Terça-feira, 3h40

Três leitores numa biblioteca de Londres, após um bombardeio, II Guerra Mundial, Holland House Library, London. September, 1940 (RCHME Crown copyright)

Gosto muito dessa foto dos três leitores numa biblioteca de Londres, depois de um bombardeio, durante a Segunda Guerra. Alguém poderia dizer que esses sujeitos deveriam estar entrincheirados, matando nazistas. Quem sabe. Talvez fossem velhos demais para o serviço militar — ou talvez tivessem algum problema de saúde. Difícil saber. Só sei que essa imagem sempre me causou um sentimento estranho.


Diante de todo esse caos político e econômico (um pequeno imbecil na presidência, um sujeito de visão arcaica na prefeitura, pequenos grupos fascistas se articulando a cada dia), vem sempre a sensação de que a ficção não dá conta. Nem de ler. Nem de escrever. O que um livro de ficção poderia oferecer diante disso tudo?


Antonio Candido ainda tem muito a nos ensinar. Não é apenas pelo frescor da prosa, sempre límpida ao tratar de problemas complexos. Além de ser um grande mestre do ensaio, Antonio Candido se mostra ainda muito atual. Aos que quiseram enterrar seu pensamento antes do tempo, vão ter que conviver muito com seu espectro.


Poderia aqui evocar o número de citações em artigos e teses, nos últimos quinze anos (na área de Literatura, Candido é o mais citado, logo à frente de Walter Benjamin), mas prefiro pegar outro exemplo: os ensaios recentes de Flora Sussekind, sobre a relação difícil entre literatura e contexto: uma resenha sobre o Mundo Sitiado (que por sua vez trata da poesia e a Segunda guerra) e Ações Políticas/Ações Artísticas. Não são coisas fáceis de se pensar, principalmente sem cair na pacificação imediata: arte não tem relação nenhuma com a política. Ou o contrário: a obra é condicionada pelo contexto histórico e político. Os abalos históricos-políticos estão aí. A literatura e outras artes têm incorporado esses elementos. Isso é fato. Como pensar essa relação sem escorregar na boa intenção do panfleto é o grande problema.


Candido resolveu isso falando que o contexto deve ser levado em conta quando passa a integrar a forma, ou seja, a configurar o elemento interno: são dissociáveis. Não sei em que medida é possível pensar essa forma de ver a literatura com o conceito de crítica em Benjamin: teor material, o comentário, e teor de verdade, decorrente da superação do primeiro nível.


São coisas para se pensar. Com a serenidade daqueles leitores de Londres. Chapéu impecável. Cenho franzido. Correndo o olho nas páginas de um livro, eles mesmos incorporados às ruínas da biblioteca. Continuar tocando a vida, apesar de tudo. A literatura como resistência — ao mesmo tempo precária e radical — contra a barbárie.