Push&Pull e por que pessoas não são recursos

Push&Pull — Tensão criativa entre objetivos de negócio e aspirações pessoais


Eu sempre me encantei com as discussões sobre o futuro.

Na escolha de filmes, livros, nas conversas em família, na escola, na faculdade, no mestrado, nas empresas que trabalhei, nas minhas aulas… Sempre encontrei espaço para devanear sobre futuros possíveis (futuros, no plural, porque o futuro não chega para todas as pessoas do mesmo jeito e nem ao mesmo tempo).

E falando em futuro, o futuro do trabalho, ou o trabalho do futuro, tem sido uma temática recorrente. Conectividade, Inteligência Artificial, robôs e a tal da Quarta Revolução Industrial têm agitado as conversas sobre as profissões do futuro e sobre as habilidades necessárias para conseguir navegar no futuro do trabalho hiperconectado.

“Estamos a bordo de uma revolução tecnológica que transformará fundamentalmente a forma como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos.
Em sua escala, alcance e complexidade, a transformação será diferente de qualquer coisa que o ser humano tenha experimentado antes”,
diz Klaus Schwab, autor do livro A Quarta Revolução Industrial. Pode soar apocalíptico, mas os impactos já estão acontecendo, dizem, em larga escala e a toda velocidade.

Pensar sobre o futuro me ajudou muito ao longo da minha vida profissional e pessoal, contribuiu para que eu criasse o hábito de me questionar continuamente sobre as minhas certezas. Aliás, esse é um exercício que recomendo a todas as pessoas que possuem muitas certezas (e, na prática, não deveriam estar tão certas assim).

Mas antes de discutir mais a fundo o futuro do trabalho temos assuntos urgentes do nosso tempo para refletir. E não me entenda mal. Eu continuo sugerindo que pensar sobre o futuro é um exercício muito válido e importante. Porém, alguns sintomas de uma doença maior já nos afetam e são convites a refletir e falar mais sobre o nosso tempo. As pessoas estão infelizes e adoecendo com a dinâmica do universo do trabalho.

Segundo a pesquisa global da AON menos de 24% das pessoas são engajadas com o que fazem, e esse número vem caindo, sem falar nas várias histórias que todas nós conhecemos de pessoas que entram em depressão e outras que simplesmente surtam devido à dinâmica estressante de trabalho. Por isso, faço um convite a refletir e falar mais sobre o agora.

O MUNDO DO TRABALHO E O SEQUESTRO DA SUBJETIVIDADE

Edgar Morrin, em seu livro A Via — para o futuro da humanidade, ressalta que o trabalho é a maior vítima da hiperespecialização do século XX. Pessoas abrem mão de seus sonhos e aspirações para cumpir metas e passar uma parte significativa de suas vidas em movimentos horizontais e verticais definidos por planos de cargos e salários de uma empresa. Uma cadência de assujeitamento coletivo, que considera que pessoas são recursos.

Mesmo para quem está fora das fábricas, esse arquétipo da era industrial ainda nos persegue. Permanecemos como mais um elemento produtivo. Imbecis autômatos especialistas em bater metas, sem tempo e espaço para desenvolver potencialidades e criar sentido sobre o próprio trabalho.
Cena do filme Tempos Modernos, Charles Chaplin, 1936

É claro que o ambiente de trabalho mudou. Isso você já sabe. Hoje temos escritórios mais coloridos, cheios de post-its, espaços lúdicos, videogames, piscinas de bolinha e cerveja liberada. A hierarquia vem cedendo espaço a formatos mais horizontais. Mas a questão é: a lógica de carreiras em que pessoas são recursos, alocados para se movimentarem horizontalmente e verticalmente na pirâmide hierárquica, continua a mesma.

Não importa se a empresa é uma startup ou uma multinacional. Se possui um chef de cozinha, mesa de ping-pong ou tem um discurso estetizado sobre propósito (seja lá o que isso significa). Ainda se pensa em padronizar as jornadas individuais para que os alvos e metas da empresa sejam alcançados e, idealmente, superados. E pronto! A permanência insistente de uma lógica sutil e perversa de enquadramento das pessoas, mas que garante a capa da revista, o passeio de iate e voos de primeira classe para c-levels e/ou fundadores da empresa. Parece familiar?

Aonde eu quero chegar com isso? E afinal, o que é esse tal de Push&Pull?

Uma das características de empresas que se propõem a inovar e se manter relevantes para o mundo é a diversidade — a combinação e o encontro de diferentes competências, habilidades, idades e estilos de trabalho e de pensamento que as pessoas trazem para o grupo.

Nesse contexto, é importante situarmos diversidade não apenas como mais uma palavra da moda. Estamos falando de mais do que um grupo de pessoas diferentes que trabalham juntas, mas sobre a riqueza da dinâmica que acontece entre elas, e essa abordagem está em total sintonia com mudanças comportamentais importantes pelas quais todos os segmentos de mercado e da sociedade têm passado.

Criar um contexto estimulante e capacitante para o desenvolvimento das pessoas passa a ser exercício constante e permanente de empatia, e é somente através dessa projeção que conseguimos ter conversas de valor, entendendo valor como o que é importante e faz sentido não apenas sob a ótica da organização, mas para os vários stakeholders que compõem o seu cenário.

E é aí que há uma dificuldade grande de entender como essas variáveis de aspirações individuais e de negócio precisam conversar e quão desafiadora é a missão de promover desenvolvimento de pessoas considerando um cenário que prima pela diversidade.

Temos então, o Push&Pull, uma tensão criativa entre objetivos negócio (push) e aspirações pessoais (pull) para que cada pessoa possa trilhar o seu próprio caminho.

