Louco escurecer para dias sãos

CartaConto 12, para a pessoa que me pediu a palavra louco.

— Vá rápido, Joana, não deixe sua irmã acordar.

Que contrasenso, sua velha estúpida, ela pensou. Como poderia deixar ou desdeixar que alguém acorde? Ela queria dizer “vá rápido na rua, Joana, para que sua irmã não acorde sozinha em casa”, mas nem isso sabia falar direito. Que raiva ela tinha dessas palavras mal articuladas. A velha não fazia um esforço sequer para tecer uma ideia. Pedir a ela que lhe explicasse uma história, então, era impossível. Tudo desconjuntado, disparatado.

— Vou e volto rápido, vó. Ela só costuma acordar na hora da novela das 7.

Na rua, as casas pareciam azuladas, algumas arroxeadas. As luzes dos postes ainda não estavam acesas, e o mundo estava no limbo mal-iluminado entre o dia e a noite. Esse horário fazia seus olhos doerem. A vida era solitária para Joana de uma maneira que ela não sabia explicar. Na verdade, sequer havia ocorrido a ela a palavra “solidão”. Sabia só que sentia uma dor estranha quando a noite começava a cair e chegava a hora de sentar-se na sala com sua irmã mais nova, a avó e a tia idosa para assistir a novela das sete. A novela das sete passava-se numa cidade chamada Belo Dia, em alguma parte do Nordeste. Todos os atores usavam um sotaque carregado e ares dramáticos. Um deles se chamava Inácio Marques, tinha uns vinte e poucos anos e interpretava um jovem rebelde, Tales, pobre e apaixonado pela filha do coronel rico, autoritário e violento da cidade. De noite, Joana fantasiava que era ela a Lola, enamorada de Inácio. Se beijavam com ardor, ela e Inácio, e sua fantasia terminava aí. Não sabia mais o que fantasiar. Tornava-se por alguns segundos menos solitária, mais longe do azul da tarde, e do azul da televisão.

A professora de inglês na escola explicou: “blue em inglês também pode significar triste.” É difícil dizer se Joana passou a associar o azul à tristeza depois de ouvir isso, ou se a explicação da professora se encaixou no que ela já sabia para além das palavras. Joana nunca parou para pensar na ordem dos fatores, mas desde então achava óbvia a tristeza dos fins de tarde e da tela da televisão.

Chegou na padaria, que também fazia as vezes de mercearia e depósito de cerveja do bairro, e pediu oito pães franceses, trezentos gramas de queijo prato e trezentos de peito de peru defumado. Quando estava prestes a sair, lembrou-se de que havia esquecido o leite. Voltou, pegou uma caixa de longa vida integral e pagou com o troco que havia recebido pelo pão e frios. Caminhou de volta para casa, devagar. Duas senhoras silenciosas a olhavam de cadeiras de plástico dispostas na calçada diante de uma casa cujos muros e paredes estavam acizentados pelo tempo. Um cão vira-lata passou tão rente à sua perna que ela chegou a sentir seus pelos se eriçarem. Ouviu um estalo ínfimo, seco, que de primeira ignorou; depois outro, depois outro, depois outro.

Aos seus pés, marimbondos caíam mortos. A rua vazia começava a ser pontilhada pelos pequenos corpos negros dos insetos. Deixou suas três sacolas plásticas caírem no chão e correu. Um marimbondo morto caiu em cheio sobre seu cocoruto, e ela chacoalhou os cachos enquanto corria pela rua cada vez mais azul e preta. As senhoras continuavam sentadas nas duas cadeiras de plástico, três quarteirões para trás, e o cachorro tinha se despejado sobre o asfalto mais e mais encoberto por marimbondos.

Em um segundo, cada um dos milhares de milhares de marimbondos sumiu diante de seus olhos.

