Questões preliminares: o método e o eclipse solar.

Dentre os 4 (J. Roveda Jr., Planetas Diários, Ocultista distraído e eu Lucas Jerzy Portela) + 1 (Flavia) tem havido, como em toda parte, discussões informais nos últimos meses sobre os rumos políticos do Brasil sobretudo no ano vindouro. Particularmente Wilson e eu tivemos algumas conversas sobre análise de mapas astrológicos natais de alguns possíveis candidatos nas próximas eleições (se houver). Contudo, tanto de minha parte quanto da dele quanto imagino de muitos outros, a assersão de um saber (ou de mais de um, imbrincados) vinha misturada a uma fantasia de realização de desejo (wishful thinking) ou fóbica.

Daí que propus se aplicar uma metodologia que vem da Psicanálise Lacaniana para um saber que nada tem de clínico, mas que no entanto compartilha, enquanto oráculo, o campo comum do desejo inconsciente — o método em questão é o Cartel.

Embora o Cartel tenha por objeto primeiramente questões clínicas, e posteriormente metapsicológicas e culturais, entendo que pode ser aplicado a qualquer saber no qual o inconsciente atue, e não apenas ao saber do inconsciente, sobre o inconsciente — e sim a qualquer saber inconsciente enquanto adjetivo (isto é: o inconsciente, como substantivo, enquanto lugar topológico de um saber não-sabido). Neste sentido, é possível constituir, digamos, um Cartel de Engenheiros sobre a construção de uma ponte — como por exemplo realizei anos atrás um Cartel sobre a forma canção durante o fim do carlismo e durante a Reforma Cultural Bahiana. O mesmo pode ser dito sobre o dispositivo Freudiano da supervisão: originalmente uma forma previlegiada de transmissão de como operar a clínica da associação livre sob atenção flutuante, é possível oferecer uma supervisão psicanalítica sobre problemas não clínicos que não se confunde com uma orientação acadêmica por levar em conta que o saber em questão é inconsciente (isto é: tem no inconsciente seu lugar).

Um Cartel não é exatamente um grupo de estudos ou de trabalho, primeiramente por não ser um grupo: seus 4 componentes não precisam seguir caminhos similares de desenvolvimento de idéias sobre o problema posto, e sua duração é definida externamente, embora não previamente, pelo +1 — embora durante o Cartel as comunicações parciais públicas tendam a ser coletivas, é esperado que no seu fim cada membro tenha uma produção individual. Os 4 membros do Cartel são pessoas a quem se atribui certo saber e interesse pelo problema ou objeto dado — já o +1 ocupa o importantíssimo lugar da douta ignorância: a ele cabe não saber, e com esta ignorância fazer os outros quatro produzirem, apontar equivocos e mal-entendidos, etc. Esta função é similar a de um psicanalista no atendimento clínico ou numa supervisão, e é o +1 que é soberano na dissolução do Cartel.

Já de saída, um problema preliminar se colocou aos membros deste Cartel talvez como um ato falho: ele começou a funcionar no dia 21 de julho pela manhã, exato momento do Eclipse Solar em Leão (Conjunção Sol-Lua), depois de ter sido montado em poucos dias num tempo quase recorde. É notável que um cartel que se propõe a estudar as condições astrológicas de uma crise política nasça sob a representação dos dois luminares em conjunção plena no signo da governança por excelência, conferindo talvez um lugar privilegiado para reflexão sobre os rumos vindouros da atual crise política e estado de golpe (ou golpe de estado) em que vivemos; o eclipse não foi irrelevante nos mapas natais individuais de cada membro deste cartel: para um o eclipse se opôs ao Sol natal em Aquário, representando um novo desafio nesta área de trabalho; para outro, foi uma conjunção com o Sol natal leonino, trazendo-o de volta a interação neste campo do saber místico que ele havia relegado, etc. Em menor grau, o eclipse se dá em quadratura com o Saturno natal da Constituição de 1988, e que é o Saturno do transito — o principal desta interpretação seria menos relativo a conjunção Sol-Lua (que só tem efeitos notáveis em eixo: conjunção ou oposição), e mais pelo fato de que a Constituição da Nova República passa atualmente por seu 1º Retorno de Saturno, e as Constituições da República costumam entrar em crise por volta de seus 28 anos.

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