Mapa da capitania de Minas Geraes: com a deviza de suas comarcas. [1778?]. Fonte: BNdigital.

Espaço ficcional

Cartografia imaginária

Depois da estrutura, o primeiro grande desafio ao começar a escrever esse livro é a constituição do espaço. Levando em conta que a personagem viveu no Brasil Colônia, na Capitania de Minas Gerais, Comarca do Rio das Mortes, a construção desse cenário é um grande exercício de imaginação.

Minha pretensão, no entanto, está longe do romance histórico clássico. Na verdade, a tentativa é justamente jogar com o registro historiográfico: tudo é texto. E como texto, o passado só é acessível através da leitura: ler uma narrativa é colocar imagens em movimento — imaginação, portanto. De toda forma, esse ambiente ficcional, como qualquer espaço narrativo, precisa necessariamente ser verossímil, dentro das suas próprias necessidades.

Ainda vou voltar a falar aqui de romance histórico, ficção histórica e também de metaficção historiográfica.

Mas pesquisando sobre o assunto, entrevistas e textos de autores que escrevem ficção nessa modalidade, fica mais ou mesmo claro erros óbvios: 1) didática. 2) entulhar o texto com descrições sobre costumes, práticas cotidianas, marcas do tempo, personalidades e lugares famosos, como se o autor estivesse a todo momento tentando provar, pra si mesmo e para o leitor, o quanto ele pesquisou sobre o assunto e como é virtuoso ao dar um Ctrl+C no passado e Ctrl+V na página.

E, claro, não existem regras absolutas.

Para quem se interessa pela construção de um romance histórico, da perspectiva dos escritores, no programa Super Libres há duas ótimas entrevistas sobre o assunto: com Ana Miranda e Alberto Mussa.


Para ter uma visão panorâmica do lugar, fiz uma busca sistemática em acervos digitais do Arquivo Público Mineiro e da Biblioteca Nacional. A vontade é imprimir tudo. Algo que devo fazer em breve — traçar rotas, emboscadas, cavernas ocupadas por eremitas, quilombos. O fato é que dá pra passar horas vagando por esses mapas antigos. Puro exercício de imaginação. Personagens indo e vindo por essas terras ermas, como se fossem os melancólicos e hiperativos camponeses de Warcraft II.


A histórica começa nas imediações de Campanha da Princesa, próximo do Rio Grande. Comarca de Rio das Mortes. Fonte: Arquivo Público Mineiro.

Não por acaso, essa representação da serra da Mantiqueira aí em cima me lembrou os mapas de Senhor dos Anéis. Atrás da serra estaria São Paulo ou Mordor?


Além da visão geral da organização do espaço geográfico, a verossimilhança depende também de saber, por exemplo, quanto tempo um sujeito a cavalo levava de um lugar a outro. Que tipos de perigo poderia encontrar pelo caminho. Essas perguntas, por si só, podem disparar boas peripécias e cenas.


A passagem de um rio pelos indígenas Guaicurus, Iconográfico. [S.l.: s.n.], [17 — ]. Fonte: BNdigital.

Charge de cavalerie Gouaycourous. Jean Baptiste Debret, 1768–1848. Fonte: Brasiliana.

Essa gravura de Debret, e todas as outras relacionadas aos gloriosos guaicurus, único grupo indígena brasileiro que se apropriou do uso de cavalos, deixam a imaginação febril.

É um aspecto muito importante saber como a população indígena se constituía nessa época. Também se havia imigrantes de outras nações além de Portugal e dos negros cruelmente desterrados das nações africanas. Li alguns artigos falando de ciganos — o que muito me interessa.