Ética e estética do ódio

A raiva, a ira e a vingança têm sua moral. E podem mesmo ser um combustível revolucionário, tanto no sentido político, como artístico

1.

Considero o Antigo Testamento muito superior aos Evangelhos. Não sou especialista no assunto, mas consumi esses textos desde que me entendo por gente — direta e indiretamente. E o Deus que lança maldições em setenta vezes sete gerações de uma família desgraçada, e destrói cidades inteiras sem fazer diferença entre inocentes e culpados — salvando apenas aqueles que Ele escolheu — sempre me pareceu uma entidade muito mais interessante, muito mais próxima da dinâmica da própria realidade (cega, irracional, sem explicação), do que a lógica retributiva e compensatória do Sermão da Montanha.


Sou contra esse discurso de ódio que está aí. Esse discurso raivoso contra minorias, negros, pobres, mulheres e toda população do vasto espectro LGBT. Mas não sou contra todo e qualquer ódio. A Bastilha não caiu por conta do Imperativo Categórico ou do ame ao próximo como a ti mesmo. Também não foi por caridade que direitos trabalhista foram conquistados. E não foi só por solidariedade que o exército aliado mandou os nazistas para o inferno, donde nunca deveriam ter saído. O ódio e a raiva sempre estiveram a serviço das grandes mudanças da nossa história. Quando bem canalizados, podem ser um combustível poderoso para conquistar um pouco mais de ar nesse universo asfixiante.


Não se luta por uma sociedade mais justa sem odiar o horror que é essa nossa sociedade atual. Vamos para rua movidos por um pouco de esperança, de sonho, mas a potência que move qualquer utopia é o mais puro ódio e horror diante do status quo. Pois não é por amor ao futuro, tampouco pelo sonho de um novo mundo, que se age no presente: é por repulsa ao presente.

Repulsa à hipocrisia, à desigualdade, à deslealdade, à mentira, ao escárnio. Foi esse instinto mais arcaico, ainda enraizado nas zonas mais profundas do nosso cérebro, a intuição que guiou nossos ancestrais nas noites mais escuras e nos invernos mais gelados. Foi por repulsa que puderam evitar os perigos de uma natureza eternamente cega, indomável, hostil.


É pelo ódio que nos afastamos da situação dada. E a contemplamos a certa distância: ao longe, nossos olhos brilham, enquanto desejamos vê-la ruir e gemer debaixo dos nossos punhos esfolados. Em tempos extremos, pacifismo, educação e diálogo são instrumentos inúteis. É necessário ir além.

É necessário um pouco de brio e coragem para nomear as coisas pelos seus verdadeiros nomes: inimigos. Não se dialoga com sujeitos como João Dória, e semelhantes, como também não se dialoga com instituições financeiras. Não há meio termo, contemporizar, ser prático. Não dá para querer fazer do mundo um lugar mais justo e adular milionários, instituições arcaicas e criminosas como a Igreja Católica, porque isso é ser conivente com o crime, referendar a lógica das injustiças.

É necessário odiá-los, desprezá-los, tanto no nível concreto, como no nível abstrato. Não se engane: a transformação nunca virá da caridade de Institutos e Ongs geridas por milionários, da mesma forma que a democracia não veio dos palácios, mas do ódio que ardia no coração do povo, que tinha fome, e vivia juntos aos porcos, enquanto gordos reis embriagados faziam banquetes em seus salões perfumados.


2.

Em toda arte digna desse nome, não há nada de celebração ou contemplação da vida, mas um lastro vigoroso de raiva diante da vida: a inadequação radical do artista para vida, para as convenções sociais de sua época, e uma espécie de rancor radical da obra frente ao real.

Toda grande obra quer ser ela mesma sua própria vida, mas para isso tem que negar a vida, odiá-la, repudiá-la ao extremo, libertar-se dela, arrancar-lhe os membros, despedaçá-la e transfigurá-la. O ódio e o rancor libertam o artista.

Dá pra sentir todo ódio de Van Gogh em cada uma de suas pinceladas. Ou o descomunal ódio à vida, a essa vida trágica abandonada por Deus, na pena de Dostoiévski ou de Kafka. Não há grande artista que crie por amor à vida. O amor à vida só gera silêncio, satisfação e contentamento.

É o ódio da vida, e também ódio, inveja e rancor dos artistas que vieram antes dele, e dos que estão ao seu lado, e das próprias obras que escreveu, que movem cada artista numa busca sempre renovada por novas formas de expressão. Na paz e no contentamento, nada se move: tudo permanece tal e qual. Nada de novo debaixo do sol.

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