Design e memória

Em construção

Vera Damazio (2005, p.13): a palavra design tem sua origem no latim “designare”, trata-se de um verbo que significa tanto designar, como desenhar; portanto, abrangendo tanto o sentindo de intenção, quanto o de configuração.

Não consigo copiar essa merda

A memória é definida em dois campos: a primeira, a memória genética, e a segunda, a cultural. Enfatizo assim a memória cultural, essa que é repassada diversificadamente. Por esse fato, reconheço na memória um meio complexo, em que os vetores são diversos. Não há diretrizes formatadas e estáticas que assegurem que a memória cultural de um povo se mantenha. Para Maurice Halbwacks (1990), se aprofundar nos estudos de memória compreende tanto as dimensões sócioculturais quanto as materiais.

O autor defende que a memória é sempre construída em grupos, contudo, é também, sempre um trabalho de sujeito (HALBWACKS, 1990). Em “Memória Coletiva” há a distinção entre dois termos, “memória coletiva” e “memória individual”, porém o autor afirma que a memória individual não existe estritamente sozinha, ela sempre passa por contextos sociais, sendo assim, o fluxo é contínuo.

Maurice Halbwacks (1990) levanta em questão a diferença entre a história e memória, muito relevante para a discussão que se segue. Segundo o autor a memória é contínua, sobrevive num processo de fluxo entre passado e presente, enquanto a história é uma linha contínua e reta dos grandes fatos da humanidade.

Estudar memória gráfica é atentar-se para o cotidiano. Ouso a dizer, que é valorizar o corriqueiro, não no sentido de “o que é sem graça, vulgar”, mas no sentindo “do que é usual, habitual “. Olhar para esses objetos gráficos é procurar sinais deixados pela sociedade daquele tempo do qual pertencia esse objeto, por isso, trabalhar com memória gráfica se torna tão especial: a busca imagética que revela vivências e costumes.


Vimos que o design, através de seus produtos, sejam utensílios, mobiliários, roupas ou produtos gráficos tais como jornais, revistas, livros, embalagens, rótulos, entre outros, possui relação direta com o público que o consome, refletindo identidades, denotando individualidade e retratando modos de vida. Justificando essa afirmação Adrian Forty nos diz que:

Longe de ser uma atividade artística neutra e inofensiva, o design, por sua própria natureza, provoca efeitos muito mais duradouros do que os produtos efêmeros da mídia porque pode dar formas tangíveis e permanentes às idéias sobre quem somos e como nos devemos comportar. (ORTY, Adrian. 2007, p 12)

Assim é possível considerar os bens produzidos, sejam eles utilitários ou produtos culturais, como suportes de memória da sociedade que os consumiu. Mas para justificar essa afirmação é preciso, antes, clarear alguns conceitos sobre memória. Neste sentido, Izquierdo define memória como “(…)o armazenamento e evocação de informação adquirida através de experiências(…)”. Nora amplia esse conceito esclarecendo que

A memória é a vida, sempre carregada por grupos vivos e, nesse sentido, ela está em permanente evolução, aberta à dialética da lembrança e do esquecimento, inconsciente de suas deformações sucessivas, vulnerável a todos os usos e manipulações, suscetível de longas latências e repentinas revitaliza- ções. NORA, Pierre. 1984, p. 9

Assim sendo, para que a memória sobreviva é preciso respaldo de um grupo. Não havendo mais o grupo, o meio social no qual a memória é revivida e renovada, sobram os vestígios ou suportes materiais. Neste ponto, entramos na problemática dos lugares de memória. Sobre isso, Nora decreta:

“Há locais de memória porque não há mais meios de memória”. Continuando, afirma que: os lugares de memória nascem e vivem do sentimento que não há memória espontânea, que é preciso criar arquivos, que é preciso manter aniversários, organizar celebrações, pronunciar elogios fúnebres, notariar atas, porque essas operações não são naturais. NORA, Pierre. 1984, p. 13

Em ambientes urbanos, a vida contemporânea é cercada de objetos pouco tangíveis e imemoráveis, que podem dificultar a compreensão dos valores socioculturais e das relações emocionais, como o prazer e a felicidade. Os objetos biográficos são aqueles que representam as experiências humanas de construção afetiva do passado. Podem ser citadas as fotografias, uma santinha de cabeceira, uma caixinha de mú- sica, uma escova de cabelo, uma penteadeira, um castiçal, os vidros de perfume, ou seja, aqueles objetos guardados em um lugar de significação para a pessoa. O que diferencia esses objetos de tantos outros é o valor histórico e emocional destinado ao mesmo, contidos na memória familiar ou individual. São chamados objetos biográficos porque recordam pessoas ou momentos de suas vidas e fazem parte do contexto histórico de cada indivíduo, conforme Bosi (1979)

É nessa perspectiva que se compreende a cultura e suas manifestações da realidade, enquanto expressões a nível simbólico, baseado na experiência vivenciada pelos segmentos na sua experiência cotidiana. Nesse sentido, a cultura tanto pode ser expressa por elementos tangíveis como casas, museus, igrejas, entre outros, quanto por aqueles que, ultrapassando a uma existência palpável, tornam-se liga- ções entre a contemporaneidade e um passado socialmente determinado, ou seja, diz respeito a um patrimônio espiritual.