Nenhum cristão acredita no inferno


1.

Numa das primeiras cenas de Meridiano de sangue, no primeiro encontro do kid com o monumental Juiz Holden, um sacerdote — um padre — está pregando numa espécie de tenda, semelhante a um circo.

O homem prega com voracidade, dizendo que Jesus nos acompanha em todos os cantos: por isso diz às suas ovelhas que elas não devem frequentar esses antros de pecado, os prostíbulos, porque entrar nesses lugares é arrastar Jesus lá para dentro.

Mas a fé desse soldado de Deus fraqueja no primeiro obstáculo.

O Juiz toma a palavra e começa a tecer calúnias sobre o padre. Diz que ele é um charlatão, que esteve metido com meninas pequenas em outras terras, e que é um foragido da justiça. A eloquência do padre se esfarela no ar, diante da eloquência do Juiz, que sabe muito bem que é tudo uma questão de palavras, ou seja, linguagem, efeito, persuasão. O juiz vence o padre em seu próprio terreno, debaixo de uma tenda, um circo que o próprio padre montou: eis a maior das humilhações.

E o fiel rebanho que até então repetia os hinos como uma orquestra sob a ordens do maestro de Deus, seu bando pacífico de ovelhas, agora se transforma numa matilha demoníaca, prontos a devorar o padre vivo.


2.

A gagueira do padre talvez se explique porque lá fundo ele saiba que é um charlatão, manipulando os afetos, esperanças e carências daquele povo humilde. Um charlatão porque ele próprio entende que seu Deus é uma gigantesca projeção das próprias fraquezas humanas, cimentada com Platão e temperada com Aristóteles, e depois transmitida de geração em geração, por ordens de gordos reis rodeados de ouro, e seus exércitos de mil lâminas banhadas de sangue. Morte, medo e terror. Eis o solo do cristianismo.


3.

Há uma passagem de Benjamin, nas teses sobre o conceito de história, em que ele diz que nem os mortos estarão seguros se o inimigo vencer. Os mortos, aqui, são mesmos os cadáveres, os ossos enterrados em cemitérios, que foram desenterrados e queimados nos campos de extermínio, para apagar todos os rastros do crime; mas os mortos são também nossos ancestrais, aqueles a quem devemos a cultura que herdamos ao nascer.

Não por acaso, o cristianismo, ao se apropriar das culturas pagãs, das pequenos tribos da Europa, Ásia e América, proibiu a Necromancia. Conversar com os mortos é conversar com o passado, com os ancestrais, garantir a transmissão e sobrevivência de uma determinada cultura, e da identidade de um povo, de uma geração para outra.

E talvez este seja o maior crime do cristianismo: destruir o vínculo do seu povo com seus ancestrais, pois até hoje as religiões que cultivam esse hábito são acusadas de bruxaria, feitiço. Como se bruxaria e feitiços fossem coisas ruins em si.

Ao destruir o vínculo dos povos com seus ancestrais, o cristianismo criou uma legião de órfãos de pai e de mãe, de terra, de cultura e tradição, para então dizer que Deus pode oferecer um amor incondicional.


4.

Nenhum cristão acredita de verdade no inferno. Pois se acreditasse, não conseguiria sequer respirar sem ouvir esse segundo sopro do demônio que o acompanha desde o nascimento.


5.

“A vida é uma coisa engraçada: um arranjo misterioso de lógica sem misericórdia para um propósito fútil. O máximo que se pode esperar dela é algum conhecimento de si mesmo… que chega tarde demais… um amontoado de arrependimentos inextinguíveis. Eu tenho lutado contra a morte. É a competição mais entediante que vocês podem imaginar. Ela acontece numa mediocridade intangível, com nada sob os nossos pés, com nada entorno, sem espectadores, sem um clamor, sem glória, sem o grande desejo de vitória, sem o grande temor da derrota, dentro de uma atmosfera doentia de cepticismo morno, sem se acreditar no próprio direito e ainda muito menos quanto ao direito do adversário. Se for aquela a imagem da derradeira sabedoria, então a vida é um enigma maior do que alguns de nós poderiam sequer supor que seja.” ( Joseph Conrad, Coração das trevas)


6.

Mas nem os anjos, etéreos e sem carne, suportaram por muito tempo esse ar asfixiante da prisão do paraíso.