Aikido, tradição e inclusão

O dia em que fui recusado em um dojo de aikido.

Eu já pratico aikido à noite e desejo treinar mais, por isso procurei um segundo dojo próximo à minha casa. A sensei responsável pelo dojo, em respeito a uma certa tradição de hierarquia, disse-me que para treinar lá eu precisaria levar uma carta de desligamento do dojo onde já pratico. Sob a ótica dela, preciso escolher um único caminho para seguir.

Eu não vou me desligar de onde já treino e portanto não treinarei neste segundo dojo. Na superfície, estou trocando até 16 treinos semanais (manhãs e noites) por um treino a cada semana. Se eu fosse considerar apenas intensidade de treinamento e preço, trocaria de dojo sem pestanejar, uma vez que minha intenção é crescer em técnica e graduação dentro do aikido. O que me impede de dizer sim para esta troca é uma questão de valores: acredito que inclusão é mais importante que tradição.

Quando a sensei requer que eu não faça parte de nenhum outro dojo, esta é uma estratégia de escassez. Só pode haver um caminho, uma linha a ser seguida, uma forma de estar envolvido com a prática. Esse cuidado com hierarquia sugere que só se pode ter um mestre. Acreditar nisso significa colocar o mestre em uma posição de superioridade, um papel ocupado pela figura clássica do professor. Se o professor é a verdade, faz sentido que não existam duas verdades distintas e concorrentes.

Eu acredito que o aprendizado deve ser abundante. Quanto mais treinos, corpos, dojos e mestres, melhor. No meio disso tudo, vai aparecer essa coisa incrível à qual chamamos de aikido. Havendo treinado pelo menos um ano com cada um dos meus três senseis, entendo a potência de transitar. Embora um treino único, sempre da mesma linha, possa acelerar e aprofundar um estilo de movimento, treinos plurais permitem que as margens desse conhecimento se tornem mais amplas. Isso, claro, prescinde a ideia de que haja uma verdade única a ser revelada e alcançada.

Embora eu tenha ficado irritado com a negativa, estou feliz. Ao demarcar aquele dojo como um espaço de tradição e contenção de saberes, a sensei me informou que ali eu não encontraria o que procuro — essa diversidade que me é tão preciosa. O que eles praticam naquele dojo continua sendo válido para quem comunga com determinados valores. O aikido que eu procuro é outro, portanto devo seguir meu caminho em busca de algo que me inclua.


Carlos Kill é paratleta, bicampeão mundial por equipe pelo Brasil no Campeonato Mundial de Surf Adaptado (2016/17). A revista é um esforço coletivo e colaborativo de levar Kill à edição de dezembro de 2018. Os apoiadores são pessoas e empresas dedicando tempo e recurso na busca de patrocínio. Faça parte desta rede: junte-se aos apoiadores, seguindo a publicação, aplaudindo e compartilhando o texto em suas redes sociais.

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