série. Era aula de biologia, e o tema era evolução das espécies. Eu me senti TÃO traída quando descobri que o criacionismo não era verdade. A sensação era de que tinham mentido pra mim a vida toda. Não viemos de Adão e Eva, não existiu a arca de Noé, nada daquilo. E foi naquele momento em que abracei o ateísmo.

Fui ateia por cerca de 10 anos. Voltei a acreditar na existência do Deus abraâmico de uma forma meio boba, mas que, pra mim, na época, foi um pequeno milagre. Um belo dia, tava conversando com a minha mãe e disse: “Quero trabalhar no veículo x”. Assim, joguei pro Universo. Na semana seguinte, fui chamada pra um processo seletivo no veículo em questão. E passei. Meu “pedido” se concretizou, por assim dizer. E eu não precisei mover um dedo. Achei meio mágico demais pra ser apenas obra do acaso e creditei tal feito ao Deus judaico-cristão.

Você me pergunta, ouvinte imaginário, por que creditar tal acontecimento a “Deus” e não a um conceito mais amplo, como o Universo com U maiúsculo ou algo assim? E a minha resposta é: eu não sei. Talvez tenha sido minha criação. Talvez fosse uma vontade de retomar à infância e às certezas típicas daquela fase. Vai saber. O ponto é que eu acredito em Deus até hoje. E desacredito também. As certezas ficaram só pela infância mesmo.

A dúvida, o gosto pelo questionamento, é algo que conservo da minha década no ateísmo. Prometi esse episódio sobre crenças e religiões no quarto episódio do podcast, intitulado “Produtividade, acaso e ‘Midnights’”. Lá, eu disse que oscilo entre ser a típica jovem mística que acredita em destino, em astrologia e tudo mais, e uma pessoa mais incrédula, que pensa que coincidências não passam de coincidências.

E não acho que esse estado seja passageiro, uma fase antes de decidir abraçar completamente a crença ou a incredulidade. Acho que esse meio termo é o fim em si mesmo. É a linha de chegada. Sou todas as religiões e nenhuma religião. Se optar por uma religião, estarei negando todas as outras, e isso não me contempla. Essa foi uma das razões porque eu nunca consegui me considerar uma *cristã de verdade* durante o breve período em que frequentei a igreja presbiteriana. (Mais sobre isso adiante).

Gatos comem peixes

Mesmo quando fui ateia por todos aqueles anos, nunca deixei de acreditar na astrologia. Ela sempre fez muito sentido pra mim. Sempre me identifiquei com meu mapa astral e sempre observei características dos meus amigos e familiares que correspondiam a seus signos solares. Mas admito que, se você não estiver atenta, pode escorregar numas cascas de banana por aí.

Acho que o maior problema de se acreditar na astrologia é ver seu mapa astral como algo escrito em pedra e se limitar ao que tá ali. “Ah, eu sou de peixes, então sou necessariamente desorganizada e não tem nada que eu possa fazer quanto a isso.” NÃO! A astrologia é justamente para você se autoconhecer e saber as suas qualidades e seus desafios. Não é pra se acomodar e internalizar aquele textinho do Personare. (E esse conselho é pra mim também, porque sou essa pisciana desorganizada que gosta de pôr tudo na conta do signo.)

Na mesma linha, é complicado pressupor coisas sobre alguém só por causa do mapa astral dela. Coisas boas e coisas ruins. Acho que ninguém é radical a ponto de descartar uma pessoa apenas por causa disso. Mas, às vezes, a gente cai no conto do mapa bom. Vamos a uma historinha: uma vez conheci um rapaz, vamos chamá-lo de o programador de Quintino Bocaiúva. Ele nasceu poucos dias antes de mim, então nossos mapas são muito similares. Claro que fiquei instantaneamente interessada e intrigada. Não vou usar de falsa modéstia aqui: eu adoraria me relacionar com uma pessoa mais ou menos parecida comigo (risos).

Olha, gente, eu quase, quase, QUASE caí naquela arapuca do “the one”. O homem esculpido por Deus especialmente pra mim. Porque, além de ter um mapa astral que me apetece, ele ainda gostava de Taylor Swift não ironicamente (!!!!!!!!). Sério. Um homem hétero, atraente, que gosta genuinamente de ouvir as músicas da minha cantora favorita. Meu coraçãozinho pisciano quase, quase, QUASE se emocionou.

