Transmissão? Perpetuação? Absorção? ÃO?
Da cultura e memória

Pomian (2000) chama atenção para a grande quantidade de “suportes materiais” da memória coletiva hoje presentes na sociedade: documentos, monumentos, objetos de coleções, livros, ruínas, etc., elementos que foram sendo produzidos ou adquiridos graças aos avanços tecnológicos que permitiram o aperfeiçoamento dos dados científicos, bem como o acesso a locais antes inexplorados.
As identidades parecem invocar uma origem que residiria em um passado histórico com o qual elas continuariam a manter uma certa correspondência. Elas tem a ver, entretanto, com a questão da utilização dos recursos da história, da linguagem e da cultura para a produção não daquilo que nós somos, mas daquilo no qual nos tornamos (HALL, 2000, 109).
Bergson ressalta em seu trabalho dois tipos de memória: a memória-hábito, adquirida pela repetição e ação de comportamentos habituais (por vezes automáticos) e a imagem-lembrança, constituída por rememorações isoladas, vocativas, que ocorrem independentes de qualquer hábito. Essa última, por ser inconsciente e individualizada, é considerada por ele como a verdadeira memória, pois o passado estaria aí, vivo para “souvenir”, vir à tona, constituindo-se em autênticas ressurreições do passado (BOSI, 1987, p. 48). As lembranças, nesse caso, poderiam ser buscadas no inconsciente para serem atualizadas, no presente.
Para Bergson (1999), a percepção, ou seja, a leitura que fazemos do objeto presente está sempre impregnada de lembranças, mesmo as lembranças que estão no inconsciente (memória pura).
Ao afirmar que “a história é filha da memória” e que “fala-se tanto em memória porque ela já não existe mais”, Candau (2011, p. 133) lembra o historiador francês Pierre Nora. Uma expressão que vem sendo empregada com frequência na contemporaneidade foi criada por Nora na obra “Les lieux de mémoire”, em 1984. Os “lugares de memória” surgem, segundo o autor, de um jogo entre a memória e a história no qual é preciso se ter vontade de memória, de manter algo vivo. Essa expressão tem sido utilizada para referenciar suportes de memória, locais aos quais vinculamos referências que nos são importantes; lugares capazes de guardar lembranças e permitir o acesso a elas sempre que se fizer necessário ou conveniente; são lugares ou espaços em que a memória pode ser revivida ou recriada para a construção de uma memória coletiva capaz de identificar importantes grupos sociais que, por sua vez, podem contribuir também para uma identidade maior: a da nação.
A memória é um campo também onde se fala de dois processos em constante fluxo esquecimento e lembrança. Conforme Pimenta (2014, p. 4784): “o fato é que transformamos em informação nossas memórias para melhor guardá-las do esquecimento; damos a elas forma com o objetivo de melhor recuperá-las de pronto”.
Assim, a partir do registro da memória por meio da escrita foi que se tornou possível a sua armazenagem e permanência para as futuras gerações, portanto, a escrita é um instrumento de preservação da memória. Antes da escrita, a forma que o homem dispunha para transmitir a informação era de forma oral, mas esse canal de informação sofria alterações de acordo com a mudança do narrador, que, muitas vezes, além de agregar sua experiência de vida pessoal, às vezes se desviava do fato original.
Para Funari e Carvalho (2009), a cultura material, mais do que um produto humano é um estimulador de mudanças nas relações sociais, que está intimamente ligado à memória, dá suporte ao patrimônio e impulsiona a construção de identidades e fatos históricos. Ainda segundo os autores, cultura material também pode ser entendida por tudo que é produzido ou modificado pelo ser humano, que faz parte do seu cotidiano e está sempre presente na vida dos grupos sociais. Esta cultura é composta por diferentes tipos de materiais com os quais os humanos lidam no seu dia a dia e para tanto é necessário adaptações e mudanças para adequá-los as suas necessidades de moradia, trabalho, lazer etc. Esses indivíduos interferem e modelam os recursos naturais de acordo com suas vontades, necessidades e habilidades de tal forma que esses objetos venham a saciar suas necessidades físicas, emocionais, intelectuais e espirituais. Os objetos possuem uma vida social, por onde os objetos passaram, a quem pertenceram, determinam o seu valor mercadológico e simbólico, os objetos materiais funcionam como veículos de qualificação social. A materialidade torna-se um suporte essencial por sua condição de ferramenta para a vida social, pensamos e nos expressamos por meio dos objetos, um modo fundamental de comunicação não discursiva. A cultura material, além da materialidade possui também um caráter simbólico, porque carrega em si à imaterialidade das coisas.
O conceito de “cultura material” nasceu na segunda metade do século XIX com os estudos da Pré-História, mas o termo só começou a ser difundido a partir de 1919. A cultura material pode ser entendida também, como vestígios do que o homem produz, podendo ser chamados de artefatos que representam uma documentação palpável e objetiva que pode ser usada para o estudo de modos de vida. Pode-se dizer que os vestígios também funcionam como provas concretas ou materiais do funcionamento de determinadas culturas.
Os artefatos ou objetos são intermediários na relação homens mundo, ou seja, são agentes ativos que contribuem para definir o lugar do homem na natureza e nas relações sociais. Woodward (2007, p. 3) define objetos como as coisas materiais que usamos e com as quais interagimos. O uso do termo “cultura material” para se referir aos objetos enfatizaria o modo como “coisas aparentemente inanimadas” que nos envolvem agem sobre as pessoas e sofrem ações delas no desempenho de funções sociais, na regulação de relações sociais e na atribuição de “sentido simbólico à atividade humana”. Quanto aos “estudos de cultura material”, trata-se de uma nomenclatura recente que integra “diferentes pesquisas acadêmicas sobre usos e significados de objetos”, oferecendo um “ponto de vista multidisciplinar sobre relações homem-objeto”. Para o autor, os objetos têm significados culturais importantes e que muitas vezes fazem algum tipo de “trabalho cultural” relacionado a representar os contornos da cultura, incluindo as questões de diferenças sociais, estabelecendo a identidade social ou gestão de status social.
