O fantasma do realismo

Exaustão das vanguardas e o eterno retorno ao real

Rompimento da Barragem de Mariana. G1

O escritor e jornalista Roberto Taddei (@rrtaddei)escreveu uma brevíssima e luminosa resenha sobre a nova tradução da contista canadense Alice Munro. O título é sugestivo: “Fiel ao realismo, autora Alice Munro aponta para o futuro”. Taddei defende a ideia de que os contos da ganhadora do Nobel de 2013 — quase sempre avaliados pela crítica como vinculados a uma tradição que remonta Tchékhov (o realismo enquanto estilo de época), são “mais contemporâneos do que os nossos contemporâneos mais radicais”. Concordo muito com essa tese.


“A ficção procurou de tantos modos sair das suas normas, assimilar outros recursos, fazer pactos com outras artes e meios”, escreveu Antônio Candido, no ensaio A Nova narrativa (1989), “que nós acabamos considerando como obras ficcionalmente mais bem realizadas e satisfatórias algumas que foram elaboradas sem preocupação de inovar, sem vinco de escola, sem compromisso com a moda; inclusive uma que não é ficcional”. Candido questiona se isso não seria uma espécie de aviso. Sem concluir ou responder a esse questionamento, deixa a coisa no ar. É um problema que ainda persiste na nossa época, como aponta a resenha de Roberto Taddei, ou alguns ensaios de Karl Erik Schollhammer, sobre a noção de realismo afetivo e realismo de choque. De minha parte, antes de falar de aviso, eu diria que o termo mais preciso seria sintoma: do realismo enquanto estratégia narrativa, violentamente devassado e recalcado pelas vanguardas, e que sempre retorna.


Um problema ao ver a prosa realista exclusivamente como algo superado, como algo “dessa gente que escreve como no século de 19”, é supor 1) que haja algo como uma evolução, uma ordem e progresso da Literatura; 2) que o fragmento e metaficção (muitas vezes pura afetação ou mera adequação à ordem do dia) é o único caminho da literatura pós-vanguardas. Claro que ninguém mais ou menos consciente das transformações das formas literárias vai escrever sonetos exatamente iguais à Olavo Bilac e achar que inventou a roda.


As vanguardas já estão longe demais da nossa época, quase tão longe como a Idade Média, a Grécia Arcaica ou Abraão. Viraram a norma. Um twitter e uma página de memes no Facebook pode ser mais corrosiva ou destrutiva — no nosso contexto — do que aplicar ingenuamente procedimentos surrealistas, ou anti-narrativos iguais aos das vanguardas do século passado. A experiência do tempo é outra, nossas memórias estão projetadas para fora dos nossos corpos. O algoritmo da timeline das redes social não opera por cronologia. Em modo automático, os buscadores funcionam por relevância, não por escala temporal. Você consulta o Google Street antes de visitar um lugar. Depois, ao pisar nesse endereço, pela primeira vez, tem uma lembrança: uma espécie de deja vú diante de uma paisagem na qual nunca esteve antes. Uma simples ida ao trabalho é uma experiência dadaísta visceral se você usa o transporte público de São Paulo: nada mais absurdo do que a experiência cotidiana no limiar da primeira década do século XXI.


Encontramos as vanguardas nos livros didáticos, nos manuais de cursinho, na lousa do professor. Habitam o mesmo espaço: no mesmo índice, no mesmo sumário, encontramos Salvador Dali e Olavo Bilac. Nem o surrealismo, nem os sonetos pacíficos dão contam da nossa época: hipersaturada de imagens, fantasmagorias que nos afastam do real, mas que, ao mesmo tempo, nos apresentam um real anabolizado, um hiper-real-estetizado.


Numa época em que a maioria daquilo que lemos está inscrito em telas cintilantes, traços fragmentados e dispersos (foto da avó com o neto recém-nascido, semi-conhecido que perdeu o ônibus, textão do professor de Teoria Política da Federal do Paraná, vídeo de crianças ofegantes sob efeito de um bombardeio químico na Síria, jovem alquimista do Acre — reencarnação de Giordano Bruno — e seus 14 livros criptografados usando códigos do Manual do Escoteiro Mirim, escavações arqueológicas na região central do México reforçam hipótese da existência de sociedades democráticas no período pré-colombiano, tudo num fluxo de consciência coletivo, fragmentado e disperso, o caos exaustivamente desarticulado e rearticulado pelo juízo cego dos likes), neste contexto, a espessura arcaica do livro, a artificialidade de uma narração alinhavada nas tramas do enredo (essa linha tênue e precária), pode ser, por sua natureza desviante, além de uma espécie de respiro, algo subversivo.


Folheio um livro na livraria. A forma de articulação das frases é curiosamente familiar. Já vi isso antes: na dicção fragmentária e dispersiva das redes sociais. O caos das vanguardas transformou-se na forma natural do cotidiano. No uso comum da língua. A prosa narrativa realista é uma espécie de desvio formal em relação a essa lógica bruta, dispersiva e fragmentária, que está aí no uso comum.


O traço predominante do nosso tempo é falta de regras, de escolas, a diversidade: o relativismo estético, a impureza, e o próprio esfacelamento do estético. Sabemos no entanto que impera nos extratos mais altos da cultura literária a ideia de que o realismo morreu. Ora, se o experimental tornou-se a norma, se a experiência do tempo se acelera de maneira vertiginosa, a própria noção de experimento implode sob suas próprias bases: “O que se chama de experimental envelhece cada vez mais facilmente, ou se converte em algo tradicional, ou se incorpora aos usos normais”, afirma o escritor espanhol Javier Marías. “Há uma flexibilidade maior. Sempre houve uma enorme capacidade de fazer isso, mas antes havia um pouco mais de resistência. Hoje não. Hoje normalmente tudo se incorpora, tudo se torna velho, antigo. O presente se converte em passado cada vez mais rápido. Inclusive no momento em que um livro é lançado, parece que já é passado.”


Exatamente por isso o realismo à maneira de Munro não é um retorno ingênuo a forma do realismo histórico: trata-se de um realismo transformado, pós-vivo, que aponta para o futuro porque escapa da norma vigente. Aquilo que é violentamente recalcado sempre retorna. Resta pensar como esse realismo não-ingênuo se configura na nossa época, como esse retorno ao real enxerga, nos rastros do passado arcaico, a potência de uma abertura ao tempo de agora, ao múltiplo tempo por vir.


Levando em conta que a Literatura é sempre uma espécie de desvio em relação ao dado bruto da realidade, pode-se pensar a feitura dessas obras em polos equidistantes que se espraiam num espectro gradativo: de um lado, obras que saturam ainda mais a fragmentação, a incapacidade de enfaixar as coisas numa forma totalizante, como se deformassem e se assemelhassem ao próprio caos; por outro lado, as narrativas que insistem nessa batalha perdida de erguer um enredo. No caso destas últimas, sem nenhuma “história secreta”, que viria à tona no final, como nos velhos tempos: a ponta de iceberg, revela-se agora, sem nada por baixo, flutuando no abismo. Importa menos escavar o “verdadeiro real”, importa mais fazer vibrar essa pulsão narrativa, esse “desejo do real”, numa época em que quase tudo é mediado por fantasmagorias.

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