Ainda bem que tô vacinada e não me deixei levar pela empolgação. O primeiro encontro foi ótimo, química massa, pareceu ter sido legal para ambos. Mas, depois, a conversa no WhatsApp esfriou. Fosse em outra época, com uma autoestima mais cambaleante, eu batalharia pela atenção daquele cara. Mas, no meu atual estágio de amor próprio, só deixo as pessoas irem. Não batalho pela atenção delas. É uma decisão que tomo por mim mesma.

Outro perigo dos misticismos é ficar bitolada com jogos de búzios e tarô. A clássica música do Soweto: “Amor, você nasceu pra mim. O tarô revelou e os búzios disseram”. Já estive lá e já fiz isso. Vamos a outra historinha, outra profissão e outro bairro do Rio de Janeiro. Uns anos atrás, conheci um rapaz (risos, até rimou), vamos chamá-lo de o publicitário de Engenho da Rainha. Então. Eu fiquei com os quatro pneus arriados por essa pessoa. Acho que até o step tava arriado também. Havia uma série de coincidências no nosso passado, então uma amiga me aconselhou a ir jogar tarô pra ver se nós éramos almas gêmeas (kkkkkkkkkk).

Hoje dou risada e acho isso tudo muito idiota, mas, naquela época, eu era inexperiente e ingênua. Inclusive, ele foi a primeira pessoa por quem eu me apaixonei. Não acho que tenha sentido amor. Mas foi uma paixão muito forte, e eu fiquei nessa ladainha de alma gêmea por mais de um ano. Por quê? Porque o tarô e os búzios corroboravam minhas ilusões. Eu me apegava a essa esperança em vez de prestar atenção ao que era tangível: a forma como ele me tratava. Mal. O melhor oráculo é como a pessoa age e o que ela demonstra.

Eu sei, eu sei, tá parecendo a terceira parte dos episódios sobre relacionamentos amorosos na contemporaneidade. Mas já vou voltar ao tema de hoje. Inclusive, foi através do publicitário de Engenho da Rainha que conheci a igreja presbiteriana e vivi minha ~~era cristã~~.

Editora, põe pra tocar “Our Song”, da Taylor Swift aí, por favor.

Meses depois de ter voltado a acreditar em Deus, caí de paraquedas numa filial da Igreja Presbiteriana do Brasil. Pra quem não sabe, essa é uma das igrejas evangélicas tradicionais, que surgiram no século 16, com a Reforma Protestante. Além da presbiteriana, tem a batista, a luterana, a metodista e por aí vai.

Aquela foi facilmente uma das épocas mais felizes da minha vida. O mundo era cheio de possibilidades. Um pouco antes de começar a frequentar a igreja, eu tinha acabado de iniciar um tratamento com antidepressivos e tava sendo feliz pela primeira vez em… uns cinco anos. Voltei a enxergar as cores e a beleza do mundo. Voltei a tirar fotos das coisas bonitas ou curiosas que via na rua. Parei de me vestir apenas de preto e comecei a usar roupas coloridas. Até a comida passou a ter outro sabor. Meu paladar mudou. Desenvolvi um gosto por comida bem apimentada e chocolate amargo.

[Esta não é uma apologia a medicamentos antidepressivos. Se você acha que pode se beneficiar do uso deles, converse sobre isso com sua psicóloga ou psicólogo e peça a ela ou ele um encaminhamento para um psiquiatra. E nunca, jamais, se automedique.]

Eu tinha mil ideias. Minha mente nunca parava. Eu queria e podia ter todas as profissões do mundo. Foi nessa época que tive a ideia de criar um podcast cristão. E ele se chamaria Rádio Peixe Grande. Por causa da história do Jonas que foi engolido por um peixe grande (e não por uma baleia). Acho que soa bem. Rádio Peixe Grande. Mas nada nunca saiu do campo das ideias, porque, poucos meses depois, eu voltei a ficar deprimida. E a cereja do bolo foi a pandemia do covid-19.

🤪🤪🤪🤪🤪

Fiquei na igreja presbiteriana por cerca de um ano. E, enquanto estive lá, eu tava totalmente lá. Era verdadeiro. Eu acreditava nas pregações, as passagens da Bíblia faziam sentido pra mim, eu cantava os louvores sentindo aquelas palavras. E saí da igreja quando minha entrega deixou de ser verdadeira. Se continuasse, me sentiria falsa. Estaria performando uma carolice que não existia mais. Achei por bem sair totalmente.