Joana recolheu as sacolas do chão. Andou os dois quarteirões restantes até sua casa e, depois de dispôr a comida do lanche da tarde na pequena mesa de jantar feita para dois, entrou no quarto em que a irmã, avó e tia tiravam o cochilo da tarde. Sobre os lábios da irmã, um bicho preto — agora vivo, móvel e ágil — preparava-se para cravar seu ferrão. Joana jogou um travesseiro contra o rosto da irmã, que acordou chorando e por sua vez fez acordarem a tia e a avó.

— O que é isso, menina?

— Uma coisa bateu em mim.

— Que besteira! Joana, — disse a vó ao vê-la junto à porta — já pôs a mesa do lanche?

— Já.

Enquanto a vó preparava um sanduíche para si mesma e a tia passava manteiga no pão de Clara, Joana olhava pela janela buscando sinais dos marimbondos. A rua continuava quieta, mas agora de azulada havia passada a escura e amarelada pela luz dos postes. Na tevê, Inácio Marques dizia “Lola, eles não podem separar a gente. Eu vou lutar por você, custe o que custar.”


— Você agora não para em casa. Quer sair o tempo todo para a rua. Parece cigana errante. Isso não é coisa de moça direita, não.

— Para, Vó! Só quero andar um pouco. Não aguento ficar parada o dia inteiro dentro dessa casa.

— Mas então vai estudar, vai limpar alguma coisa! Quê que tem que ficar o tempo todo batendo perna, ainda mais no fim da tarde? Essa hora é perigosa.

Joana suspirou, mas por fim desistiu de argumentar. Sabia que nenhuma sanção séria viria da avó. Era só abrir a porta, ir para a rua e voltar antes da novela das sete. Nos dias em que precisava buscar a comida do lanche, não tinha necessidade de argumentar. Nos seus sonhos das últimas noites, o corpo de Inácio Marques aparecia todo feito de marimbondos. Seu refúgio noturno tinha ido pelos ares. A rua, porém, seguia a mesma: azulada e vazia nos fins de tarde.

Durante o lanche, a televisão piscava os mesmos tons de azul e verde nos rostos da irmã menor e das duas senhoras. A música de abertura era uma versão nacional de uma música estrangeira. Letras cromadas e coloridas diziam “Vila de Amores” e logo em seguida a cena interrompida antes da abertura começou de novo. Tales, no corpo de Inácio Marques, tentava arquitetar um plano de fuga com Lola. Lola estava grávida e seu pai iria matar Inácio se descobrisse que o pobre diabo a havia desonrado

Lola estava em dúvida. Não queria abandonar sua família. Não sabia se Inácio a poderia sustentar. Correu melodramaticamente para uma praia deserta em que contemplou o mar em desespero. Encostou na boca e pareceu sentir ânsia de vômito. Com a ponta dos dedos, puxou algo do fundo da garganta: uma enxurrada de besouros saiu voando de sua boca e planou no ar por alguns instantes antes de todos cairem mortos, em perfeita sincronia e uníssono.

A avó, tia e irmã seguiram comendo os seus sanduíches. Levavam os seus pratos para perto da boca para não deixar farelos caírem sobre o pequeno sofá de dois lugares e a poltrona raquítica. Lola seguia olhando o mar. A novela cortou a cena para outro núcleo, o núcleo cômico que se desenrolava em uma fazenda onde um trabalhador braçal tentava seduzir uma moça arrogante formada em direito que vira da cidade para visitar os pais.

- Um dia eu quero morar em uma fazenda — Clara disse. As duas senhoras balançaram a cabeça afirmativamente, sem dizer nada.

Naquela noite, Joana não sonhou com Inácio Marques, nem mesmo em forma de marimbondo ou de besouro. Via apenas uma escuridão desenrolar-se diante de seus olhos. Não sabia dizer como, mas a escuridão movia-se, ou ela movia-se pela escuridão.


Marcos chutou uma pedra que havia se soltado da calçada. A pedra ricocheteou e levantou um pouco de poeira, até por fim bater no meio fio e parar a alguns centímetros da calçada. Ele tinha as mãos no bolso da bermuda de tactel barata. Joana tirou uma bala de caramelo de um pacote de papel e deixou na boca até que estivesse macia o suficiente para ser mastigada. Marcos pediu uma. Catou uma vara do chão e começou a mexer na terra avermelhada da estrada. O sol fazia os dois franzirem o cenho, mas eles não percebiam. Estavam acostumados.

