Saudades de escutar

Antes dos livros, minha atração por narrativas vem dos contadores de causos


Minhas primeiras leituras foram histórias de detetives. Primeiro Agatha Christie, Conan Doyle, e alguns livros obscuros de espionagem e mistério, para então descambar em noites em claro lendo O senhor dos Anéis. Mas antes disso — e do consumo de narrativas na Sessão da Tarde e gibis da Turma da Mônica — aprendi a gostar de narrativas ouvindo causos no sotaque cantado do interior.


Benjamin atrela a narrativa tradicional ao trabalho manual, ao artesão que transmite seu saber a um pupilo que escuta histórias enquanto lixa uma estante. E foi na beira de andaimes, ao lado de um tanque de roupa, na sombra de uma árvore numa lavoura de feijão que ouvi as primeiras histórias que me lembro.


Os enredos, que hoje me escapam, eram ritmados pelo barulho da colher de pedreiro partindo um tijolo, as pancadas da roupa no tanque, os lances da enxada cortando o ar e revirando a terra. Lembro mais desses barulhos que dos enredos em si. Resta essa impressão afetiva inaugurada por uma narrativa. Ouvidos em pé, olhos arregalados, a imaginação espichando a paisagem.


Um punhado delas tratava dos poucos e obscuros parentes, de fazendeiros sangue ruim que judiavam de escravos, de um saci justiceiro que descia o sarrafo nos moleques arteiros. O pescador que cortou os dedos do Nego D’água com um facão, e os dedos rolaram para dentro da canoa, numa pescaria noturna com redes e tarrafas. A mulher de três metros, o bebê fantasmagórico que lançava seu choro nas madrugadas, o misterioso cavaleiro de capa preta que frequentava os enterros e então desaparecia detrás dum túmulo qualquer.


Os tempos mudaram. A vida está cada vez mais acelerada, o trabalho se fragmentou, o mundo é outro. Queria que o Joaquim, meu filho de três anos, tivesse a oportunidade de ouvir esses causos. Só que não de forma artificial, na boca de contadores profissionais, que têm lá seu valor: mas falta a essa prática institucionaliza os barulhos do trabalho manual, dos panos estralando na pedra, das pancadas do martelo, da mão revirando a terra. Falta o cheiro de pipoca estourando no fogão à lenha, a meia dúzia de crianças com pés cascudos, joelhos escalavrados, as mãos cheias de riscos de espinho de laranjeira.


Penso em recuperar essas narrativas, ali mesmo na sua fonte, num exercício de história oral. Não para transformá-las em ficção — o que vez outra acontece, independente da minha vontade. Também sem pretensão de recuperar ou proteger uma cultura em vias de desaparecer. No fundo — além de honrar essa dívida com a tradição oral, essa oralidade que me formou como leitor — apenas para poder parar e escutar, em silêncio, esse ritmo entoado que brota da fala dessa gente. Essa fala musical que é a voz desse povo antigo, esse manejo bonito da língua que eles têm.

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