A empresa e as pessoas crescem juntas, vivenciando um propósito genuinamente coletivo e construído de forma colaborativa.

Se por um lado as empresas precisam ser mais responsivas à necessidade de transparência e confiança para que as pessoas saibam o que a empresa defende, aonde ela quer chegar e como ela pretende cumprir sua promessa nas diferentes dimensões organizacionais (projeto, área, setor, região e mercado em geral), por outro, as pessoas precisam desenvolver autonomia, autoconhecimento, buscar feedbacks para não seguir apenas um caminho pré definido.

Momentos de Push&Pull servem como uma ferramenta para ajudar as lideranças da empresa a compartilhar os desafios emergentes e ao mesmo tempo contribuir para que cada pessoa entenda o seu papel e tenha seus objetivos contemplados para um futuro melhor para todo mundo, e não apenas para quem está no topo da pirâmide hierárquica.

MOMENTOS DE PUSH&PULL

A perspectiva sistêmica de Push&Pull nos permite compreender melhor a complexidade dos momentos que compõem as jornadas individuais (entrada na empresa, onboarding de projeto, mudança de papel, mudança de função) que, em integração com outros atores (lideranças diretas, times de trabalho, executivos da empresa) cria a tensão criativa para o setting de expectativas compartilhado.

E quando compreendemos os momentos e as ferramentas dos processos de Push&Pull (feedbacks, 1:1s, checkpoints de jornada, revisão salarial) temos mais possibilidades de pensar e discutir ações e movimentos que conduzem à emergência de propósitos, quer individualmente quer em grupo, mais flexíveis, evolutivos e que fazem sentido.

CAMINHOS DO PUSH&PULL

PORQUÊ O EXERCÍCIO DE PUSH&PULL PODE SER BOM PRA VOCÊ:

  • Você precisa ser a pessoa mais interessada no seu sucesso. Seja protagonista. E não delegue isso a ninguém.
  • Ninguém sabe mais do que você o que é melhor para você.
  • Construa as oportunidades que permitam que você seja você mesma. Mas seja uma versão de você melhor a cada dia.
  • Não sabe exatamente o que projetar para o futuro? Está ok! Ninguém hoje sabe, em maior ou menor grau.
  • Você pode ser o que você quiser projetar ser, independente de gênero, classe social, raça ou outros fatores que podem gerar preconceitos e vieses. Eles existem, mas precisamos lutar contra eles. Diversidade não pode justificar desigualdade de oportunidades.
  • Esteja no fluxo dos acontecimentos. Conecte-se. Esteja em movimento, preste atenção, converse com as pessoas e você irá construir as oportunidades que virão.
  • Não desista fácil, mas saiba abrir mão quando perceber que algo não faz mais sentido para você, seja um emprego, um empreendimento, uma aposta ou um projeto. Não desista sem tentar, mas não deixe que as novas oportunidades encontrem você ancorada.
  • Aprenda. De novo e novamente. Aprenda sempre.
  • Não aceite um enquadramento. Não aceite trilhar o caminho definido por outras pessoas.

AGORA SIM, AO FUTURO.

O exercício de Push&Pull não vai garantir que você tenha um emprego (tal como conhecemos hoje) no futuro. De fato, ninguém têm a menor ideia de onde estará o mundo e o mercado de trabalho nos próximos anos. E, com certeza, muita coisa ainda vai mudar.

No mundo que estamos criando muito rapidamente, veremos cada vez mais coisas que se parecem com ficção científica e cada vez menos coisas que se parecem com emprego” (Andrew Mcfee) .

Estudos têm tentado prever quais serão as profissões do futuro e quais serão os novos modelos de trabalho. Consistentemente ao longo dos anos, porém, essas previsões são difíceis e muitas provaram ser um grande erro. Um bom olhar para o futuro, no entanto, não é ter respostas certas, mas questionar o tempo todo e fazer boas perguntas.

Push&Pull te convida a refletir e a criar novas perguntas sobre a sua jornada o tempo todo. Ao invés de focar no trabalho do futuro, se concentre em entender o que é progresso e sucesso para você hoje. Entenda o que é valor para o negócio (seja ele qual for). E cocrie expectativas que façam sentido. Essa dinâmica tem impacto direto na vida das pessoas e no sucesso das empresas.

Inovar é cada vez mais a condição básica de sobrevivência para as empresas. Parar de tratar pessoas apenas como recursos e considerar a criação de um contexto estimulante para que as pessoas possam conviver, aprender e se tornarem a melhor versão delas mesmas é um caminho que conduz à inovação colaborativa. A melhor versão de cada pessoa, faz a empresa uma empresa melhor.

Para serem bem sucedidas na próxima década, as pessoas precisarão se conhecer cada vez mais, ter a habilidade de gerenciar a própria trajetória profissional e não delegar isso para ninguém, muito menos para um CNPJ. A construção do Pull vai te apoiar no desenvolvimento de competências adaptáveis para navegar em um cenário em constante mudança.

E acredite: daqui a um ano você vai desejar ter começado hoje! (Karen Lumb). Então, comece agora mesmo a cocriar o seu futuro possível.

Essa é a minha primeira publicação por aqui, se você curtiu, aperta o ❤! :)

* Decidi publicar esse post inaugurando esse espaço após receber o Troféu Luca Bastos de melhor palestra do @AgileTrends Floripa. Para quem se interessar, deixo aqui os slides também.
Slides da palestra sobre Push&Pull — Agile Trends Floripa 2017:
https://www.slideshare.net/grazimendesrangel/pushpull-tenso-criativa-entre-objetivos-de-negcio-e-aspiraes-pessoais
Fotinha do prêmio que postei no whatsapp da família ;)