CartaConto 7: Uma busca pelo desentendimento de todas as coisas óbvias

Ou como tornar-se desumano

CartaConto para a pessoa que pediu a palavra “desentendimento” facebook.com/cartaconto || cartaconto.tumblr.com

Se chovesse amanhã, não poderiam ir no parque. Provavelmente, teriam que ficar os quatro enclausurados em casa, vendo filmes e comendo besteira. Não seria tão ruim assim. O parque seria melhor. Precisava respirar um pouco. Ar puro não seria. Não existia ar puro em cidade. Seria um lugar aberto, e só.

Patrick não parava de olhar pela janela. A ideia sde ficar mais um dia em casa, pelo visto, o consumia. Atrás do quase arranha-céu ainda ainda com concreto à mostra e andaimes montados, uma nuvem negra se formava. Ou choveria naquela noite, ou choveria de manhã. De qualquer forma, o parque não seria uma boa ideia.

Essa época do ano era sempre a melhor. Tinham tempo livre para fazer o que bem entendessem. Em geral, fazia sol. Se davam bem. Viam filmes, tomavam espressos em cafés. Daniela e Tiago ficavam de bom humor temporariamente, porque normalmente, antes de o Desensinador ir passar um tempo em outros lugares — no Centro, nas casas de seguidores em outras partes — os dois irmãos já haviam chegado ao limite de sua paciência com ele. Ele ria; não se incomodava nem um pouco. Gostava de causar algum sofrimento. Achava que o sofrimento desensinava muita coisa.

Patrick e eu, não. Estávamos sempre sedentos por ele, por ouvir tudo o que ele tivesse a dizer. Quando ele entrava em períodos de silêncio, ficávamos loucos esperando alguma palavra sua. Às vezes, ele quebrava o silêncio falando algo como:

— Pare de querer ser algo, Luciana! Você não existe.

Outras vezes, passava pasta de dente na minha cara enquanto eu dormia e quando eu acordava, toda melecada, me dizia:

— Rá! Otária.

Amávamos ele.

Nosso Desensinador tlvez tivesse deixado raiva e saudade em alguém, embora não soubéssemos ao certo. Estávamos com ele havia três anos. Claro que não sabia sua idade exata, mas tudo me indicava que estava, àquela altura, com dez ou onze anos.

Por sorte, choveu pouco no início da noite, mas logo parou. O dia seguinte estava ensolarado e sem muita umidade no solo. Preparamos uma cesta de piquenique — uma caixa térmica, na verdade, como eu gosto de chamar, porque cooler sempre me pareceu uma palavra irritante. Fomos à pé e no parque estendemos uma toalha de mesa no chão, na parte mais seca que achamos.

— Sabem quando ele volta? — Tiago perguntou.

— Não, mas imagino que semana que vem. Ele nunca ficou mais de dez dias fora.

— Podia ficar um bom tempo.

— Daniela!

— Ah, que foi? Vocês dois podem ter esse amor imenso por esse cara mas eu não. O nosso Desensinador antes dele era tão diferente. Nos fazia sentir amados. Acolhidos. Esse é um babaquinha sádico. Porque agora está essa coisa, né. De endeusar o Desensinador, colocá-lo num pedestal. Aí eles vão virando babaquinhas sádicos e frios e ninguém sabe porque. Não é possível que só eu note.

— Você está ouvindo o que está dizendo? “Amado, acolhido.” Isso é uma mãe, um pai, um amigo. A funcão de um desensinador não é te amar nem acolher.

Ela pegou um punhado de uvas de um pote transparente e abocanhou três ou quatro, mastigando irritada, de boca aberta.

Dois dias depois, ele voltou. Estava sujo e cheirava mal. Disse que não pretendia mais tomar banho. Pediu que parássemos de limpar a casa também. Tiago perdeu a paciência.

— Isso não é possível! Vocês quer que a gente viva como porcos?

— Qual o problema?

— Nós não somos porcos.

— Então agora somos porcos. Vamos desaprender a ser gente, e vamos ser porcos. Amanhã, eu quero um porco aqui.

Patrick e eu eu tomamos o ônibus A117, que levava às fazendas e sítios nos limites da cidade. Perguntamos em quatro sítios se alguém tinha um porco para um Desensinador, mas as pessoas sequer abriam as portas. Se suas janelas viam nossas carecas e nossa nudez e certamente pensavam, “ah, não vou falar com esses doidos.”


Nas paredes ele escreveu:

“Não são pessoas.

“Não são seres.

“Não são matérias.

Não têm cor nem cheiro.

São máquinas de achar.”

Eu quero des-achar, irmão, mas não consigo esquecer as palavras.

Então ele me pediu que escolhesse uma palavra que eu achasse bonita. Eu escolhi luminescência. E ele: então repita luminescência permanentemente enquanto estiver acordada.

Luminescência, luminescência, luminescência, luminescência, luminescência, luminescência, luminescência, luminescência, luminescência, luminescência, luminescência, luminescência.

Perguntei a ele o que era luminescência e ele riu. “Ah, entendi!” Decepcionado com minha compreensão, ele começou a chorar e espernear. Me pediu que começasse de novo com outra palavra.

Eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu…


Luciana e Patrick voltaram a pé com o porco para casa. Começou a cair chuva de vento. Uma senhora de idade os olhou consternada. Pediu que vestissem um casaco, pelo amor de deus, iriam pegar uma pneumonia. Responderam que estavam acostumados. Uma hora o corpo se acostuma. O porco, que Patrick puxava pela coleira, fez oinc.

— Mas eu não entendo. O que leva vocês a isso? A quererem viver assim? Vocês são jovens! Poderiam ter uma vida boa. Estudar, viajar. E andar vestidos! Ficar vivendo com essas crianças dementes, enlouquecidas. Olha, eu já recebi meninos como vocês na minha casa. Dou comida, ajudo vocês a se estabelecerem, arrumarem um trabalho.

Patrick e Luciana se entreolharam, buscando intuir um no outro como responder. Então se agacharam, ficaram de quatro no chão e se puseram a entoar:

Oinc, oinc, oinc, oinc.


Daniela repetia eu, eu, eu, eu, eu enquanto Patrick e Luciana engatinhavam oeka casa roncando oinc, oinc e comendo restos de comida e lavagem de um barril. Eu só queria olhar pela janela e pensar, mas ele não me deixava. O Desensinador parecia sempre notar quando alguém estava preso em seu próprio díalogo interno e quando não o interrompia com um brandido de vara de marmelo na bunda, despejava nele um balde de água fria na cabeça. Dessa vez sentou-se do meu lado no chão e começou a latir.

— Eu cansei dessa brincadeira. Não quero desentender, só entender.

Ele me apontou a porta, como sempre fazia nesses casos. Em que eu dava meus pitís. Tinha minhas crises. Queria mais do que tudo envelopar meu corpo, me cobrir, poder usar máscaras.

— Você pode fazer o que quiser, Tiago.

E então tornava-se ainda mais duro escolher. Entre essa liberdade doída e o conforto de um grilhão macio. Eu poderia, afinal, fazer o que quisesse. Vestir um casaco. Deixar meus cabelos crescerem. Arrumar um emprego.

— O que é “eu”, Tiago? — Daniela me perguntou. Seus olhos eram olhos de criança e eu respondi o que sanaria sua dúvida sem pervertê-la com lógica.

— Eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu.

Segui sem casaco.

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