Inusitado

E quando o nome da personagem do livro que você está escrevendo aparece numa sinopse da Netflix?

Estátua de Januário Garcia, O Sete Orelhas. Fonte: Lincoln Daniel/Prefeitura de São Bento Abade/Divulgação

A história de Januário Garcia, conhecido como Sete Orelhas, é amplamente conhecida no Sul de Minas. Na cidade de São Bento Abate, há até uma estátua em sua homenagem (veja a foto aí em cima).

O livro que estou escrevendo (não vou adiantar nada do enredo, ok?), parte, em primeiro lugar, da memória oral sobre a vida de Januário Garcia, das histórias que ouvia quando era criança; mas também da historiografia relacionada a Januário e principalmente de uma novela escrita por Joaquim Norberto, que criou uma ficção sobre a saga do Sete Orelhas, em 1832. A vingança de Januário (depois de matar, arrancava as orelhas dos inimigos e fazia um colar, foram sete os inimigos, daí a alcunha de Sete Orelhas), ocorreu por volta de 1803, pouco antes da chegada de D. João VI.

Eu não sou, portanto, o primeiro a escrever sobre esse sujeito, seja na ficção, seja na historiografia. A narrativa de Januário está em vias de ser tombada como patrimônio imaterial. Por isso já falei disso aqui. Não há o que esconder.

Curiosamente, ontem, ao ver uma sinopse de um filme brasileiro produzido pela Netflix, me deparei com o nome: Sete Orelhas.

“Criado e dirigido por Marcelo Galvão (Colegas), a história é um faroeste e acontece entre as décadas de 1910 e 1940, e conta a história de Cabeleira (Morgado), um temido matador do estado de Pernambuco. Cabeleira, criado por um cangaceiro local chamado Sete Orelhas (Montenegro), que o encontrou abandonado quando bebê, cresce no sertão completamente isolado da civilização. Agora um adulto, ele finalmente vai à cidade para procurar o desaparecido Sete Orelhas e encontra uma cidade sem lei, governada pelo tirânico Monsieur Blanchard (Chicot), um francês que domina o mercado de pedras preciosas e anteriormente empregava Sete Orelhas como seu matador.” (FONTE: aqui)

Difícil saber em que medida esse Sete Orelhas do filme O matador é inspirado em Januário Garcia, o Sete Orelhas mineiro, mesmo que o enredo esteja transportado para um século adiante na história. Em todo caso, levei um susto danado quando vi essa sinopse.

Mas se há um outro Sete Orelhas lá em Pernambuco, e se foi desse outro que inspiraram a personagem, sinal que há mais lenda que verdade nessa figura. Isso não quer dizer que não tenha existido um Januário Garcia (há um inventário que atesta sua existência), mas é provável que tenham existido muitos caçadores de colares por aí.