Os encantos da Ilha da Magia

Há quem diga que ali em Floripa cachorro atravessa na faixa de segurança. Nunca vi. Mas vi coisas e sei de histórias únicas dos encantos da Ilha da Magia. Afinal, a natureza é tão exuberante a ponto de ofuscar o óbvio e somos obrigados a mergulhar num mundo colorido cheio de sonhos e fantasia. Gilberto Gil traduziu este sentimento da vista do morro da Lagoa da Conceição: “O melhor lugar do mundo é aqui e agora.

Como pode uma cidade ter praia, campo, peixe, gado, ilha e continente, shopping e galo cantando às 5h da manhã e um cara passeando com os bois? É Floripa. Morei na praia do Morro das Pedras, onde vi a luz da lua iluminar a noite e ainda desenhar uma sombra cinza dos eucaliptos no chão, onde habitavam corujas e cigarras.

Esta era a visão dos fundos da minha casa, um terreno arenoso, de praia mesmo, onde é possível jogar sementes de abóbora que logo germinam. Primeiro vem as flores amarelas, depois enormes frutos cor de abóbora, suculentos para comer com camarões. Ali plantei limão, mamão, batata doce e até um pé de caju que só deu frutos quando fui embora. Fazia fogueira, sentava em tocos de árvores que haviam sido cortadas e de vez em quando um lagarto vinha comer os restos de cascas de frutas da minha compostagem.

Lagarto em Jurerê Internacional/foto: Caco da Motta

Só em Floripa vi, na frente de minha casa, um caminhão estacionar nos cômoros de areia e os pescadores com bermudas surradas de jeans, de pele covada e grossa pelo sol, puxar enormes redes de pesca. Logo se formou uma montanha de peixes. Tainhas jogadas de pá para a caçamba. Toneladas de pescado fresco. Fui presenteado com uma daquelas tainhas ainda brilhantes na escama e nos olhos.

No dia seguinte, fiz aquele peixe só com sal, no carvão, era um banquete inesquecível, um manjar. A propósito, os catarinenses costumam colocar sal com tempero no churrasco e a gente que é gaúcho crítica. Mas temos mania de fazer isso com peixe e aprendi com meu amigo Laercio que para assar uma tainha é só colocar sal grosso e assar com escama é tudo. Ele se divertiu quando disse que Eu havia colocado fora aquela duas tripas amarelas. “Desperdiçasse a melhor parte, as ovas, meu querido!”

Certa vez, fui ao centro da cidade tomar café com o então candidato a governador pelo PMDB, Paulo Afonso Feijó. Natural do Piauí, mas catarinense de coração. Venceu a eleição e fiz umperfil daquele personagem que depois viria a ser alijado pela CPI das Letras que também acompanhei como repórter da RBS TV. Operações financeiras com Letras do Tesouro eram a base da discussão. A lembrança que tenho, no entanto, é da espera na porta do prédio para entrevistá-lo ainda em época de campanha. Numa travessa da Avenida Rio Branco – acho que era na rua Crispin Mira. Uma área urbana. Mas eram 6h e eu ouvi um galo cantar no morro da Caixa. Eu disse galo. Não era uma gaivota! A cara de Floripa.

Por falar em gaivota, manezinho adora um passarinho, um curió e leva ele para passear de gaiola e tudo. Assim cantam mais. Tem o curiódromo para os especialistas do ramo negociarem. É assunto para os jogadores de dama da praça XV.

Gaivota em Canajurê/Foto: Caco da Motta

Mas a história mais curiosa de passarinho é do Pezão, motorista da RBS TV. Ele é uma figura. Ele vendeu um bichinho para um admirador. Cantava, cantava. Um espetáculo! Até que um dia recebeu uma ligação:

  • O senhor me vendeu um passarinho sem uma pata?
  • - Tais cantando?
  • - Sim, canta que é uma beleza.
  • - Ué, queres um passarinho pra cantar ou pra passear na Beira-Mar?

E um belo dia, cinco trabalhadores limpavam os cabos de energia que ligavam o continente à Ilha de Santa Catarina na ponte Colombo Sales. De repente, o óleo combustível que revestia os mesmos incendiou com a chama de um maçarico que servia de iluminação. Os operários largaram tudo e se atiraram no mar, são e salvos. Mas o incêndio rompeu as anacondas de energia e logo se deu a tragédia. Era a única ligação de energia entre Ilha e Continente. Foram mais de 30 horas sem luz na cidade. Lembro que a Mariana, minha filha tinha 5 anos, olhou na segunda noite pra mim e disse: – Pai, a luz um dia vai voltar?

Eu havia corrido numa fábrica de gelo, comprei pilhas e no meio do caminho vi o caos ao anoitecer. Carros batiam, sem semáforo. Parecia um clima de filme de cidade zumbi, vazia. Me senti o Charlton Eston em a Última Esperança da Terra. Logo faltou água, sem energia para bombear e os celulares também não resistiram sem luz nas estações de transmissão. Parecia ficção. A geladeira derretia e a vizinha não tinha leite para a criança pequena. Eu precavido havia comprado várias caixas de longa vida e o gelo conservou carne, frios e os alimentos que cozinhamos no fogão à moda antiga.

