Forma x Conteúdo

Fabulação, imitação e literatura experimental

No capítulo IX da sua Poética (uma espécie de power point que o filósofo usava nas suas aulas), Aristóteles diz que “o poeta deve ser mais fabulador que versificador, porque ele é poeta pela imitação e porque imita ações”. Essa afirmação de Aristóteles leva a duas conclusões: 1) a fabulação, ou ficionalização, é condição necessária da construção literária; 2) O modo de expressão, ou seja, o verso, é um elemento acidental na construção do texto literário.

Claro que muita coisa mudou desde Aristóteles, e qualquer sujeito mais ou menos afeiçoado a leitura de romances sabe: a forma que se diz, o “como dizer” é muito mais importante do que “o conteúdo”, aquilo que se diz. E pra isso nem precisa tocar em questões como guinada linguística, linguagem em primeiro plano, linguagem concreta, estranhamento, formalismo russo, positivismo lógico, nominalismo.

A própria linguagem, em última instância, só funciona por dependência do mecanismo de fabulação. A fabulação subjaz a linguagem. Usar uma coisa (a linguagem) para referir-se a outra (realidade) ou construir outra coisa ( mimese) é fundamentalmente ficcionalizar. Antes de ser um processo da linguagem, a fabulação é condição de possibilidade de linguagem.

Em outros termos: a fabulação é a forma, e não conteúdo.


O termo imitação também pode ser traduzido por representação, o que talvez seja um pouco mais próximo da noção original de mimese, já que a construção mimética (o texto literário), não é uma cópia degradada da realidade (como supunha Platão, que tocou os poetas para fora da cidade perfeita), mas sim, um objeto verossímil, que se assemelha a verdade, uma verdade possível. Há um desvio fundamental entre o objeto imitado e a construção mimética. Basta lembrar aquele famoso texto de Borges, sobre os mapas perfeitos, tão perfeitos que assumem o tamanho dos terrenos representados. De que adiantaria um mapa de São Paulo que fosse do tamanho de São Paulo? A imitação perfeita, se fosse possível, além de ridícula, seria absurda.


Um problema que me preocupa em relação a representação: usar uma estrutura fragmentada, colagens, uma linguagem quase em colapso, para tentar mostrar (veja bem, mostrar) a impossibilidade da representação é, no fim das contas, um processo imitativo, mimético. Se por um lado continuo ainda representando, porque estou representando “a impossibilidade da representação”, por outro, estou mimetizando o contemporâneo, seja de forma consciente, seja como reflexo, sintoma.

Penso, por exemplo, num livro como Eles eram muitos cavalos, do Ruffato. É um bom livro, e o tomo por exemplo porque está aqui às mãos: o livro versa sobre São Paulo, um dos lugares mais caóticos do mundo. E como é a linguagem que o Ruffato usa? Caótica, fragmentada, uso de registros diversos, linguagem em primeiro plano — veja só, isso é um livro, isso é a linguagem literária.

Por um lado, a linguagem fica tão saturada, pela estratégia adotada, que é como ler um livro que fizesse uma metáfora por frase. Por outro lado, a estratégia da fragmentação não me parece diferente daquele poeta concreto que escreve um poema sobre a chuva, desenhando a chuva com as palavras. Ou seja: mimese. E o que me parece mais problemático: a forma, aqui aparentemente caótica e fragmentada, é na verdade um conteúdo, pois contém uma mensagem — essa cidade que existe aqui fora, no mundo real, é fragmentada e múltipla e se fosse copiada para as páginas de um livro, seria assim.


Na verdade, o problema entre forma (como se diz) e conteúdo (o que se diz), é um falso problema: porque a forma também carrega um conteúdo, uma mensagem, mesmo que de maneira velada.


O problema maior: obviamente, não dá para escrever ignorando tudo que aconteceu no último século (vanguardas, fim das utopias, crise da representação, virada linguística), mas tentar superar o mecanismo mimético, imitando pela forma, não me parece a solução. Acho, na verdade, que não há solução. Hoje, pelo menos nos terrenos distantes das seitas teóricas, ao que parece, a liberdade criativa é maior. Ou talvez a angústia criativa seja maior. O que dá no mesmo.


Esse tipo de texto é experimental? Normalmente, chamamos experimental a construção literária que ousa encontrar novos modos de expressão, experimentar com a forma (estrutura, linguagem). Mas em sentido mais radical, creio que literatura experimental seja aquela que pensa para fora de um paradigma estabelecido. E nesse sentido, um texto como o de Ruffato seria visto como experimental apenas em relação ao paradigma realista, do século passado, e não em relação ao paradigma contemporâneo. Isso porque a fragmentação, a colagem, a montagem, colocar a linguagem em primeiro plano, metaficção, tensões formais, são elementos já incorporados e assimilados pela tradição literária e crítica. O que era ousadia no século passado, hoje, é a norma, o padrão.

E aqui está o risco: escrever em conformidade com o horizonte de expectativa da recepção crítica, escrever no horizonte de um protocolo de leitura vigente. Escrever tendo em vista o leitor, não o leitor comum, mas um leitor especializado e erudito. O que dá no mesmo: agradar. Experimental, por outro lado, seria um texto que rompesse com esse modelo. Um texto que confundisse a própria crítica. O que não é o caso de livros como esse do Ruffato, pois são rapidamente celebrados, recebidos, canonizados.

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