Lições de Saer

“Se quero escrever um romance sobre o Império Romano posso não ler nada sobre o Império Romano”

Juan José Saer. Fonte: Domínio Público. Wikipédia.

Pesquisa e ficção

“Há muitos livros que exigem pesquisa, mas quando se pesquisa para escrever ficção não se pesquisa da mesma maneira que para escrever uma tese”, afirmou o escritor argentino Juan José Saer, em sua passagem pela USP, em 1997.

Falecido em 2005, o autor de O enteado, As nuvens e O grande tem uma perspectiva clara do protagonismo da criatividade na construção de uma narrativa que envolve história.

“Se quero escrever um romance sobre o Império Romano posso não ler nada sobre o Império Romano (estou pensando no romance Os idos de março, de Thornton Wilder, no qual se vê que o autor sabe muito sobre Roma e nada sobre a arte de escrever romances), posso fazer o que quiser porque há uma total liberdade”.

Saer diz que não há é regras. Cada um trabalha à sua maneira, conforme as exigências da composição. Em sua experiência particular de escrita, o autor entende a precisão histórica como um elemento que pode tanto informar como desinformar. Mas é inegável o poder de um material histórico ao disparar a escrita.

“Quando li num certo livro de história, há muitos anos, o relato que desenvolvi em O enteado, eram apenas quatorze linhas, e isso foi tudo o que vim a saber.
Quer dizer, li coisas como Hans Staden e algumas crônicas do século XVII, mas sobre aquele personagem nunca mais li coisa alguma. E apaguei todas as alusões e referências históricas precisas”.

A preocupação do autor passa ao largo da crônica histórica.

“O livro sai da barca do século XVI para uma situação universal. O que acontece à volta do protagonista são coisas bem reais, não são nada fantásticas. Descrevo-as de maneira a parecerem mais reais do que são”, disse Saer, em uma entrevista de 2002.


Ficção e verdade

Em um ensaio de 1989, intitulado o Conceito de Ficção, o escritor argentino é categórico ao tratar do problema da verdade nas narrativas que se apresentam como “não-ficção”. Há uma espécie de “fantasia moral” que tenta colocar a construção ficcional numa posição hierárquica inferior com relação à verdade. Mas a ficção não é necessariamente o contrário da verdade. É outra coisa.

E nesse sentido, a negação do elemento fictício num relato não garante a verdade, porque a própria noção de verdade é problemática.

Ao se propor a representação de uma suposta objetividade asséptica, a não-ficção, a autobiografia e a biografia, “essa imensidão de gêneros que deram as costas à ficção”, precisam apresentar as provas de sua eficácia. Para Saer: “Esta é uma obrigação difícil de cumprir.”

A ficção, por sua vez, que tem na problemática da verdade sua matéria, longe de ser uma falsificação — uma atmosfera fugidia e segura — é caraterizada por Saer como uma espécie de antropologia especulativa.

A narrativa ficcional não dá as costas à verdade e a realidade objetiva (vale lembrar que Saer é tido como um anti-Borges). O que o escritor chama de antropologia especulativa é a forma específica e singular que a ficção lida com o real.

Ao dizer que a ficção desde sempre encontrou seu lugar “à margem do verificável”, Saer se aproxima daquela clássica distinção aristotélica, entre o discurso do poeta e do historiador.

Enquanto o discurso do historiador se ocupa dos elementos contingentes, escravo da observação dos fatos, sempre precários e perecíveis — o poeta está em busca de verdades essenciais, necessárias, que ultrapassam a dimensão contingente, próximo do discurso da filosofia.

O discurso do poeta opera no campo do possível, da verossimilhança: “como seria”. O discurso do historiador no campo do “como foi”.

A ficção realista, creio, é algo que transita nesse desvão da distinção de Aristóteles: anda com um pé na poética, e com outro pé no referencial concreto. Daí faz todo sentido a noção de antropologia especulativa.


As normas e a técnica

Ao falar da questão da técnica, Saer ressalta a importância do aprendizado, a incorporação de experiências, pouco a pouco, “com os meios que se tem, que são as idéias, as emoções, as visões. Com tudo isso, o escritor deve ir criando uma linguagem literária autônoma, pessoal, coerente e que sobretudo não transgrida as normas que ele mesmo se impôs.”

O escritor argentino ressalta no entanto que a técnica não é tudo.

“Há uma famosa frase de Borges — que na verdade não é dele, mas de um crítico norte-americano, embora Borges, como sempre, deva tê-la melhorado — que diz que nos romances de Faulkner não sabemos o que se passa mas sabemos que o que se passa é terrível. Essa frase é maravilhosa. Já um escritor profissional tem apenas técnicas, e as técnicas se desmontam perfeitamente.”

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