Finalmente, às 20h, a luz começava a chegar bairro a bairro e a gente acompanhava tudo pelo rádio. Não havia TV nem sinal de Internet. Luz nos Ingleses, luz em Jurerê, luz no sul da ilha, luz no centro! Ufa! Ouvimos uma vibração de Copa do Mundo com gritos a cada lâmpada que brilhava.

Outra vez, fui atrás da história de Seo Chico, um senhor dono de uma bela propriedade que havia sido assassinado. O local onde ele morava era precário, rústico, tinha um engenho de farinha, onde ele fabricava cachaça. Até hoje a história é um mistério. O local é um paraíso com vista para a Lagoa do Peri, mar do Sul da Ilha e Ilha do Campeche ao fundo. Acesso difícil tanto que o motorista Pezão, atolou a Parati da TV.

A canalização da cachaça era em gigantes valetas de bambu. Provei uma dose da última garrafa num boteco do local. Era um uísque 12 anos, algo raro que se foi pelo tempo. Se família tivesse espírito empreendedor, reergueria a fábrica, retomaria o negócio como o nome de Seo Chico e teria um produto nobre tipo exportação.

Na praia do Morro das Pedras, havia dois senhores folclóricos. Um era pescador. Não sei o nome, mas via ele esta lá todos os dias apenas com um fiozinho de náilon e anzol atrás de peixe. Uma paciência admirável. O outro era conhecido como o homem dos bois. Passeava com dois bois zebus pela praia. Eles pegavam sol, pastam pelos canteiros e voltam para casa. Viviam no quintal como se fossem cães. Era um senhor manezinho, de pés descalços, cabelo prateado, orelhas de abano, bermudão surrado, olhos azuis e um dialeto quase incompreensível, herança da tradição açoriana.

Ali perto, comprava peixe fresco nos fundos de uma casa onde uma família comercializava tudo direto do mar, para o freezer e para a nossa geladeira. Ostras, peixes, filés, postas, iscas. Uma maravilha. Eu adorava os filés de espadinha. Custava uns 15 pilas o quilo.

Não lembro agora do nome destes personagens, mas a maioria tinha apelido. E como diz o Roberto Alves, Floripa é a cidade dos apelidos, “Tais, compreendendo? E adoram de quatro letras e diminutivo: seu Zica, Guga, dona Nena, Melinho, Teco, Dado, Lelê, Narinha. E dão apelidos também.

Certa vez, conta o Roberto Alves, um caixeiro viajante veio para Floripa. Ele ficou num hotel e não saiu nenhum dia. Trabalhava no quarto, recebia pessoas, encomendas, despachava ali mesmo. Era um homem misterioso. Olhava pela janela, colocava a cabeça pare ver se alguém tinha chegado e voltava. Um amigo da cidade perguntou se ele já tinha apelido. Ele disse que não. Outro dia, o amigo foi na recepção e perguntou se ele estava no hotel. Chamou pelo nome. Os dois recepcionistas se olharam e não sabiam quem era. o homem aquele que olha pela janela? Ah, já sei. “O seu Cuco?”.

Foto Reprodução do Furação Catarina

O tempo passou rápido como aquele furacão Catarina que vi fazer rodar um vaso destes pesados de cimento em círculos como se fosse uma folha seca. Lembranças do Ribeirão, Estreito, Coqueiros, Lagoa, Jurerê, Joaquina, Beira-Mar Norte, o Xis na frente do Diário Catarinense, o Quinha de Canajurê, o Deca do Canto da Lagoa, o Kaiskidum, peixaria do Chico, um “Femômeno” né Xexéu? Ressacada, Scarpelli, Ponta das Caranhas, Avenida Pequeno Príncipe no Campeche em homenagem ao escritor e piloto francês Antoine de Saint-Exupéry, que posou ali de avião.

Floripa onde o não é sim, não sabe? Vais lá? Não, claro que vou! E de expressões como Ezo – és um monstro! –, dazo – “dás um banho”, “mofas com a pomba na balaia” e seu “Istepô”. As duas primeiras são elogios, é o cara que arrebenta, a segunda é quando demora demais e aí mofas com a pomba como a mulher da balaia.

A cidade da velha Figueira, do poeta Zininho. De figuras únicas como Cacau Menezes e Leo Coelho, jornalistas cultos como Cacau Lino e Paulo Brito, a dupla divertida Miguel e Roberto, o avaiano Guga Kuerten, o Chico Lins, o Márcio Carlson, o Albeneir, o Margarida, hehe! Estes e tantos outros, assim como os grandes amigos, o Renato Igor, o pessoal da CBN, do DC, da RBS TV, vizinhos e parentes que vivem na cidade, com certeza me ajudam a lembrar que a magia da Ilha é encantadora. Parece mentira, mas não é. Não tem?

Mirante de Jurerê Internacional/Foto: Caco da Motta