Marcos era o único menino amigo de Joana. Não falava muito com ela na escola. Na verdade, praticamente a ignorava, dando um “oi” rápido e baixo quando a via pelos corredores. Tinha dois anos e meio a mais e vivera toda a sua vida a três casas de distância de Joana. Se falavam em tardes tediosas ou então no caminho para casa, que faziam juntos mais por acidente do que por planejamento.

— Qual menina você queria ficar?

— Nenhuma.

— Como assim, nenhuma? Você não gosta de menina, não?

— Gosto! Só nenhuma da nossa turma.

Joana torceu na mão o embrulho da última bala de caramelo, se sentindo arrependida por ter acabado tão rápido com o último pacote de balas que havia sobrado do dia de São Cosme e Damião.

— E você? Com que menino você ficaria?

— Nenhum também.

— Nem o Luis Felipe?

— Por que ele?

— Todas as meninas gostam do Luís Felipe.

— Eu não.

— Então você também não ficaria com ninguém?

— Só com o Inácio Marques.

— Ele é de que turma?

— Ai, garoto! Que turma. Ele é o Tales da novela. Da “Vila de Amores.”

Tales jogou a vara de madeira no chão e fez sombra sobre o rosto com a palma da mão.

— Ah, mas aí não vale.

— Você perguntou com que eu ficaria, eu ficaria com o Inácio, só ele.


Clara caiu no sono mais cedo do que de costume. Tinha pão, torradas, queijo e presunto do lanche anterior. Nenhuma desculpa para ir à rua. Joana falou à avó e à tia que queria andar porque estava agitada. A avó suspirou e deu de ombros, enquanto a tia não levantou os olhos da novena que lia, sentada na poltrona magra e velha.

Joana então andou em linha reta na direção da padaria, passando dela por algumas quadras. Virou à direita e decidiu fazer o caminho de volta pela rua paralela. A rua não estava azulada como sempre ficava no fim da tarde, mas com tons um pouco distintos. Havia chovido mais cedo, e restavam algumas nuvens por cujas frestas e vãos o sol poente ainda deixava passar raios. As poucas e áridas árvores que haviam na rua estavam contornadas por uma luz sépia, quase marrom. Joana achou essa cor menos triste, mas sentiu falta da luz normal.

Parou alguns segundos, fingindo que estava procurando alguma coisa ao longe por medo de parecer esquisita. Nenhum zumbido no ar. Nem sinal de marimbondos, nem mariposas, nem besouros.


Primeiro alguém leu em uma rede social e contou para todas as meninas do bairro. Depois veio a confirmação no primeiro telejornal da noite. Inácio Marques havia sido encontrado enforcado em seu apartamento. A novela das sete não seria exibida naquele dia de luto. Uma reprise de novela antiga foi colocada no lugar.

Todos especularam: poderiam ser drogas. Ou ele era depressivo. Um rapaz tão jovem. Tão bonito. Joana saiu de casa sem pedir à avo. Os ultimos raios azulados iluminavam a rua, que já já transformariam-se em amarelo acinzentado quando o sol saísse por completo e as luzes fracas se acendessem.

Os marimbondos começaram a cair, dessa vez mais devagar, mais suaves. Joana sentou-se no meio fio e deixou que eles a rodeassem, que se acumulassem nos seus cabelos, nas pálpebras dos seus olhos, no declive que sua saia formava quando sentava-se com as pernas cruzadas. As cascas rígidas e os ferrões se compactaram à medida em que inundavam a rua e encobriam seu corpo. A luz do sol sumiu e a luz dos postes se acendeu.

Ouviu sua avó chamar “Joana! Vem tomar seu lanche!” e levantou-se, sentindo o veneno post-mortem dos ferrões circular por seu corpo.

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