Cadê os índios?

tv globo/divulgação

Em clima de faroeste , “Liberdade, Liberdade” ignora nativos


Sentei-me diante da televisão, de boa vontade — e sem ironia — , para assistir essa dita novela das onze, que trata da vida de Joaquina, a filha bastarda do alferes da Inconfidência, Joaquim José da Silva Xavier.

Minha intenção, além da curiosidade, era espiar como se daria a ambientação histórica, já que o assunto me interessa.


Na primeira cena, num forte carioca resguardado por navios cuja computação gráfica não chega aos pés de Assassin’s Creed, Tiradentes desfila pelo interior da guarnição militar. Num plano-sequência que talvez não alcance a casa de um minuto, ele, e nós, passamos por escravos, escravas, brancos, outros soldados. O plano termina num abraço, com outro conspirador, que carrega um livro.

Mas a surpresa maior não é o conteúdo do livro, o Recueil, coletânea de documentos constitucionais dos EUA. A maior surpresa é a seguinte: não há nenhum índio, nenhum mestiço que seja. A gente até suporta umas falas meio didáticas e proféticas, como é comum em cinebiografias de época, ignorar os nativos, por outro lado, é bizarro.

Além da população dos centros urbanos auríferos contar com a presença de mestiços ou “índios domesticados”, por esses tempos, viviam ao redor das vilas os chamados “índios bravos”. Parece que a pesquisa de conteúdo da novela simplesmente ignorou esse fato. E a produção e argumentistas também.


“No entanto, levando em conta o interesse incontestável da Historiografia pela Inconfidência Mineira”, escreve Maria Leonia Chaves de Rezende, em sua tese de doutorado, “causa estranheza não ter chamado a atenção o fato de vários inconfidentes estarem envolvidos em atividades sertanistas. Notória foi a atuação de Inácio Correia Pamplona, que se celebrizou como delator dos Inconfidentes, integrando com o Joaquim Silvério dos Reis e Basílio de Britos Malheiros ‘o ignóbil triunvirato da infame e perversa delação’. Um dos maiores sertanistas e latifundiários da Minas colonial foi responsável pela perseguição aos Caiapós, descrita como um dos enfrentamentos mais atrozes em todo o período colonial”.

E para além do papel de vítimas, as populações indígenas participavam ativamente da vida social de Minas Gerais.

O visconde de Barbacena (1788–97), ao descobrir a conspiração que planejava seu assassinato e a declaração de uma república, mandou reforçar a presença das forças militares em pontos estratégicos da Capitania. “Para evitar suspeitas, espalhou a notícia de que índios hostis tinham sido vistos ao longo da principal rota de fuga da capitania, o que deu a ele a justificativa necessária para reforçar as tropas de patrulha. Mendonça calculou que os moradores do distrito mineiro, acostumados a ver soldados de prontidão para controlar índios rebeldes, permaneceriam alheios aos seus motivos particulares. O que ele realmente queria _ e conseguiu _ era que os rebeldes conspiradores fossem presos rapidamente”.


Mas há pontos positivos na produção: trazer ao grande público uma trama de ficção cuja protagonista é mulher. E também a abertura, claramente inspirada na estética do velho oeste. O clima de aventura também é interessante. O que atrapalha um pouco são as atuações de sotaque forçado, ainda mais com diálogo didático.

Agora, uma grande falta de respeito é não mencionar que a novela é inspirada no livro Joaquina, filha de Tiradentes. Na abertura, diz-se que a novela foi baseada no argumento de Márcia Prates, mas nenhuma menção ao livro de Maria José de Queiroz. A referência ao livro vem apenas nos créditos finais, uma última frase com letra miúda, que sobe rapidamente, naquele momento em que os telespectadores já mudaram de canal ou desligaram a TV.


Curiosamente, a intenção do diretor, Vinicius Coimbra, era “buscar o máximo de realismo”. Na matéria de O Globo, lê-se, por exemplo:

“Os olhos azuis do galã estão escondidos sob lentes de contato castanhas. Os dentes da protagonista foram amarelados, e ela passará vários capítulos com a mesma roupa empoeirada. Não estão sozinhos. Quase todo o elenco vai aparecer com sujeira ou próteses nos dentes, e terá aplicado no rosto uma base solúvel em álcool para criar manchas e tirar a uniformidade da pele — cicatrizes falsas também serão usadas. Até o figurino passou por um processo de desgaste antes de ser usado pelos atores.”

Só esqueceram dos nativos.


“Trato a História com o devido respeito, mas pude viajar o quanto quis”, disse o autor da novela, Mario Teixeira — que tem um Jabuti nas costas — em entrevista ao O Globo. Misturar ficção e fato é ótimo, afinal isso não é documentário. Mas um Brasil colônia sem índios não é “viajar”: pura ignorância que esbarra naquele velho conhecido — o preconceito.

Foram dois capítulos até agora. E quem sabe as coisas possam mudar. Em todo caso, a ausência completa de nativos da terra nesse começo, além de grave erro histórico, não dá muitas esperanças.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.