CartaConto 13: para quem pediu a palavra “desvãos”

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Desvãos


Para H.

Curitiba, 22 de Junho a 2 de Julho de 2015

Havia um debate corrente na minha família sobre o que, afinal, era o desvão. Minha mãe argumentava que tratava-se do espaço entre o forro e o telhado. Tio Januário afirmava tratar-se de um quarto onde se guardam quinquilharias. Vó Teresa dizia ser o espaço debaixo de um lance de escadas. Os diálogos sobre o assunto sempre seguiam o mesmo trajeto:

– Mãe, cadê tal coisa?

– No desvão.

– Ah, debaixo da escada!

– Não! Desvão não é isso! Desvão é o espaço entre o forro e o telhado. Abre aquela portinha que dá para o forro em cima da porta do meu quarto.

Etc, etc.

O fato é que cada um usava o seu desvão para guardar os seus segredos, e isso aceitava-se em acordo tácito e subentendido.

Exceto Saulo. Saulo era meu primo mas eu tinha mais intimidade com o filho do padeiro do que com ele. Até seus vinte e três anos ele morara com a mãe em Manaus e se eu o tinha visto em três natais foi muito. Então ele resolveu, depois de passar cinco anos flutuando entre empregos em shopping centers e cursos técnicos não concluídos, vir fazer uma faculdade pública no Rio. Vó Teresa convenceu tio Januário a acolher o menino e o que ele (Tio Januário) por anos chamara de desvão passou a ser o quarto do filho que ele tinha visitado uma vez a cada dois anos.

Saulo guardava segredos na sua mente e não dizia mais que bom dia e boa noite para mim. Eu, aos catorze anos, achava que ele era misterioso e detentor de grande sabedoria.

Um dia, ele me perguntou — nós dois na cozinha, sozinhos, em um sábado à tarde:

– Amanda, o que você faz para se divertir com seus amigos?

Senti vergonha de responder, mas achei que mentir seria pior. Ele saberia, do alto da sua sabedoria de vinte e três anos. Fui sincera, mas vesti minha máscara de apatia juvenil.

– Ah, nada de bom. Vou ao shopping. Vejo filmes. Eu sou bem nerd. Não faço nada de incrível.

– Hoje você podia sair comigo e uns amigos. Você pode dizer que tem dezessete anos. Eles vão acreditar. Vamos falar dezoito, mesmo! Você é alta. E tem um jeito maduro.

Nada, nada pode fazer uma menina de catorze anos mais feliz do que convencer as pessoas ao seu redor de que ela tem mais de dezesseis anos. Naquela noite, eu devo ter colocado uns dois quilos de maquiagem.

Sentar-se na mesa com os amigos de Saulo foi uma grande decepção. Esperava um grupo de universitários, meninas que eu pudesse copiar, garotos com cuja atração impessoal por mim eu pudesse alimentar meu ego e minha libido reflexiva e reativa. O que encontrei foi um grupo de pessoas de trinta e tantos anos, que me pareceram anciãs. Temi que eles fossem evoluídos demais para acreditarem que eu tinha dezoito anos, mas agora não havia como recuar.

Ao meu redor, paredes de pedra me enclausuravam em um karaokê bar de luz baixa e com ar de salão de festa. Um bar de canto de sala, com balcão reluzente, servia drinks frutados e baldes de cerveja. O lugar parecia uma mescla pavarosa de bingo da terceira idade, cantina de família italiana e Studio 54 em processo de decadência a olho nu.

Saulo me apresentou para seus amigos: dois casais e uma mulher que eu entendi, ao longo da noite, ser sua namorada. Ela era morena de olhos claros, usava um vestido justo e decotado, e tinha uma cascata de cabelos tingidos de preto-azulado. Saulo não conseguia tirar as mãos dela.

Os casais pareciam detestar estarem ali. Os homens principalmente. Passaram a maior parte do tempo olhando um ponto fixo na parede de pedra. Um feixe de lasers coloridos a cada alguns segundos passava pelo rosto de Saulo. Ele e a mulher, que chamava-se Marlene, cantaram sertanejo juntos. Levavam a sério. Faziam primeira e segunda voz, melismas, mexiam o microfone no ar. Os casais seguiam em silêncio, bebendo caipirinhas. O público aplaudiu Saulo e Marlene. Eles voltaram, orgulhosos, para a mesa. Eu me senti terrivelmente inadequada e quis, mais do qualquer coisa, ir embora. Mas nem o silêncio pesado, nem a meia luz camuflando a tristeza do bar, nem o duo desafinado que começara a cantar “Porto Solidão” pareciam incomodar Saulo e Marlene. Os dois riam, se beijavam e se acariciavam, ao mesmo tempo em que uma falta de intimidade e de assunto desconfortável espreitava nos momentos de quietude dos dois.




Saulo pareceu se lembrar da minha presença ali e disse:

– Amanda gosta de escrever em diário. Você vai escrever sobre hoje no seu diário, Amanda?

Os casais e Marlene riram e por um segundo achei que Marlene não estivesse gostando da minha presença. Ri também.

– Eu só escrevo pensamentos. Coisas que me vêm na cabeça.

– Nada! Você conta o seu dia em detalhes. Aí, você guarda numa caixa no desvão e acha que ninguém sabe onde está guardado.

– Não, guardo debaixo da escada!

– Ô menina, — disse uma das mulheres — desvão é quarto de guardar velharia.

– Não é nada disso. É aquele vão entre forro e telhado. Tem uma aberturar para lá em cima do quarto da mãe dela e lá que ela guarda o diário. Já sei que você beijou uns dez meninos, mas não quis ir aos finalmentes com nenhum, né?

– Aos dezoitos anos? Que raridade…

– Que dezoito o quê! Essa menina tem catorze anos.

Fingi rir enquanto por dentro senti o sangue correr acelerado. As maçãs do meu rosto ficaram vermelhas, mas acredito que ninguém tenha percebido. Passei o resto da noite em silêncio. Pensei que Saulo havia cometido um crime terrível, mas sabia que seria mais ridícula e infantil se expusesse minha raiva. Vomitei no banheiro, porque Saulo me havia deixado tomar duas caipirinhas, e eu nunca tinha bebido mais que um gole de cerveja do meu pai escondida com minha amiga Ana Beatriz.




Saulo levou Marlene para nossa casa no fim daquela noite e me pediu para não dar um pio — não queria que a velharada toda acordasse. Se enfiou em seu quarto com Marlene. Eu me escondi debaixo da escada — o meu desvão, onde eu saboreava minha dor e provava o sal do meu choro baixinho, baixinho.

Era quase prazeroso sofrer aos catorze anos, mas também solitário e inexplicável. Eu nem sabia bem porque estava chorando. A dor era lacerante, mas acho que eu sabia, em algum canto do cérebro, que era naquele momento que eu me sentiria mais viva.


Dia desses vi o Saulo em um supermercado. Ele estava calvo, com uma leve barriga, uma aliança e um filho pequeno. Seu filho implorava por tijolinhos — aqueles docinhos doces e azedos e forma de tijolo rosa. Ele dizia que não, que o moleque já tinha comido uma barra de chocolate na véspera. O filho fez cara feia e se afastou dele arrastando os pés, murmurando “seu chato”. Eu vi Saulo, e Saulo me viu, e tacitamente compreendemos que ninguém queria se cumprimentar. Cada qual virou a cara e seguiu seu rumo e fingiu, em uma performance digna de Oscar, não ter visto o outro.

Vi seu filho, ainda emburrado, entrar debaixo do carrinho do supermercado. Aquele desvão não ia durar, mas o meu também não durou.

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