Porque lá eu aprendi que um *cristão de verdade* tem a Bíblia como sua regra de fé e de prática. Ou seja, existe um estilo de vida cristão a seguir. Conheci a igreja quando já tinha 23 anos. Já tava com o caráter formado, todas as minhas idiossincrasias já estavam lá. Eu era uma jovem mulher sexualmente ativa e pansexual. Havia muito a abrir mão se eu optasse pelo estilo de vida cristão.

Além disso, sou uma pessoa que tem necessidade de expressão. Tenho esse podcast, escrevo poemas, às vezes posto meus escritos no Instagram. Então, se eu fosse uma cristã de verdade, não poderia vir aqui e gravar um episódio sobre relacionamentos amorosos na contemporaneidade, por exemplo. O único podcast que eu poderia ter seria a Rádio Peixe Grande mesmo. E se quisesse falar sobre relacionamentos, seria nos termos de “só pode transar depois do casamento, hein, galerinha” e “não pode fornicar com gente do mesmo sexo”. Ou seja, absolutamente incompatível com quem eu sou e como levo a vida.

Apesar de todas as contradições, eu valorizo meu tempo na presbiteriana. Porque aprendi muito. Era muito, muito ignorante e preconceituosa. Achava que todos os evangélicos eram uma maçaroca de gente que pensa igual, que todas as igrejas evangélicas eram iguais àquelas que apareciam na Record e na RedeTV. Pastores pedindo dinheiro e fiéis querendo prosperidade econômica também.

Foi muito importante pro meu crescimento pessoal ter aprendido que existem diferentes igrejas evangélicas e diferentes pessoas evangélicas. Que não necessariamente por você ser evangélico, você compactua com homofobia e misoginia. (Embora, na Igreja Presbiteriana do Brasil, inacreditavelmente, em pleno século 2023, mulheres não possam ser pastoras ou assumir cargos na hierarquia da igreja. Eu sei, bizarro.)

Falei, anteriormente, que uma das razões pra eu ter deixado o cristianismo era a obrigatoriedade de negar todas as outras religiões. Uma das minhas maiores crises enquanto estava na igreja (além de decidir se adotaria ou não o celibato pré-marital — risos, risos, ai, ai, ai) era a obrigatoriedade de romper laços com outras religiões. Para o cristão protestante, só o cristianismo protestante está certo. Todas as outras religiões estão erradas. Inclusive, o catolicismo, que também é cristão.

Sendo eu, uma pessoa negra com raízes na umbanda, não conseguia simplesmente limar minha conexão com as religiões de matriz africana. De novo, era muita coisa pra abrir mão. Demorou pra que eu chegasse à conclusão de que não preciso optar. Escolher uma religião em detrimento da outra. E hoje vivo em paz com essa realização.

Confesso que sinto falta de alguns aspectos da minha era cristã. O sentimento de excepcionalidade. A certeza de que você é especial para Deus e de que é Ele quem está encarregado da sua vida e dos seus caminhos. E que não importa quão ruim sua vida esteja. Lá na frente, Deus vai te fazer justiça.

É muito tentador viver na ilusão do “fim da corrida”, por assim dizer. De que, eventualmente, Deus vai te conceder todas as bênçãos que você merece e você nunca mais vai ser infeliz, injustiçado ou pobre. E que vai ser sempre assim. Até o fim da sua vida. Você sempre vai ser feliz, ter dinheiro e nada de ruim nunca mais vai acontecer.

Mas eu me sinto muito melhor agora que tenho a consciência de que, se eu tô num período ruim, seja mentalmente ou de grana, o que for, uma hora a situação vai melhorar. E depois vai piorar de novo. E depois vai melhorar. E depois vai piorar. Porque é isso. Nada é linear. Vai ser assim até o real fim da corrida: a morte.

Sabe, a verdade liberta mesmo.

O meu amigo Victor (subversículo:) uma vez brincou que eu troquei o cristianismo pelo swiftismo. E eu ri muito. Porque é meio que verdade. Sou diaconisa da Igreja Swiftiana do 13º Dia. Taí outro bom nome pra um podcast. Será que vem aí???

Instagram: @caracolespodcast
Disponível em outras plataformas de streaming.

--

--

Ana Carolina Santos
Caracoles

Leitora e escrevedora de transporte público. Faço o podcast Caracoles: https://linktr.ee/santosacarolina